terça-feira, 10 de junho de 2014

"NARRAR PARA VIVER E LER PARA NÃO MORRER"



“NARRAR PARA VIVER E LER PARA NÃO MORRER”
“Quase em lágrimas, acabei por depô-los sobre os joelhos de minha mãe. Ela levantou os olhos de seu trabalho: “O que queres que eu te leia, querido? As Fadas?” Perguntei, incrédulo: “As Fadas estão aí dentro?”
(Biografia de Sartre, “As Palavras”)
Por: Vannda Santana
Revisão: Marcia Vital
Relendo o livro Biblioterapia de Marc-Alain Ouaknin, é possível questionar por que uma técnica tão antiga de leitura pôde levar tanto tempo para ser considerada mais que um mecanismo de entretenimento –  técnica terapêutica para curar – muito além do alto poder de sedução e encantamento. Além do mais, já sabemos que as histórias infantis guardam seus truques; pois além de cativar o ouvinte pela magia presente em cada conto de fadas, também favorece a que toda criança, ao simbolizar, se reconheça na trama do simbólico, na esteira da escrita. Na epígrafe, infere-se como a leitura dos contos de fadas pode produzir significados psicológicos tão eficazes, capaz de despertar o desejo de integração ao simbolizar a aventura, projetando, assim,  na emoção e no encantamento, o processo de construção da personalidade. Nos contos de fadas, o bem e o mal recebem corpo na forma de algumas figuras e de suas ações, já que bem e mal são onipresentes na vida; e as propensões para ambos estão presentes em todo homem (BETTELHEIM,1996).
A leitura, para uns, exerce a representatividade de uma necessidade, enquanto, para outros, serve como teor lúdico. Mas a leitura como terapia tem um papel mais profundo embutido nas palavras como um remédio sem efeitos colaterais. É desta leitura que vou expor a minha opinião para você, leitor. Trata-se do dizer daquilo que a leitura produz em silêncio e do que ela pode ser capaz de promover para o crescimento emocional de qualquer indivíduo: os exilados de qualquer estado ou, ainda, para as realizações imaginárias, para o amadurecimento psíquico e para uma legião de necessitados que se realizam através de leituras específicas.
 No livro a que me refiro, Biblioterapia, abrindo um dos capítulos denominado Ler, curar, iniciando, textualmente, a narração como projeto de “ler para não morrer”, entra em cena a personagem de as Mil e uma Noites, conhecida como Xerazade, a princesa que contava história para escapar da morte. A partir daí, a técnica de biblioterapia ganha um status de verdade necessária, tal como nos contos de fadas.  O texto nos informa que é viável a prática da leitura como terapia em qualquer condição, física ou emocional.
 “O diálogo biblioterapêutico produz uma “passagem dialógica/dialética de um sentido para outro no seio da significação de uma mesma posição pulsional, passagem correlativa à intuição de um espaço de mediação, de transição entre os leitores, ‘espaço tradicional’, como diria Winnicott, espaço de troca no qual a verdade não é posse de nenhum dos pólos presentes, mas no qual ela se certifica surgindo na passagem da passagem de uma a outra via a passagem intermediária que os separa e liga.”[1]
          Para tanto, é necessário perceber que esta não é uma técnica recente na história literária. Já na antiguidade, Aristóteles, discorreu sobre a liberação das emoções como resultante da tragédia; em que a partir do ato de excitamento das emoções, de piedade e medo notava-se um alívio prazeroso, proporcionado pela catarse. Desse modo, vejo na leitura uma porta aberta à criatividade, assim como já fazem os “doutores da alegria” (pequenos grupos de profissionais caracterizados de motivos circenses) que adentram alegres e corajosamente os hospitais e enfermarias pediátricas, levando alegria em seus rostos caracterizados, somente  para subtrair o sorriso de olhares tristes e doentes de crianças. A leitura aqui é mais que uma metáfora e pode ser um gesto, uma mímica, um conto ou uma história qualquer que desperte novas emoções. Esta é uma prática de possibilidade ressignificativa, um instrumento de auxilio e cura para todos aqueles que se encontram internados e por extensão, aos familiares dos pacientes que estão envolvidos no processo de cura. A biblioterapia é uma dessas práticas que entra na vida do indivíduo e deixa uma marca como resposta significante: amenizar o sofrimento com algo prazeroso que nos invada a alma. Ela pode ser utilizada nos asilos, lugar onde os idosos vivem com poucas opções de leitura, provenientes de suas visões já cansadas. Além disso, a técnica será indicada também para internos de qualquer lugar onde haja necessidade de romper com os limites, através do vasto universo que há no mundo das leituras.
 Para o profissional de arteterapia, vejo a leitura, hoje, como uma aliada de grande importância à criatividade; tão importante quanto um pincel, um lápis ou um frasco de tinta. São inegáveis os aspectos da leitura como técnica de reler e rever o lido e o escrito como auxílio de transliteração do texto. Portanto, principalmente para os profissionais da arteterapia, deve-se ter um cuidado na indicação da leitura, cabendo ao terapeuta fazer uma seleção de maneira criteriosa para que o conteúdo a ser oferecido ao indivíduo traga respostas como objeto de criatividade que se pretende alcançar com a criação da técnica. Para que tal atitude tenha sua eficácia, é bom ter o cuidado em levantar o histórico de vida do indivíduo, o que ele está passando naquele momento, qual é a sua história. Este processo remete-nos a uma anamnese que deverá ter, como referência, a essência da leitura textual.  A busca por tratamentos especiais e/ou alternativos, aliados aos tratamentos convencionais estão cada vez mais expostos e competitivos, tal como numa vitrine de ofertas. Entretanto, a proposta deveria ser o bem-estar do paciente; e o que conta, realmente, é a saúde em questão. Lamentavelmente, não é bem assim que a “coisa” funciona; o que acontece não é o que ocorre em todas as esferas da saúde. A biblioterapia surge como uma nova abordagem e uma nova opção de tratamento para todos os casos e  idades, tipos de patologias e situações. Dentro dessa nova modalidade de criatividade, estão hipóteses de vários recursos textuais: leitura silenciosa e oral; interpretação e sentido; dramaticidade gestual entre outras possibilidades.
 A biblioterapia admite a possibilidade de terapia por meio das diversas  leituras de textos: contos de fadas, romances, poesias, peças de teatro, filosofia, ética, religião, arte, história, livros científicos, contos populares e textos literários. Contempla ainda, a leitura de histórias e os comentários adicionais. Propõe práticas de leitura que proporcionem a interpretação do texto teatralizado.  A biblioterapia sustenta um fundamento filosófico e psicológico os quais determinam a identidade dinâmica de como esse processo de identificação entre o leitor e o ouvinte se vale da introjeção e da projeção, partindo aliás, do pressuposto de que toda experiência poética será sempre catártica e de que toda liberação da emoção irá produzir uma reação de alívio da tensão, ao mesmo instante em que acalma a psique com seus princípios de um valor terapêutico.
Percebemos, então, que a função terapêutica da leitura admite a possibilidade de a literatura proporcionar a pacificação das emoções. Retomando, aqui, as lições de Aristóteles, podemos observar que o filósofo analisa a liberação da emoção como uma resultante da tragédia – a catarse. Porém, chamamos à atenção para o tipo de exposição de leitura; o texto a ser lido  para liberar o excitamento das emoções de piedade e medo, terá de passar por uma seleção criteriosa, a fim de proporcionar, então, o alívio prazeroso. Assim, a leitura do texto literário, teria uma função determinante, tanto no leitor quanto no ouvinte, gerando o efeito de placidez, que seria como (remédio) e a literatura, a virtude de ser  o (calmante), a dose certa e sedativa para curar as angústias do dia a dia.
 Desse modo, pode-se afimar que existe uma terapia exercida por meio de livros, uma terapia que recebe o nome específico de biblioterapia, originada de dois termos gregos biblion – livro, e therapeia – tratamento. Admite-se que esse conceito, trata-se de uma técnica de terapia necessária a todos os cidadãos, indistintamente de credo, idade, raça e lugar.
Bibliografia:
BETTELHEIM, Bruno. A Psicanálise dos Contos de Fadas. Paz e Terra, 1996. São Paulo. 11ª edição.
SARTRE, Jean-Paul. As Palavras. Difusão Européia do Livro, 1964
OUKNIN, Marc-Alain. Biblioterapia. Edições Loyola. São Paulo, 1996



[1] P. Lekeuche, “Le lest de Szondi, p.326. In Marc- Alain Ouaknin, p.158.


domingo, 27 de abril de 2014

Brasil: Miragem e realidade



Texto: Vannda Santana

Revisão: Marcia Vital


 
 

A Casa e o sonho de ser um brasileiro cosmopolita num país sem "ORDEM" e sem "PROGRESSO".

Mesa desarrumada, papéis soltos, embaralhados, assuntos empilhados sem solução.  Assim, meio perdida nesse universo restrito, restrinjo o grito de uma agonia implícita, de onde ouço e sinto, inerte, nada poder fazer contra o vírus que se propaga, principalmente, no cenário do poder público, causando na consciência nacional um distúrbio generalizado, gerando em todos nós uma banal descrença. O mau desempenho do poder público é uma espécie de câncer à brasileira que vai se degenerando e formando, visivelmente, uma massa intocável dos chamados defensores do sistema. Estes senhores, células corrompidas do governo, cuidam apenas em se proteger para continuar cada vez mais “fortes”; para corromper cada vez mais; para vender a qualquer preço as nossas riquezas. 

A metáfora da casa tem como objetivo sinalizar a desordem que invadiu nossos lares literalmente. Penso que para todo mal há sempre uma cura, mas, no caso do Brasil, assisto ao descontrole de um país que não é levado a sério; não sei onde, nem como encontrar solução. Meio desiludida com os políticos de um modo geral, desconfiada e sem ver uma luz no final do túnel, acho que este “tumor cancerígeno” há de explodir a qualquer momento.  O poder público adquiriu e coletivizou um ego doentio de governantes desajustados, de  epidêmicas reações e de discursos vazios. Não há como desviar o alvo desse foco inflamado segregado há séculos. Parece-nos coerente nos fazer ouvir em nossos descontentamentos, mas não basta um BASTA a toda e qualquer espécie de sorte e farsa. Temos de reunir forças para resuscitar o Brasil que se encontra armado contra o povo que está anestesiado, acreditando num Messias que possa vir nos salvar.

 Acorde Brasil! Saia desse terrível pesadelo! Levante-se e venha suscitar no povo novas esperanças, nos faça crer na raça e na força destemida dos brasileiros, aqueles mesmos que torcem cegamente pelo futebol. Penso num governo justo que não ameace o nosso futuro.  Mas o que fazer para despertá-lo se os interesses políticos já estão todos comprometidos? Falcatruas viraram manchetes comuns na ordem do dia. A imprensa empresta sua voz e desvela a sujeira escondida debaixo dos panos, mas ainda assim a verdade é distorcida e as autoridades só a usam para favorecer os senhores do poder.

Chegou a hora de uma nova esperança - futura. Mas que diabo de esperança é essa que chega o futuro e nada de esperança? E todos pagam para ver;  e veem que o hoje é sempre hoje sem amanhã; e o amanhã está no ventre do ontem para nascer. A fotografia da história empresta-nos sempre a mesma cara.

Na alquimia dos meus sonhos, sonhei a venturosa casa brasileira onde, com bases firmes, a dignidade pudesse ser erguida como construção do caráter social do país. Porém, entristeço-me em saber que essa "casa" não possui sequer alicerce; ruíram-se todas as bases de conduta moral. Não acreditamos mais no alarido de discursos vazios que põem em cheque a tão sonhada democracia. Queremos uma democracia autêntica que não se contamine pelo mortal vírus da desordem maligna. O legislar em causa própria faz parte de uma ideologia falida que hoje tem sido o real objetivo daqueles a quem elegemos para nos representar.

Tenho a impressão de que tudo ficou lá atrás nos registros de um ufanismo vivido pelos idos do início do século XX. Hoje, apenas o sonho é o que sobrou para rebater tanta insatisfação diante do que vemos acontecer.

 Será que Lima Barreto tinha razão quando falava de um amor à Pátria? Assim como ele eu também acreditava. Tanto que escrevi esta crônica pensando oferecer qualquer coisa que pudesse mudar o rumo dessa história. Mas tal como Lima Barreto, em que sua crença o conduziu à  loucura, acho que devo estar trilhando o mesmo caminho por não encontrar eco na honestidade dos governantes deste pais.  O perfil dessa história política não deveria perfilar nas linhas que escrevo; mas se o faço não é por mero prazer; nem acredito que seja meu dever desvelar fatos que aniquilam a consciência do povo de um modo geral. Como escritora obrigo-me a denunciar nesta crônica os abusos que os Senhores do Brasil estão fazendo com a nação inteira; sentindo-se os próprios donos do povo, amordaçando nossas consciências.

Num turbilhão de desconstrução moral, a civilização moderna aderiu “comodamente” à máquina produtora de crimes e com ela ao sistema organizado de corrupção. Basta ligar a TV e pronto, o pacote vem completo! Nem precisamos sair de casa. Pela porta da frente entra o mal sem pedir licença.

Hoje, assistimos ao horror e à violência urbana tomar conta de ruas e  cidades na tela do dia-a-dia. Falam em bairros, comunidades, favelas; em melhorar a vida desses menos favorecidos, mas o que se veem são flagelos humanos espalhados em fatias de caixas de papelão por calçadas e praças públicas das cidades brasileiras.

  Denunciar fatos como esses relatados não dá ibope. Mas penso que em cada um de nós, cidadãos brasileiros, habitam também retalhos desses  trapos acinzentados, não como poética de um estado sintomático, nem como semântica da realidade  com a qual todos nós estamos envolvidos,  mas falo impulsionada  pela voz da certeza de que o morro ainda vai ter vez.

Aquilo que nossos olhos e ouvidos alcançam, dentro e fora de nossas casas,  nos deforma e nos transforma em marginais, espectadores de nossa própria desgraça silenciada. E isto não se escreve em um só livro. Mas tudo isto se inscreve em nossa consciência abarrotada de indecisão, desconfiança e tristeza, no mesmo instante em que se instalam no coração do mundo as mais vis destruições dos chamados valores morais. A sorte e o destino de milhões de brasileiros estão aqui nesta crônica, juntamente comigo, emparedados, aprisionados por uma liberdade chamada democracia que só se vê inscrita no papel.

Lamentavelmente, esse é o cenário de nossa brasilidade, cheio de violências e de corruptos, de personagens comuns estampados nas manchetes de nossos jornais. Hoje, ninguém se assusta mais em ter que se desviar de um corpo morto, caído na esquina de sua casa.  Quanta permissividade, quanta injustiça, quanta indiferença e  quanta impunidade, banalizando a vida! De tudo que sobrou do caráter político-social dos governos atuais nos resta a pergunta: quo vadis?

terça-feira, 11 de março de 2014

Leituras possíveis de imagens da imagem


    Por: Vannda Santana     
 
       Dama Ensimesmada

   Márcia Vital - Óleo s/tela -1983
 

A história se fragmenta em imagens, não em histórias.
                                      W. Benjamin (2007, p. 518).

 

Este quadro pertence a uma série de outros da autora que se assemelham, tanto na forma, quanto no estilo monocromático. Nesta linha dos marrons, a artista denuncia, com certa discrição, corpos de figuras que se apresentam com um erotismo que se quer camuflado no emaranhado dos elementos que lhe servem de adorno. Nesta fase de elementos que transitam entre o cubismo e o surrealismo, percebe-se a predominância de traços em busca da forma ideal – no ensaiar de uma transparência – para vir a ser a marca singular do traço significativo que logo iria se estruturar como estilo de uma fase e, consagrando, assim, a obra da artista Márcia Vital. É possível identificar, ainda, nos trabalhos desse momento, esse marco como presença do traço de “claridade”, de “luminosidade” no delineamento dos contornos, ao espraiar-se de dentro do escuro do marrom, para exibir-se como um detalhe de complemento ao transbordar do limite extremo, onde as figuras se mostram, sugerindo movimentos. Esses traços sugerem uma ligeira semelhança estética com o estilo cubista ao mesmo tempo em que nos faz acreditar que, dada a sua formação profissional (professora e mestra em Literaturas), guarde uma referência estética, em seu acervo inconsciente, à obra de Tarsila do Amaral.

 Não estamos classificando nenhuma abordagem teórica do estilo de Márcia Vital, apenas sugerimos um olhar à obra de arte como elemento de expressão artística, apontando suas possíveis linguagens da imagem: de acordo com o que se refere a epígrafe de W. Benjamin. Por outro lado, não intencionamos ilustrar seu aspecto teórico nem mesmo impor o nosso olhar; a arte que aqui se expõe fala por si.

Márcia Vital nos convida a rever a nossa própria história com o fervilhar de acontecimentos culturais, chamando-nos à atenção para as tais marcas de seu traço peculiar. Através de suas figuras com pernas e braços alongados, marca singular de seu estilo, sugerem lembranças da fase de expressões surrealistas. Esses finos traços de claridades em torno da própria figura emprestam aos olhos esse instante imaginativo: um vislumbrar de formas sensuais e femininas, anatomias que se apresentam a compor o arranjo que se complementa numa espécie de chapéu vestindo a cabeça.

 Nessas formas anatômicas concretas e decodificáveis, conjugam-se figuras eróticas como componentes desse arranjo, numa reunião de traços em formas de corpos nus que compõem o figurino em torno da cabeça, como se fosse um chapéu. Guardam-se nesta visão as devidas sensações por nos permitir lembrar uma Medusa, figura mítica que carrega o conceito de uma criatura terrível entre as (divindades marinhas). Arrefecendo nossa memória, conta a lenda tratar-se de uma linda mulher com asas de ouro, mas que foi castigada por Atena (deusa da sabedoria) por ter feito amor com Posseidon (deus do mar).  Atena, a deusa da sabedoria, transformou Medusa em uma terrível criatura, com pele escamosa e cabeleira formada por serpentes. A figura temida tornou-se mortal, seus olhos transformavam em estátua de pedra  todos aqueles que a encarassem.

 Diante do exposto, daquilo que se pode ver, a artista, intelectual sensível, criou para a imagem o símbolo de seus traços e pôs relevo em sua pintura como discurso perceptivo fenomenológico; emprestou ao olhar uma metáfora inconsciente, sugerindo aos olhos do observador, um aguçar da memória em relação à possível semelhança com a figura mitológica a qual nos referimos anteriormente. O arranjo da cabeça, não guarda mais alusão às serpentes; ele, agora, adquiriu pernas e braços para ser uma fisiologia de movimentos. A artista colocou no rosto da figura um pseudo véu no lugar dos olhos; portanto, os olhos, agora, já não mais suscitarão o medo, pois eles já não cumprem o papel de vingança. O olhar, agora, transmutou-se para vir a ser o Ser da figura central em a Dama Ensimesmada.

Desse modo, bem longe do Olympus, mas bem próximo das formas com suas vibrações e emoções, lançamos o nosso olhar para o objeto de arte sem medo de ficarmos petrificados. Assim, podemos atribuir a esta obra os seus efeitos de contemplação; de um olhar que procura ver sem antes eliminar do foco a imagem; um olhar que mesmo em face dos ângulos ou da  planificação das formas, não se sujeita a meras ilusões de composição. Atribuímos para esta obra seu significado maior como possibilidades de sugestões, onde se pode ler na imagem aquilo que  nos revelam os relevos: desde uma simples sedução a qual nos faz instigar a imaginação, até mesmo para um olhar crítico à procura do traço perfeito de acordo com seu tempo histórico. E para os mais atrevidos, sugiro asas ao pensar que num dado momento, o objeto de arte possa levá-los a subtrair da obra de arte o que a ética lhes possa acrescentar: desde uma simples sublimação até mesmo um certo plasmar selvagem, diante dos relevos sutis.

Transgressão ou uma leitura possível da imagem?  O conceito no qual o objeto de arte, Dama Ensimesmada, se apresentou para nós, suscita-nos considerá-lo uma abstração ou uma transfiguração da própria imagem. Porém, dentro da mesma homologia de cores, o matiz do marrom procura uniformizar-se ao atingir o claro dos limites, como mostra a figura com seus aspectos quentes que logo se ocupariam em fazer a diferença no estilo da artista. Esse destaque monocromático surgiu como um processo comum em relação a outras telas do mesmo período, como por exemplo, a obra Rosácea Sensual, a qual se reveste dos mesmos tons de marrom e o mesmo traço de marca simbólica.

 A maior referência desta obra encontra-se nas formas das figuras que vão se delineando e ganhando espaço na definição dos contornos e das transparências; um ponto comum como prenúncio da abstração do que estaria por vir em futuros trabalhos.  O quadro, Dama Ensimesmada, denuncia com sua pose um requinte no perfil da forma retratada e a artista, mesmo em início de carreira, já ousava demonstrar seu traço firme ao denotar sua forte personalidade no manejo do pincel. O rosto de Dama Ensimesmada mostra-nos um perfil de mulher com a boca finamente talhada: uma intenção ou um acaso? Não importa. A figura prende o observador pela irreverência dos motivos sensuais como se pretendesse sussurrar-lhe algo imprevisível. Talvez, a figura, aparentemente plácida não desperte a atenção para um olhar que não deseje interrogá-la, mas, sim, pelo que ela possa simbolizar no olhar do espectador.

Este quadro faz parte de uma produção em que a artista precedia uma fase experimental dos tons de azuis, uma fase que teve como ênfase imagens futuristas. Em outra oportunidade, falaremos dessas obras belíssimas.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

A palavra na palavra



 

Por: Vannda Santana

Revisão de texto: Márcia Vital

 

"O poema quer o Outro,

 precisa desse Outro,

precisa de um parceiro.

Ele o procura, adequa-se a ele.
Cada coisa,

 cada pessoa

é um poema

que se dirige ao Outro,

 figura desse Outro."

 

Paul Celan[1]

 

 A dor dorme com as palavras - A poesia de Paul Celan nos territórios do indizível e da catástrofe – Um livro cujo tema muito me impressionou e, nele, um “viajar” por caminhos "ínvios", caminhos não muito transitáveis. Porém, quem por estes caminhos optar seguir, com certeza, sentirá a firme presença de Mariana Camilo, que com suas sábias palavras sinaliza e conduz o leitor por terras tão distantes e tão estranhas.

 

  A autora afirma que sua análise partiu da investigação do entrelaçamento entre a experiência e a escritura, levando-se em conta a soma do fato de se tratar de um autor que, de maneira trágica, põe fim à própria vida. Ou seja, dentro da poesia de um dos grandes poetas da época havia o conflito como linguagem do paradoxo da existência.

 

A temática de representabilidade da (in)dizibilidade do trauma vivido pelo poeta Celan, depois de Auschwitz, processa um outro dizer, um reinventar o alemão poético diante da própria dor, um recurso sobre o qual a autora expõem seus instrumentos conceituais, apoiando-se nos conceitos da psicanálise. O livro discorre sob o olhar atento de Mariana Camilo e nele destacam-se o conflito dos judeus e a relação do poeta Pau Celan com sua escrita em língua alemã. A autora afirma, ainda, que somente através da escrita como instrumento, pode-se perceber o esforço de se representar o indizível do horror dos campos de concentração.

 

A dor dorme com as palavras  nos aponta um encontro com a palavra – com a palavra da poesia – na poética de Paul Celan. O livro apresenta uma via de mão dupla, onde a autora revela uma linguagem de escritura poética ao lado da história do homem e seu tempo.

 

A semanticidade que evoca o momento originário do tema -  A dor dorme com as palavras – cuja justificativa se formula no subtítulo – A poesia de Paul Celan nos territórios do indizível e da catástrofe, faz da temática o seu intrincado propósito entre a perceptível escritura, a história e a experiência subjetiva, para se inscrever além dos fatos que agregam a singularidade da vida do poeta com seus aspectos mais recorrentes em torno da travessia do século xx e o horror do holocausto com o consagrado poema  ”Todesfuge” (Fuga da morte). Porque não dizer que neste poema já estaria implícita uma das (im)possibilidades da leitura, (CAMILO, p.29).

 

Mariana Camilo retrata o paradoxo da “morte” ao lado do “belo”, onde a palavra se faz testemunhal ao exibir-se como poesia; onde a dor em seus gemidos se faz ouvir mesmo em silêncio; onde a poesia se mostra como arte ao apontar o caos. A poesia celaniana apresenta-se para nós pelas vias das mãos da autora, através de uma requintada linguagem e com elementos que transcendem à própria contradição da dor no mais íntimo do ser da poesia e da realidade e, como tal, se inserem no ser íntimo da poesia. Assim, o ser da palavra passa a ser núcleo da poesia e a escrita se oferece como ser da dor no núcleo da história.

 

O tempo histórico da poesia celaniana guarda um significado com seu nexo íntimo para além do texto, para além de uma constelação de figuras com o seu pathus (BOSI, 2004), fonte de sofrimento e dor como tecido da escritura do texto e trama da linguagem em questão, pela erudição contida; o que nos faz debruçar sobre as palavras e sua etimologia.

 

 Desse modo e, assim, seduzida pela arte do dizer, não pude silenciar neste escrito A dor dorme com as palavras. Aproveito o momento para convidar você, leitor, a adentrar a obra de Paul Celan pela escritura de Mariana Camilo: uma sedução que se dá durante todo o percurso da escrita e, conduzidos por palavras, façamos, todos, uma  outra viagem - com as palavras.

 

E como disse Cecília Meireles, As palavras estão aí, porém minha alma sabe mais (...). Nesse roteiro, para além do retorno à história de Auschwitz, encontraremos a  poesia de Celan, seria uma fusão entre a escrita e a escritura, poderíamos dizer - uma história dentro da história. Na fala de Mariana Camilo “A escrita, como vimos, seria tida comumente como um instrumento por meio do qual se pode perceber o esforço em representar o indizível do horror dos campos de concentração.” Poderíamos dizer, então, que a escrita poética de Celan é uma invocação à arte como processo de libertar a dor de seu aprisionamento psíquico (recurso do dizer) e que surge como resultado da imagem histórica; marca expressa no fazer poético, um imprint do terror deflagrando o sofrimento inquietante que se manifesta em nome da própria dor que faz do homem o poeta. Ou seja, nessa fusão do ser da dor e da arte, ressurge o ser da história na poesia; uma escrita da história do silêncio que se funde no ser do grito que já não mais poderá ser contido e, assim, se  revelar na poética de Paul Celan que, hoje, entre nós, se faz ecoar.

 

A dor dorme com as palavras, assim, se esboça sobre a poesia celaniana; o livro é parte da história do homem, da sociedade e do mundo e, nele, ouvimos, nitidamente, esse grito do silêncio ser rompido por uma poesia absolutamente aporética.  

 

Para terminar, gostaria de expressar minha admiração a Mariana Camilo de Oliveira por esta belíssima obra.

 




[1] Arte Poética: O Meridiano e Outros textos. Editora Cotovia, 1996 – Tradutor: João Barrento e Vanessa Milheiro.
 

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

A arteterapia nos processos depressivos


A arte é a fada que transmuta e transfigura o mau destino.


(Manuel Bandeira)

 
Por: Vannda Santana
Revisão: Marcia Vital


Depressão e falta de ânimo

 
Depressão e falta de ânimo são palavras sintomáticas e são respostas de ações vividas sobre as pressões expostas pelo cotidiano. Diante de tais estados, somos obrigados a definir o que realmente é importante em nossa vida. Que significado estamos buscando para nossa existência – devemos lutar contra o desânimo? – se não quisermos continuar sofrendo. A resposta para tais atitudes deverá partir de uma decisão importante: a sua própria. Se queremos viver deprimidos e estressados ou eleger uma outra forma de olhar a vida. Inicialmente, o estado depressivo funciona como um sinal de alerta, de que algo está acontecendo de errado e que precisamos mudar a forma de agir e de pensar. Portanto, acredita-se que alimentar o ânimo de viver com atividades variadas, buscar motivos que assegurem maior importância ao bem-estar físico e emocional, seria um indicativo para que possamos atingir aquilo que pensamos ser qualidade de vida. A arteterapia, entre tantas outras práticas clínicas, oferece um eficaz instrumento de ajuda que auxilia os mecanismos humanos a evitar consequências psíquicas e físicas, assim como os sérios riscos que poderiam afetar nossa saúde psíquica.

 
Classificação hipotética dos vários estados da depressão

No quadro de Van Gogh, a depressão se apresenta reproduzida com tintas, cores e gestos e, nos gestos, um traço de total solidão. A Depressão que tem sido íntima de artistas e poetas, desde tempos imemoriais, somente começou a receber a devida importância pela medicina a partir das últimas décadas. Nos anos de 1950 a 1960, a doença foi dividida em dois tipos: endógeno e neurótico. Endógena significa que a depressão vem de dentro do corpo, talvez de origem genética ou pode surgir do nada. A neurótica ou reativa tem um fator ambiental de precipitação como a morte de um dos cônjuges ou a perda de alguma coisa significativa: um bichinho de estimação, emprego, amizades e daí por diante. Nos anos de 1970 a 1980, o foco de atenção passou da causa da depressão aos seus efeitos sobre as pessoas atingidas. Isso quer dizer que qualquer que fosse a causa de um caso particular, os sintomas e as funções prejudicadas passariam a ser tratados por especialistas que se propusessem a concordar e diagnosticar como sendo um transtorno depressivo. O DSM-IV exemplifica as várias causas da depressão e afirma ser necessário o acompanhamento médico, assegurando não se tratar de uma sintomatologia banal, embora ainda hoje existam alguns argumentos distintos como em todos os ramos da medicina. Tendo sido vítima de uma antiga visão dicotômica e parcial sobre o ser humano, em que as doenças físicas eram separadas das alterações emocionais, os transtornos depressivos permaneceram, por muitos anos, à margem dos avanços neurocientíficos. Bem mais tarde e, gradativamente, esta visão foi sendo modificada e ampliada. Esse reconhecimento ganhou um novo olhar sobre a depressão. A partir daí, aderiu-se a um novo conceito no qual passou-se a reconhecer a mente e o corpo não mais como entidades separadas, mas, sim, como componentes de um ser humano que deve ser contemplado em toda a sua complexidade. Desse modo, os sintomas somáticos (corporais) são considerados como frequentes em até 94% dos pacientes deprimidos, podendo afetar todos os sistemas do corpo, gerando alterações e disfunções gastrintestinais, cardiológicas, dermatológicas, sexuais e até as mais complexas como as neuroendocrinológicas, vistas, hoje, como comuns. O estado depressivo passou a ser definido por uma alteração persistente do humor, diminuição do prazer nas atividades cotidianas, alterações de sono e apetite e outras alterações, tais como fatigabilidade aumentada, delineando-se em um perfil multifacetado:  sensação de vazio, de tristeza, de desânimo e de falta de sentidos na vida, um conjunto de elementos negativos irão contribuir para a baixa da autoestima do indivíduo e irão afetar, diretamente, o sistema imunológico.

 Por isso mesmo, é muito importante buscar auxílio, tratamento terapêutico ou psiquiátrico, o quanto antes para evitar o prolongamento da doença. O acolhimento familiar também é muito significativo, pois favorece a melhora psíquica. Além do stress emocional, há o stress físico que pode comprometer o indivíduo em quadros de pressão alta; favorecendo ao corpo manter-se num verdadeiro estado de contraturas musculares, o que, sem dúvida, poderia contribuir para um enfarte do miocárdio ou, até mesmo, levar o indivíduo ao suicídio.
 
E se não tivesse o amor?
E se não tivesse essa dor?
E se não tivesse o sofrer?
E se não tivesse o chorar?
(Caetano Veloso, It’s a long way)

 

Buscando ajuda à recuperação  

 
A melhor forma de tratar a depressão seria, em primeiro lugar, buscar ajuda psiquiátrica. E a partir daí, buscar um suporte psicoterapêutico. A arteterapia é sem dúvida, um grande aliado de cura. Não há uma receita mágica que livre o indivíduo de tais desajustes de uma hora para outra. A depressão é um transtorno que passa pela mudança de humor no qual uma pessoa tem pensamentos de extrema tristeza, desesperança, chegando, às vezes, ao desespero, e esses sentimentos costumam interferir na vida diária, como trabalhar, comer ou dormir. Portanto, cuidar em buscar alegrias verdadeiras, juntamente com uma ocupação saudável são algumas indicações que amenizam e podem oferecer caminhos para futuras soluções. Ainda assim, não se garante que se possa estar livre de qualquer sintoma derivado de um stress, porém o que se sabe é que esse agente tão agressor vem afetando grande parte da população contemporânea, causando vários transtornos sociais, assumindo uma espécie de mal do século pela forma como as pessoas são atingidas em sua dinâmica de vida. Leandro A. T. Tavares, autor de A Depressão como “Mal-Estar” Contemporâneo, fez jus à temática que deu origem ao nome de seu livro, vale consultá-lo.

Aliados de prevenção


Acredito no bom senso, no otimismo, no controle das emoções e na capacidade para refletir sobre as adversidades. Em outras palavras, a prevenção envolve, em primeiro lugar, a autoestima e, logo em seguida, uma predisposição para querer fazer algo; algo que sirva como estímulo, algo que acelere os processos de resiliência. De acordo com esse critério, a autoestima induz ao saber viver com resiliência, sobretudo, buscando nutrir o sentido de esperança e acreditar em dias melhores. Vamos explicar uma a uma.


A AUTOESTIMA é uma experiência íntima na qual o próprio indivíduo se vê envolvido ou pela falta ou pelo excesso. É o que ele sente a respeito e no entorno de si mesmo. Exemplificando: é um sentimento que nem todos estarão aptos a vivenciar face às atribuladas exigências cotidianas. A autoestima tem uma ligação direta com o sistema imunológico e com a consciência. Desse modo, a autoestima precisa ser estimulada para produzir a autoconfiança e, por assim dizer, levar o sujeito a confiar nas próprias idéias (autoeficiência),  acreditar mais e saber-se merecedor da felicidade com (auto respeito).

 
RESILIÊNCIA
significa ser flexível, se autoajudar para voltar ao estado natural o mais rápido possível, buscando algo que possa fazê-lo levantar, sair da inércia, sacudir a poeira e dar a volta por cima (
Paulo Vanzolini). Resiliente é aquele que consegue reconhecer a dor, encontrar um sentido e suportá-la até que seja possível resolver o problema de uma forma positiva. Ser resiliente é buscar o reequilíbrio, enfrentando as circunstâncias com sabedoria e consciência de seu estado. Assim entendido, pode-se considerar que a resiliência é uma combinação de fatores que propiciam ao ser humano condições para esse enfrentamento em busca da superação dos problemas e das adversidades. Há ainda uma outra palavra a ser analisada em seu contexto, trata-se do estímulo que demanda à Esperança e que sem esse  precioso aliado, torna-se mais difícil sair do quadro depressivo, onde a doença impera.


 A ESPERANÇA também nos sugere ajuda, ou seja, alguma ação que nos remeta para a ajuda. O professor e psicólogo C.R. Snyder (1994) nos apresenta uma nova abordagem para o conceito de esperança. O autor referido fala que a esperança seria uma forma para se encontrar novos caminhos, seria um novo rumo frente aos objetivos desejados. Desse modo, podemos dizer que a maior contribuição da Teoria da Esperança de Snyder é salientar o aspecto cognitivo,  ou seja, o foco no processo de crenças e pensamentos envolvidos na esperança. O aspecto emocional será contemplado paralelamente e a esperança contribuirá naturalmente para o fluxo das emoções positivas, de bem estar e de felicidade. Afirmo que, em qualquer situação, onde haja a desesperança, há que se rever as nossas vontades de buscar meios para que se possam atingir resultados positivos: onde há vontade há meios! O autor citado nos diz que temos de investir na esperança para que possamos encontrar caminhos alternativos na eventualidade de obstáculos.

 
De que forma a Arteterapia pode ir ao encontro dessas necessidades

 
Como funciona a arteterapia e o que o arterapeuta pode oferecer? A arteterapia se destina a qualquer pessoa, independente do estado e do sintoma apresentado, quer seja físico ou psíquico. A arte é o instrumento de facilitação e libertação de expressões. Seus mecanismos simbólicos oferecem o ajuste das emoções psíquicas. Os instrumentos utilizados na prática do setting da oficina, apresentam variados tipos de materiais: papel, lápis de cor, colagem, cacoterapia, argila, batik, pintura em tecido, técnicas de cobertura em madeiras, confecção de peças de adorno para recriar representações visuais de pensamentos e sentimentos. A Arteterapia pode ser usada como atividade individual ou grupal. Os critérios arteterapêuticos usados através desses processos criativos  simbólicos promovem ações facilitadoras para o equilíbrio emocional.

 
Importante: a arteterapia não busca fazer um artista; não requer nehuma habilidade artística; a arteterapia não impõe nem induz nenhuma atividade técnica; ela apenas utiliza-se dos materiais da arte para facilitar e transformar o sujeito em seus bloqueios. A Arteterapia com seus mecanismos expressivos explora as emoções e os pensamentos profundos, procurando resgatá-los e libertá-los do abismo dos padrões negativos recorrentes. Esses intensos sentimentos, às vezes,  se tornam imensamente dolorosos, impedindo que o indivíduo avance em seus projetos de vida. O arteterapeuta oferece efetiva orientação, apoio e oportunidade.
 

Bem, de qualquer modo, sempre que houver um problema em nossa vida, teremos de agir, de tomar decisões adequadas e conscientes, pois, ainda que estejamos frágeis,  é mais que um dever tornar nossa vida significativa e compensadora. Desse modo, para que possamos realizar esses eventos, principalmente, quando estivermos nos sentindo desmotivados, será muito necessário buscar ajuda de terapeutas e acreditar que sempre haverá uma luz no final do túnel. Pense nisso!

 

Fonte:

Pesquisa: 16/12/13 às 17h.




 

A.Beck & Brad A. Aford. Depressão Causas e Tratamento. 2ª Edição, Editora Artmed, 2011

Tavares, Leandro A, Todesqui. A Depressão como “Mal-Estar” Contemporâneo. Editora UNESP

DSM – IV – TR. MANUAL DIAGNÓSTICO E ESTATÍSTICO DE TRANSTORNOS MENTAIS. Editora Artmed, 4ª edição. Porto Alegre, 2002.

 


 

 

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Mitos e Ritos: Uma jornada feminina

 

PRIMEIRO CONGRESSO DE MULHERES DA CIDADE IMPERIAL


           

 

Palestra proferida no Palácio de Cristal -  Petrópolis em : 07/03/2004

 Autora: Vannda Santana

 E-mail: vannadsantana@hotmail.com

          


Toda mulher passa por uma jornada de ritos e mitos como personagem arquetípica, desafiando a ritualística na condição de filha, mãe, amiga, namorada, parceira ou amante ... Durante esses estágios pelos quais a mulher terá de passar, a vida lhe reservará múltiplas escaladas sem que tenha tempo para pensar. O nascimento de uma mulher é marcado por uma ironia do destino: junto com ela, encravada em sua predestinação, há uma caixinha de segredos que nada lhe revelam ou prometem, somente o tempo um dia poderá dizer. O que se pode afirmar no presente, no aqui e agora, aponta para o futuro; portanto é seguir em frente, seguir a trilha do longo caminhar, onde tudo é uma aventura renhida de fôlego que se soma no corpo ao lado de todo processo fisiológico: vaidades exacerbadas para umas e, para outras, o desmazelo, além de enxaquecas e TPMs. Algumas se veem como sendo a vida castigo, enquanto outras tiram a sorte grande de com tudo não se incomodar.

 

 Mas certo mesmo, toda mulher já sabe: terá no corpo uma marca que a acompanhará nesse percurso de existência humana e feminina desde a sua prematura idade (da adolescência), culminando com as irreversíveis mudanças da terceira idade; desde o viço da beleza, aos primeiros sinais da degenerescência.  Nada escapa ao tatuar do tempo e nem a faz desviar do que terá de enfrentar. Este é um longo percurso a que toda mulher terá de se predispor, sempre com uma carga a mais de prévia aprendizagem. Nada se retira ou se acrescenta da sua condição de aceitação. E, assim, uma vez sendo mulher, o caminho já está traçado. Aliás, isto é só mais um ato iniciático. Para início de conversa, o corpo é sábio e nele funciona um laboratório fantástico que se predestina por uma condição singular que acontece durante toda a existência da vida e com direitos a testes, prova de resistência, a de ser mãe, ensaios entre a submissão de ser mulher e amante, muito além da altivez de ser a provedora do lar. Mas em tudo isto há um sábio enfrentar a fim de vencer os próprios limites.

 

Esta  é a vida de qualquer mulher. Isto é o que lhe reserva o destino: num dado momento compartilhar aventuras e em outros instantes vivenciar os mais delirantes desejos. Mas em tudo há um traço pertinente marcando a trajetória da história feminina; seja pelas vitórias e realizações, ou pelas decepções e frustrações amorosas. O que se pode perceber, num caso ou no outro, registra-se no corpo como marca de existência humana capaz de driblar a má sorte e, com sorte, se o amor lhe bafejar, nada será obstáculo à condição de ser mulher.

 

Mas seja qual for a atribuição da mulher durante a sua existência será muito mais que mitos em seus rituais e, pouco a pouco marcará sua trajetória, ainda que inconscientemente. Basta haver uma necessidade, uma situação ameaçadora, um filho em perigo, para que reapareça e ressurja do nada uma força incrível, sem que se possa medir, tamanha será a reação de proteção. Podemos destacar essa força feminina e de igual potência, àquela existente nas fêmeas dos animais. E, desse modo, estarão sempre prontas para enfrentar o presente, adequando-se para o próximo instante até mesmo diante do imprevisível. E quando essas criaturas tem de entrar em cena, mesmo sem ter antes ensaiado seu script, não hesitarão em fazer do chão o seu palco e nem se abalarão por ter de passar pela corda bamba do picadeiro. Nesse momento são elas as ( mulheres) que se vestirão do arquétipo mais poderoso para dar conta de um espetáculo chamado vida: abrem-se as cortinas do agora  e desce o pano de fundo do enredo entre o sagrado e o profano; celebram cenas de alegria ou de tristeza, mas não calam as dobras do destino; vencem as bordas do tempo no fazer com arte a vida e, assim, como estrelas do amanhã, brilharão hoje, exaltando a existência humana, procurando equilibrarem-se na aventura da razão ou da des-razão.

 

 Vimos um pouco sobre os mitos personificados nas mulheres e vimos também aqueles mitos que nem sempre gostam de se fazer presentes. Mas aqui, através desta escrita, alguns desses mitos manifestam-se com suas estruturas dentro da escrita ou até por meio da imagem. Os Mitos são assim: estruturas singulares que vão designar certos tipos de comportamentos, além de caracterizar com sua presença marcante a fala e a atitude de um determinado povo, de qualquer lugar ou etnia. Entretanto, os símbolos associados aos mitos podem realçar sua presença através dos costumes, das crenças populares, ao mesmo tempo em que se mostram pelas características de rituais e de identidade os quais se manifestam em cada grupo.

 

 A imagem, tal como a escrita literária, também se veste de mitos e ritos, de símbolos e de magia uma vez inscritos. Podemos perceber suas ações através das lendas, fábulas, folclore ou ainda presentes nas literaturas clássica ou popular. Esses seres míticos podem surgir vivos nas  letras, nas canções, nas danças, nos oferecendo belas peripécias de linguagens e gestuais que se apresentam decodificadas em obras de artes bem como na poesia, nos romances, contos e crônicas, assim como nos contos de fadas. Dentro desse conjunto de obras artísticas, históricas e lendárias, encontram-se aquelas que não podem faltar e que são de conhecimento universal, por exemplo:  Bíblia  Sagrada, Cabala, Torah, Alcorão etc. Desse modo, constatamos que a mulher semelhante à literatura é o grande templo onde  residem todos os mistérios.

 

As mulheres se mostram como seres quase que absolutos diante de uma força interior, à qual não se pode medir, dela se vestem e são por ela incorporadas, deixando-a reinar em seus corpos com suas múltiplas  ações. As mulheres são assim: especiais. Parecem manter um pacto com os deuses brincalhões: ora são elas ninfas, ora são elas as fadas das histórias infantis. Em outros momentos, viram bruxas más também. Entretanto acredito, por ser também mulher, que todos deveriam aprender um pouco mais com essas “deidades”  o exercício de  suas   polaridades e de suas tamanhas ambivalências. Elas sabem de coisas das quais muitos ainda não apreenderam e, elas sabem muito mais: sabem doar afetos quase impossíveis e, sobretudo, todos os dias, sabem uma nova e rica lição de amor.

 

 

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

A ARTE DE ESCREVER À MÃO


 


(uma técnica quase em extinção)

 

Por: Vannda Santana  

 


 


                   Reviver a escrita a mão é processar a palavra no seu contexto teórico: Caligrafia vem do grego “calli” e significa “belo”, grafia “escrita”. Assim, a letra pode até não ser bela, mas seu registro impresso no papel guarda uma “imagem”, um sinal gráfico que significa uma marca, um registro individual, no qual se imprime a identidade individual. Poderíamos até dizer que, para além do grafismo, há um simbolismo. A letra marca esse registro no escrito, deixa “rastros” de legitimidade, imprime um caráter, mostra sua marca de identificação, sinaliza seu traço único e, assim,  denuncia quem o fez.  Portanto, a letra é muito mais que uma marca individual; através dela e do traço que simboliza sua forma pode-se definir o dono da escrita, pode-se deduzir uma estrutura bem próxima de uma identidade pessoal. Dentro desse critério, podemos conceituar a grafologia como ciência; um estudo analítico da personalidade, feito através da escrita. Trata-se de um estudo de conhecimento científico grafológico, o qual tem como referência suas características essenciais, que afirma ser capaz  de dar conta da verificação e da análise da personalidade da escrita do indivíduo. Não é aqui o caso específico.

 

A palavra Escrever origina-se do grego “gráfein” e em latim “scribere”, significando a origem da ação da escrita grafada. Aqui neste artigo, a intenção é relembrar os tempos remotos, tempos da escrita feita à mão, um processo já quase que em extinção. Poucas são as pessoas que ainda se utilizam da escrita à mão. Por isso mesmo, tento voltar no tempo, ir até lá, -  onde a memória havia se rendido lentamente aos velhos hábitos – e saltar do passado ao presente, numa espécie de ponte que vai do recuar do tempo à adequação de novas tecnologias, num exercício vigoroso de reconhecimento do novo mas sem abandonar, totalmente, velhas práticas da escrita feita à mão. A chegada desses novos hábitos mudaram, radicalmente, o rumo e a troca da comunicação; os computadores facilitaram os meios de informação, tais como os e-mail que chegaram para derrubar fronteiras e ainda falam em tempo real, onde quer que a notícia aconteça. Portanto sem fronteiras, não há mais distância entre os cidadãos de qualquer lugar do mundo. Daí, o ato de escrever à mão ter caído em desuso.
 
  Assim sendo e sem lançar mão de conceitos científicos, torna-se visivelmente fácil diferenciar a letra de uma pessoa que esteja centrada, calma, envolvida com o fazer de seu escrito, daquela outra que, sem concentração e sem capricho, deixa seus rabiscos tortuosos falar por ela mesma.
 
 Eis, então, a pergunta: uma simples observação sobre a letra seria capaz de revelar o que se passa no interior do indivíduo?  Posso até dizer que sim. Porém, não fiz nenhum estudo sobre grafologia e não seria o caso aqui em questão. O que se pretende com este texto é nada mais nada menos que oferecer ao leitor uma visão desmitificadora da escrita à mão. Depois do evento do computador, com os recursos da tecnologia da Informática, percebeu-se que a escrita a mão ficou em segundo plano e, às vezes, em total desuso. Desse modo, afirma-se que através  da grafia (guardando algumas observações) chega-se ao caráter psicológico do indivíduo, pelo tipo da letra-escrita a mão. Todo professor deve conhecer bem o tipo de letra de seus alunos; podendo garantir a diferença visual dos que são mais cuidadosos, daqueles que não o são.
 
Se o cérebro determina o que a mão deve escrever, acredito que a mão também se torne cúmplice por emprestar ao papel o grafismo impresso na folha branca. Assim, como um fio de energia criativa, a escrita escapa do pensamento pela mão e logo escorre pela ponta da caneta, em forma de tinta ou de grafite, isto é,  uma energia que se desloca das idéias, passando pela mão até chegar ao papel.
 
 De certa forma, a escrita cumpre seu ritual, plasma-se num desenho gráfico em forma de letras: letra torta, redonda, gorda,  comprida, esquisita, letra feia, a letra dos  disléxicos como classificam alguns teóricos; letra bordada, rabiscada, embolada, indecifrável, grande, pequena, subindo morro ou despencando ladeira abaixo. Não importa a ordem em que essa estrutura esteja manifesta no corpo da letra, nem a forma em que os rabiscos grafados apareçam arquitetados por gestos ou carregados de intenção. Para o nosso caso aqui, leitor, nada importa mais que a sua leitura.
 
Por outro lado, queremos chamar à atenção para os atos de criação: uma letra pode estar a serviço de uma ideia e para que esta possa vir a se fixar e se plasmar no papel, há que se ter um veículo que a conduza ao seu destino. Então, constatamos ser a mão o elemento que favorece o caminho da escrita. Daí, que toda ideia intenta contar uma história e a escrita é o único veículo de cultura que, sabiamente, irá conduzir a linguagem a fim de ser ideiaescrita. Parece complicado. Descomplicando: haja vista as histórias de cada povo e de cada tempo de sua época. Entretanto, cada tempo e povo tem seus registros alicerçados, assim, tal como na película de um filme que conserva o enredo e a trama da cultura de um passado. Desse modo,  a história também se faz reveladora de um registro. Pode  dizer-se que os fósseis humanos foram vistos e interpretados pelos paleontólogos numa perspectiva condicionada pela sua época segundo André Leroi-Gourhan.[1] A história da existência humana analisada sobre esses aspectos remontam fatos para muito além da letra.
 
  A libertação da mão tem sua origem na história da fisiologia humana, das ações e do pensamento. Sabemos que a letra é individualizada, personificada e, por isso mesmo, ela é uma identidade física, uma manifestação de um certo fisiologismo psicológico e, talvez, fosse notório lembrar que os símbolos gráficos remontam, criteriosamente, às primeiras escritas nas pedras e nas paredes das cavernas. É de lá que resgatamos os registros que foram deixados  da espécie humana: o modo de ser e de viver de cada povo. Por isso, pode-se afirmar que pela estrutura da letra, do rabisco e das formas, talvez pudéssemos chegar a uma argumentação que nos levasse ao pictórico no terreno das pesquisas mais longínquas, através de uma análise de que a ideia de todo autor é, antes e também,  a inscrição de um tempo e da própria escrita. Essa  hipótese visa sustentar que toda ideia empresta à mão uma espécie de senha no momento da transcrição da escrita. Seria, talvez, um elo mágico? Ou seria esse algo (nascido das idéias) que, ao contaminar a escrita, por meio de uma semiologia, denotaria uma informação celular como  hierarquia de um núcleo familiar?
 
 É sabido que se perdeu o status da escrita à mão diante da evolução da tecnologia na era digital, da escrita eletrônica. Então, adotamos um status para a escrita - o de ser uma vilã na revolução do mundo informatizado, - onde as normas apontam para novos paradigmas no ato de “escrever”. O rigor tecnológico cristaliza sua exigência perante a velha estrutura, enquanto que as novas formas de representações vão se alterando  no eixo de identificação que se dá entre  o escriba e a existência do texto. Estamos falando de forma física como forma padrão, deixando claro que já não é mais permitido ao texto exibir sua grafia, sua letra como arte original de uma escritura feita à mão. Há casos,  regras e, também,  exceções.   
 
Portanto, o ato de escrever vai muito além de uma simples atividade  como artefato manual. Há em torno da escrita, uma certa magia, uma forma de como a mão vai imprimindo o desejo ideal a ser  desenhado pela letra na escrita. E o papel em branco? Ah! o papel..., este nada fala mas, aceita. O papel é o próprio silêncio fundante[2] sabe ser cúmplice daquilo que o pensamento dita para a mão. O papel tem sua discrição, nem questiona a eficácia intelectual de quem escreve. O papel é assim, só se importa com o registro que fica impresso em sua pele.
 
 
Amigo leitor, a arte de escrever é um privilégio e a mão é apenas uma aliada do processo de uma idéia.
 
 
 



[1] O Gesto e a Palavra – Técnica de Linguagem. André Lerói-Gourhan. Edições 70, Lisboa 1985.
[2] As Formas do Silêncio – No Movimento dos sentidos. Eni Puccinelli Orlandi. 6ª edição da Editora Unicamp, SP, 2007.