“...a escrita tem um papel muito profundo na evolução da arte (...) a escrita ensinou aos homens que era possível, por intermédio de signos não só significar o mundo exterior mas também apreende-lo e dele se apossar”. (J. Lacan)
sexta-feira, 8 de março de 2013
O destino da educação na contramão da história: do obscurantismo medievo ao terrorismo da negação do saber feminino
Hoje, bem distante da Idade Média, ainda se vive uma caça as bruxas às avessas. Refiro-me à educação como um direito humano universal perante a Lei que promove e garante a democracia fundamentada na legalidade constitucional. A saber, esta legalidade não se limita ao gênero, pois é um direito de todos os cidadãos. Porém, do obscurantismo medieval até o momento presente, um hiato se estabelece contra o destino da educação que mais parece um clichê na contramão da história. Assim temos o caso de Malala Yousafzai que “não desejou o impossível”, a menina quis apenas praticar e desenvolver suas habilidades intelectivas para o que apenas desejava ser e ter: conhecimentos para enfrentar os inimigos segregadores dos saberes culturais.
A jovem, com sua sapiência de uma quase criança, procurou nutrir-se de uma responsabilidade maior que a de seu próprio tempo e não tão menor que a de sua cultura. Malala toma para si a causa política da educação das meninas e foi em busca de mudanças que pudessem tornar possível tal realidade: ter o direito de ir para escola onde então vivia e experienciou armazenar conhecimentos para lutar contra o futuro imaginário da educação de seus iguais. A paquistanesa alcançava a visão de mundo e conseguia ver para além de seu tempo. Agindo desse modo, Malala prometia enfrentar os terroristas talibãs, uma facção fanática que não reconhece o direito das mulheres à prática do conhecimento escolar.
Malala queria dar um basta ao absurdo do direito negado ao estudo das meninas. Quis ela fazer ver que essa forma já não cabe num mundo desenvolvido, no mundo de hoje, do século 21, onde o universo se comunica com todas as áreas do saber humano. O recado da jovem menina ressoou de forma ameaçadora ao mundo terrorista, despertando o ódio. Assim, o que se pensa (mesmo distante da Idade Média) pode permanecer na mente de um povo, no obscurantismo de classes e pessoas, constituindo-se no mais terrível dos crimes contra a mulher: impedi-la de ter a sua formação escolar.
A jovem Malala foi vítima de um atentado contra o saber e o fizeram de forma cruel, covarde, que quase lhe tirou a vida. E isto aconteceu porque a menina é uma ativista que ousou escrever um blog para a BBC sob o nome de Gul Makai, explicando a situação em que viviam ela e sua família, diante do regime do Tehrik-i-Taliban Pakistan (TTP) e as tentativas de recuperar o controle do vale após a ocupação militar que obrigou-os a ir para as áreas rurais. Diante de tais acontecimentos, Malala põe em prática uma de suas “armas”: a palavra a serviço da ação. Em seus escritos, nota-se a presença de uma consciência política de cidadã responsável ao declarar os feitos de poder do Taliban pelo fechamento de escolas particulares e a proibição da educação de meninas entre 2003 e 2009. Nesse blog, Malala revelou as circunstâncias em que viviam as meninas de sua pequena Mingora, Swat, Jaiber Pastunjuá, Paquistão, uma revelação política, mas com consciência e, sobretudo, como cidadã engajada na causa da educação.
Talvez coubesse aqui algumas perguntas: por onde anda a cabeça dos grandes governantes em relação ao destino da educação de um povo “marginalizado pela sorte” além de vulnerável às mãos de criminosos terroristas? O New York Times resume quem é a paquistanesa que aos 14 anos se tornou ícone do direito à educação feminina e do sofrimento cotidiano vivido por mulheres no Vale do Swat, na fronteira montanhosa e tribal entre Paquistão e Afeganistão. Mas a pergunta segue a pauta quebrando o silêncio de muitos: onde está a força do mundo globalizado que tem “olhos” mas não pode ver porque suas armas não são as mesmas que o inimigo possui? Por outro lado, se são muito menos poderosas, o que fazer se só possuímos palavras tais como as de Malala?
E o que fazer quando o mundo nos oferece uma estrada virtual feita de palavras e com palavras que falam e conduzem o pensamento aonde quer que queiramos ir? Então eis a pergunta: como proteger as Malalas de nossas casas, de nossas vidas, de nossos irmãos, se só possuímos palavras? Se não ousarmos o direito que a palavra nos confere, não sairemos do lugar comum. Não sei se disse tudo que gostaria de dizer, mas o que disse eu sei bem a quem atingir: eu e todas as Malalas do mundo vamos continuar a praticar o exercício do direito da palavra, do direito da expressão, do direito de usar a fala como ferramenta de prazer para denunciar os abusos e absurdos contra qualquer forma de preconceito. Aqui fica o meu registro a favor do saber e da educação de todo ser humano, principalmente, o das mulheres de todo o mundo.
Malala exerceu o direto da palavra e assim saiu do anonimato com o seu "Diário de uma estudante paquistanesa”: venceu o medo, enfrentou a morte, virou ícone. Mas sua vida vale muito mais e é através das palavras que queremos conferir nossa indignação aos atos de violência contra a mulher.
Esta é a minha palavra de hoje: não à violência que tenta impedir a mulher de ser e ter as qualidades de um saber mais que específico.
domingo, 13 de janeiro de 2013
A BIOLOGIA DO AMOR E SUA QUÍMICA
“... se fôssemos verdadeiros cientistas, se aceitássemos viver um pouco na utopia da felicidade, faríamos punções lombares àqueles que assistem a fogueiras nos acampamentos. Constataríamos que este simples facto aumenta a taxa de serotonina”.
Boris Cyrulnik
Uma pesquisa recente nos mostra a eficácia do afeto e o seu e do coração benefício para a nossa saúde. Relata como a química da biologia funciona nas relações de afeto entre os parceiros amorosos, na convivência de pais e filhos. Mostra ainda como a afeição física pode interferir em todo o organismo, além do cérebro e do coração outros sistemas são diretamente afetados. O corpo também desempenha funções significativas em relação aos sentimentos. Essas funções combinam reações quando estão no comando de uma ação agindo ou interagindo para o nosso bem estar ou, ao contrário.
Durante séculos e no decorrer da vida, os artistas declararam em suas existências – o amor e a paixão – através de suas artes: os poetas cantaram na poesia seus amores de todas as formas com as variáveis de cada época e gênero; os pintores, com tintas e pincéis, criaram ninfas e deusas do amor num relevo inimaginável com sombra, luz e simbolismo vestiram a pintura de seus tempos e, aos compositores, também foi-lhes dado o dom de ser poeta: letra e música como declaração de amor e, em cada nota musical, um recado emocional capaz de seduzir, comunicar, encantar e assim falar de amor. Há outros movimentos que para além das artes são capazes de se comprometerem com a química produzida pelo amor.
Sabemos que a razão é um mecanismo ou uma qualidade do pensamento humano capaz de impor limites às próprias emoções, pois sem esse aprendizado diante das emoções violentas, haveria um desregramento responsável pela desordem e até pelo conflito social.
Nos últimos anos, cientistas começaram a entender essa química biológica em nossas relações afetivas, buscando entender como nossos corpos respondem ao amor e ao carinho. Ao investigar o hormônio chamado ocitocina, encontrado na área do cérebro chamada hipotálamo, os estudiosos descobriram que a partir das interações afetivas, esse hormônio é liberado em nossa corrente sanguínea.
É esse milagroso agente bioquímico, a citocina, que nos faz sentir bem quando estamos perto de uma pessoa amada, assim como de nossa família e de outros entes queridos, incluindo aí os animaizinhos de estimação. O processo que os cientistas chamam de sistema de recompensa é liberado pela dopamina, uma substância presente no cérebro que desempenha um papel fundamental na maneira como percebemos o prazer: aquela sensação de bem-estar como se estivéssemos dopados, como o próprio nome invoca.
Assim, a ocitocina cumpre sua função biológica para além de nos fazer sentir bem, pois ela será capaz de reduzir os níveis de hormônios que provocam o estresse no organismo; diminuir a pressão arterial, além de melhorar o humor e aumentar a tolerância orgânica diante do sentimento de dor. Acredita-se que a ocitocina pode acelerar o processo de cura dos ferimentos, bem como, regenerar as queimaduras e até mesmo atenuar o sofrimento de doenças crônicas.
No Filme – O Amor é Contagioso “Patch” Adams descobre um belo dom de poder ajudar as pessoas usando o bom humor. Dois anos mais tarde, Patch entra em uma universidade de medicina para se formar como médico e, assim, poder ajudar de forma mais abrangente, colocando alegria no coração de seus pacientes. Patch vai lutar contra um grande desafio ao tentar provar que o amor é contagioso.
Essa prática vivenciada por Patch, já vem sendo usada aqui no Brasil por uma ONG reconhecida em todo o país pelo desempenho, profissionalismo e sua atuação inovadora, agregando um elenco de Doutores da Alegria. A originalidade desta ONG pode ser observada através das visitas periódicas dos palhaços besteirologistas às crianças hospitalizadas, administrando risos como remédio. Esse elenco de profissionais da alegria, além das atividades que são praticadas, eles procuram envolver a família e toda a equipe de saúde.
Ao finalizar este artigo, quero lembrá-los de que a alegria é o agente bioquímico impulsionador de mudanças do humor, assim como o amor que produz todo ato de prazer. Desse modo, o amor e a alegria irão gerar antídotos capazes de não somente melhorar o estado físico e emocional, como também exercer a eficácia na recuperação de sistemas que estariam prestes a decretar sua falência.
Segue abaixo uma lista com 40 itens de doenças que são causadas por ressentimentos:
Doenças Causadas por Ressentimentos
1-Amidalite: Emoções reprimidas, criatividade sufocada
2-Anorexia: Ódio ao extremo de si mesmo
3-Apendicite: Medo da vida. Bloqueio do que é bom
4-Arteriosclerose: Resistência. Recusa ao ver o bem
5-Artrite: Crítica conservada por longo tempo.
6-Asma: Sentimento contido, choro reprimido
7-Bronquite: Ambiente familiar inflamado. Gritos, discussões
8-Câncer: Mágoa profunda, tristeza mantida por muito tempo
9-Colesterol: Medo de aceitar a alegria
10-Derrame: Resistência. Rejeição à vida
11-Diabetes: Tristeza profunda
12-Diarréia: Medo, rejeição, fuga
13-Dor de cabeça: Autocrítica, falta de autovalorização
14-Dor nos joelhos: Medo de recomeçar, de seguir em frente
15-Enxaqueca: Raiva reprimida. Pessoa perfeccionista
16-Fibromas: Alimentar mágoas causadas pelo parceiro (a)
17-Frigidez: medo. Negação do prazer
18-Gastrite: Incerteza, sensação de condenação
19-Hemorróidas: Medo de prazos determinados. Raiva do passado
20-Hepatite: Raiva, ódio. Resistência à mudanças
21-Insônia: Medo, culpa
22-Labirintite: Medo de não estar no controle
23-Meningite: Tumulto interior. Falta de apoio
24-Nódulos: Ressentimento, frustração. Ego ferido
25-Acne (pele): Individualidade ameaçada. Não aceitar a si mesmo
26-Pneumonia: Desespero. Cansaço da vida
27-Pressão alta: Problema emocional duradouro não resolvido
28-Pressão baixa: Falta de amor quando criança. Derrotismo
29-Prisão de ventre: preso ao passado. Medo de não ter recursos suficientes
30-Pulmões: Medo de absorver a vida
31-Quistos: Alimentar mágoas. Falsa evolução
32-Resfriados: Confusão mental, desordem, mágoas
33-Reumatismo: Sentir-se vítima. Falta de amor. Amargura
34-Rinite alérgica: Congestão emocional. Culpa. Crença em perseguição
35-Rins: Medo da crítica, do fracasso, desapontamento
36-Sinusite: Irritação coma pessoa próxima
37-Tiróide: Humilhação
38-Tumores: Alimentar mágoas. Acumular remorsos
39-Úlceras: medo. Crença de não ser bom o bastante
40-Varizes: Sentir-se sobrecarregado
Referências:
CYRULNIK, B.. Fórmula química da felicidade. In: Para uma utopia realista – em torno de Edgar Morin. Lisboa: Instituto Piaget, 1998.
MATURANA, H..A ontologia da realidade (org. Magro, C.; Graciano, M.; Vaz, N.). Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1977.
___________, Emoções e linguagem na educação e na política. Belo Horizonte. Editora da UFMG, 1998.
MORIN, E.. Amor, poesia e sabedoria. Rio de janeiro: Bertrand Brasil, 1998
Site:
O conceito de afetividade de Henri Wallon:
HTTP://revistaescola.abril.com.br/gestão-escolar/conceito-afetividade-henri-vallon-645917.shtml
quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
Os Ipês contam histórias
Gosto muito de ler e, do mesmo modo, gosto outro tanto de escrever. Por isso mesmo, ouso apresentar aos meus amigos que também gostam de ler uma pequena história sobre uma das mais belas árvores do Brasil: o exuberante Ipê.
O ipê é uma árvore do gênero Tabebuia (Tabebuia chrysotricha) pertencente à família das Bignoniáceas que pode ser encontrada por todo o Brasil. Os índios usavam essa madeira para fazer bodoques e arcos, aproveitando-se da peculiar elasticidade e da firmeza que a madeira oferece. Assim, justifica-se um de seus nomes populares: Pau-d’arco. Esta árvore de grande beleza vem sendo apreciada tanto pela excelente qualidade de sua madeira, quanto por seus efeitos ornamentais e decorativos, além de ser reconhecida pela farmacopéia popular e botânica por seus efeitos medicinais.
Com toda a grandiosidade de suas qualidades, o Ipê seduziu escritores e provocou olhares de encantamentos. Desse modo, ficou imortalizado nas páginas de José de Alencar, Machado de Assis, Castro Alves, Bernardo Guimarães entre outros e tantas outras lendas. José de Alencar, além de dar o título a um de seus grandes romances: O Tronco do Ipê; em O Guarani , atribuiu a força do Ipê a sua narrativa ao dizer: “O velho Aymoré vacilou; seu braço que vibrava o tacape com uma força hercúlea, caiu inerte; o corpo abateu-se como o Ipê da floresta cortado pelo raio.” Continua Alencar em sua obra Ubirajara: “O grande chefe ergue a sua fronte soberba como o velho Ipê da floresta coroado de flores.” E em Machado de Assis, na obra Americanas, lê-se: “Um desfolhado ipê conserva e guarda / Flores que lhe ficaram de outro estio, / Como esperança de folhagem nova,/ Flores que a desventura lhe há negado,”. Em Bernardo Guimarães , no conto Pão de Ouro, encontra-se: “É o truculento Ipê, que como um cacique todos os anos se enfeita de um diadema de flores amarela, diadema efêmero e irrisório, que no outro dia o vento lhe arranca da fronte e roja pelo chão.”
Muitos pesquisadores destacam o Ipê naquilo que ele tem de mais simbólico, além de beleza e flores: seu poder de acalentar, alegrar, agregar e curar. O pesquisador mineiro, Breno Marques, em seu Livro As Essências Florais de Minas – Síntese para uma medicina de almas, afirma que (...) A Tabebuia, que tem uma forte analogia sonora com Aleluia ou “Tábua-boa”, é uma “tábua de Salvação” que pode ajudar aquele solitário que, mesmo estando imerso nas águas bravias da dor e do sofrimento, pode resistir infinitamente por honra e glória do Criador. Diz, ainda, que a planta (...) associa os conceitos de sincronização temporal e de força, sendo portanto uma poderosa “lente” concentradora de energia solar, disponível naqueles momentos exatos de máxima necessidade. Arremata destacando que (...) O Ipê realiza arquetipicamente um princípio oculto, que foi captado e bem expresso por Vitor Hugo, que diz assim: “Não há nada mais forte que uma idéia quando chega o momento exato de sua realização.
Nota-se que o nosso Folclore Brasileiro está recheado de fábulas, lendas, mitos com seus distintos e instigantes temas. Assim, dentro desse cenário, incluem-se os vários “causos” contados sobre o Ipê com uma infinidade de histórias interessantes, as quais nem todas fazem parte de um único gênero. Como bem se pode notar, entre os autores aqui citados, estão os variados estilos desde a medicina com seu cartesianismo exemplar à medicina vibracional, cedendo lugar às falácias populares até à literatura contemporânea. Por isso, retornemos ao criador do sistema dos Florais de Minas, Breno Marques, que foi um dos professores que mais me impressionaram durante suas aulas de física quântica entre outras de igual importância, pela maneira descontraída de prender à atenção de seus alunos com momentos de descontração e com o seu jeito “mineiro” de contar histórias. De tudo que já pude ler e ouvir sobre as plantas e de toda trajetória de histórias vivenciadas como aluna e professora, uma se tornou especial, aquela que fora contada por Breno Marques e que nunca mais saiu de minha mente. O resumo dessa história retoma em minha memória um certo conceito de nozado, não pelos rituais que acontecem nos velórios, muito menos pela peculiar narrativa da palavra “soia”. Mas sim, pela fluidez semântica que faz a história ganhar um significado mais que simbólico de força vital e de esperança, que vai muito além da fenomenologia de uma simples etimologia contida no radical do nome da planta. O Ipê consagrou-se com seus pressupostos sedutores de energia, graça e beleza e, nele se pode ver uma atmosfera mágica que transborda qualquer conceito lingüístico, ao transcender olhares e às diferentes formas do dizer. Diante exposto, vamos ao causo:
Conta-se um “causo” que lá pelas bandas do interior das Minas Gerais, morreu uma véia (velha) e, então, chamaram o povo para animar o velório, com direito a pinga, comidinhas, bebedinhas e tudo mais, até um sanfoneiro... Tudo seria normal, não fosse o episódio que aconteceu: de repente, a veia que estava morta, se senta no caixão, e foi um Deus nos acuda... um corre – corre assustador, a porta ficou estreita, diante dos tantos que teimavam em fugir do fantasma vivo da véia. Com algum custo, aqueles poucos que ali ficaram, procuraram retirar a velha do caixão e colocá-la na cama. Porém, não demorou muito e a veia morreu de novo. E, assim, entre o morre-e-desmorre, lá pelas tantas, diante da estranha sucessão dos fatos resolveu-se chamar o homem que fez o caixão, e então perguntou-se:
Acaso o cumpade Izé não esqueceu algum prego puntudo dentro do caixão?! As veiz tá cutucando a cumade... num tá deixando ela sussegada lá dentro!? Antes de colocarem a véia novamente... vistoriaram todo o caixão por dentro... esquadrinharam tudo... várias mãos... e nada... não havia pregos pra desvendar o mistério do morre-desmorre sem fim... Foi quando o cumpadre Joaquim iluminou-se com a seguinte solução: já sei... o cumpade Izé feiz errado... num pode fazê caixão de Ipê!... O Ipê é tão forte que não deixa ninguém morrê!...
Assim, o Ipê conta sua história. E esta é apenas mais uma entre tantas outras com seu pseudo poder, segredo e graciosidade que a natureza nos oferece. Basta observarmos. Há bem pouco tempo, eu voltava da Barra da Tijuca em direção à Zona Sul e passando por São Conrado, um vislumbre...bem a minha frente, lá no alto na Rocinha, um Ipê também inspirou-me numa das crônicas do meu livro: O Rio e seus relevos díspares , onde se lê que “Um novo cenário veste a imaginação e empresta aos olhos, apenas aquilo que se pode ver. – Um velho Ipê amarelo resiste com sua doutrina. A planta carrega em sua lenda o mito de uma velha sabedoria que é fazer a vida renascer e florescer.”
Diante do exposto, releio o tempo presente em função do passado e, assim, tristemente, estabeleço uma relação com o futuro que se aproxima, vislumbrando os Montes e Serras do Vale do Paraíba que continuam lá, porém, sem a floresta dos Ipês coloridos. Aproveito o instante deste escrito para renascer das lembranças e convidá-los a cantarmos juntos com o inesquecível Geraldo Vandré: “Pra não dizer que não falei de flores”. Agora, sigo caminhando e cantando os Ipês com suas flores e cores, com seus tons rosáceos, lilases, brancos e amarelos: todos servindo de ponte às boas lembranças da vida.
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| Rosa, é a cor do plexo cardíaco, trabalha o Amor incondicional e o sistema imunológico. Desenvolve os aspectos sensíveis da glândula Timo, está diretamente relacionado ao coração, melhora a arritmia cardíaca e o sistema circulatório, brônquios e o aparelho respiratório; |
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Branco, esta cor induz à pureza, à limpeza e é o símbolo da Paz;
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Lilás, tem ligação direta com as energias superiores, trabalha a glândula Pineal nas disfunções das neuroses, irracionalidades, fobias, desorientação e obsessão, além das disfunções sensoriais e cerebrais, bem como a insônia, enxaqueca e histeria;
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Amarelo é a cor do plexo solar e é também a cor do intelecto. Trabalha as funções da Personalidade, vitalidade, ação e vontade, auto-estima, melhorando a ansiedade, a indecisão e a desconfiança. Trabalha os sistemas nervoso e pancreático: o baço, estômago, fígado, vesícula, intestino delgado e parte inferior das costas.
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SANTANA, Vannda. O avesso e o reverso na ponta da pena. Oficina Editores, 2ª Ed. RJ, 2007, p.83;
SILVA, Breno Marques da. As essências florais de Minas: síntese para uma medicina de almas, Breno Marques da Silva e Ednamara Vasconcelos e Marques. 2ª Ed. São Paulo, editora Aquariana, 1997;
Criatividade e Espiritualidade seguindo os passos de " A Profecia Celestina" - Dr. Breno Marques da Silva e Ednamara Batista Vasconcelos e Marques.
Site:
Pesquisa Google:
Os Ipês Amarelos de Rubens Alves
Os Ipês Floridos
terça-feira, 27 de novembro de 2012
A Hierarquia das Lembranças e a Fisiologia do Ser Humano na Arqueologia do Tempo
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| Fisiologia das lembranças |
Lembrar! O que é que nos faz recordar? Em que lugar da memória estarão preservadas as lembranças de toda uma história de vida? Talvez tenhamos de responder essas perguntas com uma outra: será que nosso corpo, ao longo de nossa existência, abrigaria fisiologicamente toda espécie de recordações boas e más sem adoecer? Como o inconsciente daria conta de “administrar” conscientemente tais emoções? E, ainda, será que seria saudável ter na lembrança os arquivos preservados de fatos vividos em uma época e que, para buscar um desse fatos, teríamos de acionar uma chave com o pressuposto poder de alavancar hierarquicamente todo um percurso de vivências e de lá resgatar imagens fossilizadas, as quais viriam à tona indiscriminadamente nos fazendo lembrar tudo aquilo que tenha ficado marcado em nossas memórias, seja a coisa boa ou ruim.
Portanto, lembrar é também ter de conviver com o arquivo das “coisas” que marcaram a memória de nossa existência: seja isso uma resposta a um grande desejo que tenha sido impulsionado para um imprinting ou ainda, uma via para uma “falsa memória”. Segundo Sternberg (2000), a memória é conceituada como “o meio pelo qual você recorre às suas experiências passadas a fim de usar essas informações no presente; refere-se a um processo de mecanismos dinâmicos associados à retenção e recuperação da informação” (p. 204). Cabe aqui rever um relato de Goethe sobre uma recordação da infância (Dichtung und wahrheit):“Se tentarmos recordar-nos do que nos aconteceu nos primeiros anos da infância, muitas vezes confundiremos aquilo que ouvimos de outros, com o que realmente nos pertence e que provém daquilo que nós próprios testemunhamos.” (In FREUD, 1917 -1918).
A memória está associada a um processo de mecanismos dinâmicos, diretamente ligados à função do armazenamento, tanto no que se refere à retenção de memórias quanto à recuperação de informações sobre experiências passadas. Dentro desse modelo de memória tradicional incluem-se os sistemas sensoriais de armazenamento de curto prazo e de longo prazo. De acordo com a psicanálise em sua primeira fase – a da catarse de Breuer – ela consistia em focalizar diretamente o momento em que o sintoma se formava; uma busca persistente por reproduzir os processos mentais envolvidos nessa situação, (um esforço) repetitivo, a fim de dirigir-lhes a descarga ao longo do caminho da atividade consciente. Daí, recordar, portanto, é ab-reagir com auxílio, mecanismo utilizado naquela época. Tempos depois, surgiu a hipnose que logo foi abandonada, cedendo lugar à tarefa de descobrir a partir das associações livres do paciente, transformando-se no ato de redescobrir, o que ele (o paciente) se permitiria recordar.
A memória é uma das funções cognitivas mais complexas que a natureza produziu, e as evidências científicas sugerem que o aprendizado de novas informações e os seus respectivos processos de armazenamento causam alterações estruturais no sistema nervoso. Na memória está depositada toda a capacidade de reter, recuperar, armazenar e evocar informações disponíveis, seja internamente, no cérebro (memória humana), seja externamente, em dispositivos artificiais (memória artificial). Desse modo, a memória humana focaliza coisas específicas, requer grande quantidade de energia mental e deteriora-se lamentavelmente, com a idade. Por isso mesmo, cientistas e estudiosos da neurociência recomendam o exercitar da memória cotidianamente.
A memória nos conecta a conhecimentos que geraram novas idéias, auxiliando‑nos a refletir sobre a tomada de decisões em nossa vida diária. A memória, segundo diversos estudiosos, é a sede do saber, do conhecimento e das histórias vividas de todo o ser humano. Desse modo, a memória deve ser trabalhada e estimulada em sua amplitude. Pois é através dela que damos significado ao nosso cotidiano e é através dela que acumulamos experiências para utilizar durante toda a vida.
Assim sendo, a memória tem para além da função de promover a adaptação do ser humano ao meio, contribuir de modo efetivo para a socialização e sobrevivência do indivíduo, exercendo uma complexidade diante das variáveis das linguagens: sentimentos, emoções, prazeres, dores e os estados sensoriais com seu sons e odores além dos estados de ânimos.
E o que é lembrar?
E o que é lembrar?
A lembrança é um fato real de uma evocação do passado. Mas também é a capacidade que o ser humano tem para reter e guardar os fatos e episódios interessantes ou não de um tempo vivido ou idealizado. A maior de todas as funções da memória é a possibilidade de projeção em relação ao futuro. Portanto, sem memória não se tem esperanças; sem memória não há futuro nem presente, pois não há identidade. Lembrar é ter certeza desse EU que se faz representar por tantos outros eus. A identidade sustentada por esse ''Eu" conduz o indivíduo a reviver lembranças que são projetadas e, que, vão ao longo do tempo, ser representadas pela consciência, tanto pela consciência superficial quanto profunda daquilo somos, pois, quando pensamos, aferimos lembranças: qualificando-as e quantificando-as em função do passado e em relação às projeções para o futuro. De certa forma, somos sempre o que passou e o que ainda pensamos vir a ser.
A compreensão da capacidade e da evidência neural, em relação aos estudos da memória, tem atingido um grande crescimento em virtude dos avanços tecnológicos em técnicas de neuroimagem funcional. Tais avanços constatam durante processos observáveis os indicadores do desenvolvimento biológico para o desempenho de tarefas cognitivas. Eles são passíveis de observação direta e da quantificação, além de apresentarem a vantagem de uma representação gráfica de forte apelo. Desse modo, graças às tecnologias avançadas nas áreas do Sistema Nervoso Central (SNC), tais estudos e identificação são os correlatos neurais dos processos cognitivos engajados quando da realização de tarefas de conhecimento, por exemplo: codificação, armazenamento e recuperação de informação na memória.
O grande poder da memória assusta e já dizia Santo Agostinho. “Tenho medo da graça que passa sem que eu perceba!” E acredito que também temos medo de esquecer o que de mau vivemos, mas igualmente temos medo de não lembrar a felicidade vivida.
Desse modo, somos essa misteriosa mistura de passado, presente e futuro. E ainda que lembrar nos faça doer, este é o melhor sinal.
Santo Agostinho. Confissões, Edição bilíngüe, 2ª Ed. Imprensa Nacional Casa da Moeda, 2004, Lisboa.
FREUD, Sigmund. Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana. Imago, RJ, 1987.
domingo, 28 de outubro de 2012
O Mito de Pandora e suas Variáveis Interpretativas
O símbolo dos desejos que causam a desgraça humana
(feminilidade e beleza, curiosidade, vingança e discórdia, inconsequência e desejo ardente)
Para os Gregos, os deuses eram descendentes da
terra - Gaia - e do céu - Urano - e tinham grandes semelhanças com os homens. Havia
um lugar para a morada dos deuses, o Monte
Olimpo, reconhecido como sendo o ponto mais alto de toda a Grécia Antiga (com
uma altitude de 2 917 m .),
destinado à casa dos deuses mais importantes. Segundo conta a literatura e a
história, a entrada para o Olimpo era feita através de um portão coberto de
nuvens; isso, talvez, pudesse ser atribuído ao fato de que o cume da montanha,
devido a sua altitude, permanecesse constantemente sob nuvens.
Há várias versões sobre o mito de Pandora e este
parece ter sido um tema que a muitos seduziu e, ainda hoje, seduz. Porém, simbolicamente,
o mito está impregnado de muitas interpretações, tornando-o, assim, difícil
para uma única análise em função de sua história estar ligada à hierarquia dos
deuses.
Mas vamos à história. Uma tentativa de
compreender de forma reduzida as várias versões sobre o mito grego, no qual
Prometeu está diretamente envolvido. Aliás, Prometeu, segundo a etimologia, é: (o que vê antes ou prudente, previdente) e representa o criador da
humanidade. Pertencia à genealogia de um dos Titãs, filho de Jápeto e Clímene e
também irmão de Epimeteu (o que vê depois, inconsequente), Atlas e
Menécio. Os dois últimos se uniram a Cronos na batalha dos Titãs contra os
deuses olímpicos e, por terem fracassado, foram castigados por Zeus que então
tornou-se o maior de todos os deuses.
A caixa de Pandora é uma expressão muito
utilizada quando se quer fazer referência a algo que gera curiosidade, mas que é
melhor não ser revelado ou estudado, sob pena de se vir a mostrar algo
terrível, que possa fugir de controle. Esta expressão vem do mito grego, que
conta sobre a caixa que foi enviada com Pandora a Epimeteu. Pandora foi enviada
a Epimeteu, irmão de Prometeu, como um presente de Zeus. Prometeu, antes de ser
condenado a ficar 30.000 anos acorrentado no Monte Cáucaso, tendo seu fígado
comido pelo abutre Éton todos os dias, alertou o irmão quanto ao perigo de se
aceitar presentes de Zeus.
Prometeu uniu-se a Zeus e recomendou que seu
irmão Epimeteu também o fizesse. Com isso, Prometeu foi aumentando os seus
talentos e conhecimentos, o que despertou a ira de Zeus, que resolveu acabar
com a humanidade, mas a pedido de Prometeu, protetor dos homens, não o fez. Um dia, foi
oferecido um touro em sacrifício e coube a Prometeu decidir quais partes
caberiam aos homens e quais partes caberiam aos deuses. Assim, Prometeu matou o
touro e com o couro fez dois sacos. Em um colocou as carnes e no outro os ossos
e a gordura. Ao oferecer a Zeus para que
escolhesse um dos dois sacos, este escolheu o que continha banha. Por causa deste
ato, Zeus puniu Prometeu retirando o fogo dos humanos.
Assim, coube a Epimeteu distribuir aos seres
qualidades para que pudessem sobreviver. Para alguns deu velocidade, a outros
força, a outros ainda deu asas. No entanto, Epimeteu, que não sabe medir as conseqüências de seus atos, não deixou
nenhuma qualidade para os humanos, que ficaram desprotegidos e sem recursos. Foi
então que Prometeu entrou no Olimpo (o monte onde residiam os deuses) e roubou
uma centelha de fogo para entregar aos homens. O fogo representava a
inteligência para construir moradas, defesas e, a partir disso, forçar a
criação de leis para a vida em
comum. Surge assim a política para que os homens vivam
coletivamente, se defendam de feras e inimigos externos, bem como desenvolvam
todas as técnicas.
Diante do acontecido, Zeus jurou vingança e pediu
para que o deus coxo Hefestos, fizesse uma mulher de argila e que os quatro
ventos lhe soprassem a vida. Determinou, também, que todas as deusas do olimpo deveriam
enfeitar essa mulher, que era Pandora (pan = todos, dora = presente) a primeira
e mais bela mulher já criada e que foi dada, como estratégia de vingança a
Epimeteu, que, alertado por seu irmão, recusou respeitosamente o presente. Zeus,
ficou mais furioso e acorrentou Prometeu a um monte e lhe impôs um castigo
doloroso, em que uma ave de rapina devoraria seu fígado durante o dia e, à
noite, o fígado cresceria novamente para que no outro dia fosse outra vez
devorado, e assim por toda eternidade.
No entanto, para disfarçar sua crueldade, Zeus
espalhou um boato de que Prometeu tinha sido convidado ao Olimpo, por Atena,
para um caso de amor secreto. Com isso, Epimeteu, temendo o destino de seu
irmão, casou-se com Pandora que, ao abrir a caixa enviada como presente (a qual
Prometeu já havia alertado para não fazê-lo), espalhou todas as desgraças sobre
a humanidade (o trabalho, a velhice, a doença, as pragas, os vícios, a mentira,
etc.), restando dentro dela somente a ilusória Esperança.
O que é a caixa de Pandora? É um
mito grego que narra a chegada da primeira mulher à Terra e, com ela, a origem
de todas as tragédias humanas. Essa história chegou até nós por meio da obra Os Trabalhos e os Dias, do poeta grego
Hesíodo, que viveu no século VIII a.C..
Se o mito de Pandora simboliza a origem de todos
os males da humanidade, segundo a lenda o homem recebeu os benefícios do fogo,
contra a vontade dos deuses, e os malefícios da mulher, contra a sua vontade. A
mulher é o preço do fogo. (CHEVALIER,1998). Ou seja, o fogo também simboliza o
amor que todo humano deseja, mesmo que sofra em função dele.
Portanto, o mito da caixa de Pandora quer
significar a ambivalência do fogo e seu imenso poder sobre o homem, tal como a
imprudência que é atribuída aos humanos, assim como a consequência de sua falta
de conhecimento e previsão. Desse modo, a curiosidade não deve predominar sobre
a própria inteligência: o homem deve ser o agente de sua própria história e não
ficar ao sabor da sorte ou das intempéries do destino.
A
literatura moderna, assim como a Poesia, também conta uma história
Na
literatura moderna, ao longo dos séculos, vários autores retomaram a história
de Prometeu e o colocaram como figura que representa a vontade humana por conhecimento (mesmo tendo que passar por
cima dos deuses). A captura do fogo
representou a busca do conhecimento pela ciência. Dentre alguns desses autores,
encontramos o alemão e poeta romântico Goethe que escreveu um pequeno poema de oito estrofes
sobre a lenda de Prometeu intitulado de Prometheus (1774)
do qual segue-se um trecho:
"Encobre o teu Céu ó Zeus
com nebuloso véu e,
semelhante ao jovem que gosta
de recolher cardos
retira-te para os altos do carvalho ereto
Mas deixa que eu desfrute a Terra,
que é minha, tanto quanto esta cabana
que habito e que não é obra tua
e também minha lareira que,
quando arde, sua labareda me doura.
Tu me invejas!
(...)
Eu honrar a ti? Por quê?
Livraste a carga do abatido?
Enxugaste por acaso a lágrima do triste?
(...)
Por acaso imaginaste, num delírio,
que eu iria odiar a vida e retirar-me para o ermo
por alguns dos meus sonhos se haverem
frustrado?
Pois não: aqui me tens
e homens farei segundo minha própria imagem:
homens que logo serão meus iguais
que irão padecer e chorar, gozar e sofrer
e, mesmo que sejam parias,
não se renderão a ti como eu fiz"
Goethe
descreve Prometeu como um homem extraordinário, que se nega a venerar os deuses
e, como ato de rebeldia, se prontifica a fazer homens segundo à própria imagem
que não precisem venerar os deuses. O poeta metaforiza em sua poesia a rebeldia
dos deuses com a sua criação de vida. O tema sugere repensar a sociedade pós-moderna
para os dias atuais.
Fonte:
Hesíodo. Os Trabalhos e os
Dias São Paulo: Iluminuras, 1990.
CHEVALIER, Jean e Alain GHEERBRANT. Dicionário de Símbolos. José Olympio,
Rio de janeiro, 1988.
http://super.abril.com.br/superarquivo/2002/conteudo_120628.shtml
terça-feira, 25 de setembro de 2012
Abstração: Observação do objeto estético no contexto do olhar
Este artigo resultou da percepção de um "olhar" as imagens da pintura de um óleo sobre tela da artista Márcia Vital
Por: Vannda Santana
Por: Vannda Santana
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| Rosácea - óleo sobre tela |
O espectador diante
do objeto:
O lugar da percepção
diante do objeto, espaço virtual, é a interpretação da observação de um olhar questionador,
ao contemplar a pintura que não quer ser estática. Do centro para as bordas, os
corpos giram e, aos poucos, as Formas parecem subverter a ordem. O espectador continua
impactado, em estado de êxtase, de olhos fixos cravados na tela, observando os
pontos que ligam o objeto às imagens. Ilusão de ótica? Não. Não é ilusão, é
arte numa fusão de corpos; é a arte gerando vida na tela com pele e osso na imagem rosada, pelo pintor
esculpida. O olhar do observador, distingue corpos opostos de tinta e óleo,
fecundados por uma paleta mágica de células e penumbras comprometidas com o
espaço de uma rosácea sensual. Fenomenologia ou visão gestáltica?
Segundo Merleau-Ponty: “Tudo aquilo que sei do mundo, mesmo por ciência, eu o sei a partir de uma visão minha ou de uma
experiência do mundo sem a qual os símbolos
da ciência não poderiam dizer
nada.” É desse modo que o olho insiste
em ver na Forma o que não é uniforme; e, dentro da forma pululam imagens míticas
que transitam contorcidas, acopladas, copuladas, como personagens que geram e
encenam em sépalas o cálice do encontro entre luz e sombra onde há mais sombra
que luz. As cores de terra se vestem
de sensualidade para o gesto imobilizado do abraço entrelaçado. Uma visão, ou
alucinação?
A obra de arte
no quadro Rosácea sugere conceitos entre o real e o simbólico, apontando para
uma releitura da imagem em movimento, onde criaturas diáfanas, dionisíacas, assemelham-se
a uma escultura surreal. Foucault afirma que nenhum olhar é estável. Assim, diante do exposto, acredita-se num
olhar que amplie o seu modo de ver o objeto de arte de acordo com a sua
estrutura cultural.
O quadro, o
qual estamos contemplando agora, nos remete a múltiplas visões. Percebemos figuras renascidas da aurora boreal e do caos imaginário,
porque é nesse caos que elas se refazem e se realizam no útero-espaço em
espiral, espaço circular, porque é também deste que a arte objetiva-se como
princípio germinal e ponto primordial.
O que uma tela
ou uma obra de arte pode apresentar para os nossos olhos, perante o que vemos e
o que sentimos com as imagens que construímos em nosso imaginário? A artista Márcia
Vital, talvez não tenha tido a intenção de impactar a nossa percepção com seu
trabalho de arte nesse quadro “Rosácea”. Porém, o que a arte no quadro nos
revela, não nos imobiliza; ao contrário, nos conduz a ver o que nela se
desencadeia através de um simples jogo de cores que se fundem entre o barro e
as centelhas do bronze. Assim, a obra de arte da pintora Márcia pode ser lida como
se lê um poema, da qual se pode também sentir o grau de emoção.
Para um olhar aguçado de qualquer espectador atento, tudo pode ser desnudado. A pintura,
emprestou-nos o visível e o invisível, permitindo-nos a sensação do percebido para
além da superfície: o outro lado, por dentro da obra, na sua mais íntima face,
a face oculta que não escapa ao olhar daquele que pode ver.
Talvez, de
todas as representações no modo de olhar um quadro, o Rosácea, como objeto de
arte, parece cumprir uma função que atravessa a tela no deslocamento do olhar
para fora do limite de onde a imagem se estrutura, criando, assim, uma ligeira
ilusão simbólica do espaço em
movimento. As imagens parecem se projetar em círculos,
seladas pela curva de corpos ambíguos de pincel e tinta que as unem uma a outra
do centro para as bordas. Não são apenas sombras que o véu de rosas faz girar,
nem só refrações que nos cegam o olhar, mas sim o que está por trás desse
objeto de arte: espaço abstraído e subvertido pelo olhar. A arte é, portanto,
mestra em gerar ambigüidades em nossa percepção de acordo, com a acomodação ou
a inquietação no modo de olhar.
Ao terminar
este artigo, penso que existam várias formas de se ver uma imagem e vários
sejam os modos de interpretá-la; ou seja, talvez, possamos inscrever a imagem como significante
de uma interpretação, assim como afirma P. Bruno:
É preciso renunciar ao significado da imagem, para
constituí-la como elemento de escrita e
para poder apreende-la por sua face significante, por sua estrutura material de
palavras.
Conclui-se que
há muitas formas de olhar o objeto de arte, assim como nossas retinas podem ganhar
lentes de aumento e que nossos olhos podem até delirar como tantos ébrios, pois a arte também está no
olho ao participar do gesto que se coloca dentro da cena.
Amigo leitor,
deixo-o com o belo que seus olhos possam ver, do ato seminal até a dança de uma
cadência de ritmos e delírios; mas fique, sobretudo, com o quadro real e com o instante perceptível de uma
observação quase ritualística.
domingo, 2 de setembro de 2012
Síndrome, distúrbio e transtorno
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| Preparando palestra sobre neurociência |
Dificuldades de aprendizagem: Conheça as diferenças entre os termos
Prof.: Vannda Santana de Abreu
SÍNDROME
A Síndrome é definida como um conjunto de sintomas que ocorrem em conjunto. Ou um
conjunto bem determinado de sintomas que não caracterizam uma só doença, mas podem
ser traduzidos como uma situação patogênica.
DISTÚRBIO
O Distúrbio é descrito como uma
(dis-função) psicológica ou mental, trata-se de uma perturbação, um mau
funcionamento e uma interrupção da seqüência normal de continuidade, ou mesmo um
afastamento da norma. O Distúrbio acomete o sujeito individualmente, e, em nível orgânico, pela
existência de um comprometimento neurológico.
DIFICULDADE
O termo Dificuldade
está relacionado a problemas psicopedagógicos e ou sócio‑culturais, ou seja,
não está centrado no indivíduo. O problema pode estar relacionado ao processo de ensinoaprendizagem:
escola, ambiente, família, comunidade e o meio em que vive.
TRANSTORNO
O termo Transtorno é utilizado para indicar a existência de um conjunto de
sintomas ou comportamentos com início que ocorre invariavelmente no decorrer da
infância com um comprometimento ou atraso no desenvolvimento de funções
relacionadas à maturação biológica do Sistema Nervoso Central, com curso
estável não envolvendo remições e recaídas.
Deve-se considerar ainda que o transtorno não
seja conseqüência de uma falta de oportunidade de aprender nem seja decorrente
de qualquer forma de traumatismo ou doença cerebral adquirida. O transtono origina-se
de anormalidades no processo cognitivo que derivam de algum tipo de disfunção
biológica. O termo transtorno revela-se por uma desordem neurológica.
DOENÇA
A Doença caracteriza-se por condição anormal de um organismo que
interfere nas funções corporais e está associada a sintomas específicos. É
considerada como uma disfunção de um organismo causada por agentes externos ou
não ou qualquer condição mórbida ou danosa. O processo mórbido seria definido
como tendo um conjunto característico de sintomas e sinais que leva o indivíduo
a tratamento médico.
SÍNTESE
A rigor não estaria
completamente errado definir a Dislexia por qualquer um dos termos descritos
acima. Porém há sutilezas que devem ser consideradas. Por exemplo, embora a
Dislexia se apresente como uma doença que leva o indivíduo a tratamento médico
e um acompanhamento medicamentoso para a melhora da condição de atenção, este é
apenas um dos muitos sintomas ou sinais que são encontrados entre os
disléxicos, mas não significa dizer que a dislexia seja passível de tratamento
médico.
Dislexia
não é doença!
Sendo assim o termo Síndrome, que está relacionado diretamente à doença, também não se enquadraria, embora haja um conjunto de sintomas que caracterizem a Dislexia. Parece-me que descrever a Dislexia como distúrbio ou transtorno seja mais apropriado ao quadro de sintomas e sinais, muito embora o termo transtorno se aproxime ainda mais.
Penso que este texto não passe de uma pequena sutileza. Porém espero que ele possa contribuir de alguma forma aos profissionais da educação e da saúde por assim considerarmos o disléxico como um ser social. Sabe-se que o disléxico tem lá suas dificuldades, mas esta constatação não lhe tira o direito de ser aceito e compreendido socialmente.
Fonte:
www.cgceducacao.com.br/canal.php?c=4&a=13933
Bibliografia
VISCA, Jorge. Psicopedagogia Novas Contribuições. Nova
Fronteira, - 4ª ed. Rio de Janeiro, 1991.
DSM –IV, Manual Diagnóstico e
Estatístico de Transtornos Mantais. 4ª ed., Artmed, Porto Alegre, 2002.
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