quinta-feira, 15 de agosto de 2013

GÊNESIS DA PALAVRA “PALAVRA”


Por: Vannda Santana

 

        
O vocábulo “palavra” apropria-se do sistema lingüístico, realiza-se através da contextualização de uma idéia, conta um conto, faz história, imprime uma cena. E quantos mistérios há acerca de uma só palavra e o que ela pode ocultar em seu contexto histórico-literário? Sabe-se que a palavra transgride, ao mesmo tempo que se ocupa da arte para se camuflar, quer seja numa  lenda referindo-se à moral da história, ou numa  cena onde a trama epistemológica será apenas valorizar a etimologia.
 

 Certos de que as Palavras são instrumentos de linguagem e que, de certo modo, estão sempre prontas a transmitir informações, busca-se então, através delas, o conhecimento. Mas é sabido também, que os critérios lingüísticos repassados à sociedade, possuem  uma diversidade de informação capaz de confundir qualquer  receptor menos avisado. Daí a importância de se conhecer o código da língua mater, o que ele deseja exteriorizar e qual o alvo de compreensão que se queira alcançar.

 
Portanto,  para que se compreenda a história que a palavra guarda em seu sentido Lato-Senso e em seu étimo, há que se rastrear desde à etimologia, ao simbolismo, em busca da gênesis e da formulação dos sentidos que se escondem por trás de cada palavra escrita.  E a PALAVRA,  termo que deu origem a este escrito, de onde vem?

 
  Longa é sua jornada. Há um logos como princípio supremo, portador de ritmo e de harmonia contido no léxico de cada letra de cada palavra que quer se comunicar. Por isso, os hebreus procuraram retratar a palavra de forma visual mostrando sua estrutura gráfica composta de letras  em (chamas). Portanto, a palavra BERESHÍT, que significa (No começo),  causa uma expressão de admiração por sua forma original em hebraico: – “Quantas chamas numa única palavra!  (...) As chamas são silenciosas. Elas CREPITAM, estalam, dançam, queimam, aquecem, iluminam. É o GRITO do Gênesis, é o FOGO da Sarça repetidos interminavelmente em cada letra, em cada palavra, em cada linha, em cada página, de começo a fim.”  Desse modo, afirma-se que os hebreus criaram um hieróglifo para grafar a  palavra – PALAVRA, conferindo a esta um importante sentido simbólico. Eles adotaram um valor de poder à Palavra de tal forma que, quando esta viesse a ser grafada, uma força recairia sobre a expressão, tal como um fogo alquímico: “fogo transformador”. Daí, a expressão deixar de ser lenda para ser Ação.

 
                              Assim são os atos e os fatos narrados no cotidiano da civilização humana. E para que servem as palavras se não para contar histórias e estórias e dar sentido à vida? As palavras são como cores e odores; são como o pão e vinho para alimentar o homem ao longo de sua história.  A palavra exorciza nossos fantasmas, ao mesmo tempo que socializa com seus elementos fantásticos. Incorpora personagens míticas e históricas, povoa nosso mundo onírico com imagens célebres, nos permitindo sonhar com mundos nunca antes vistos, sequer imaginados. “A PALAVRA É FOGO.





[1] Rômulo Cândido de Souza. Palavra Parábola. Uma aventura no mundo da linguagem. Ed. Santuário SP, 1990, p. 125
[2] Id., ibid., p.124

domingo, 2 de junho de 2013

O DIÁLOGO ENTRE AS ARTES E A LITERATURA

Uma fusão de limites entre palavra, texto e imagem

 

“Do passado caligráfico que me vejo obrigado a lhes supor, as palavras conservam sua derivação do desenho e seu estado de coisa desenhada: de modo que devo lê-las superpostas a si próprias; são palavras desenhando palavras (...).”
(Michel Foucault)

O diálogo entre os tempos


O diálogo entre as artes, analisado num período que vai do século XV ao século XX,  desenvolveu-se  num contexto em que a sociedade ocidental alimentava a ideia de separação entre os signos linguísticos e as artes plásticas. No decorrer do século XX, as relações  dialógicas entre as artes e a literatura estreitava-se de forma manifesta, adequando-se como parte da história com o passar do tempo. E, como todo acontecimento histórico que dá origem a uma movimentação artística, este contribuiu singularmente para que o evento pudesse acontecer na diluição dos limites entre as diferentes linguagens e, conseqüentemente, pela aproximação das diversas artes.
 Desse modo, ao estreitarem-se as fronteiras entre o texto e a imagem, abriu-se, então, um espaço para a aproximação das artes, partindo-se do princípio de que vários poetas, num dado momento, apropriando-se das artes visuais, inseriu-as nos seus escritos poéticos, estampando‑as na página. Tal procedimento denomina-se  atmaísmo.
Mas o que vem a ser Atmaísmo? Atmaísmo vem da união de duas palavras: Atman e Ismos. Para os hindus, “Atman” tem o sentido de alma individual originada do deus Brahan e que recebeu deste todo o poder de criação. “Ismos” é um sufixo de origem grega, que significa “capaz de captar e irradiar beleza”. Portanto, um trabalho atmaísta é aquele em que o artista inseriu um desenho ou uma pintura em sua poesia, ou vice-versa, unindo arte visual e  literatura como complementação do belo. Não se trata de colagem, o trabalho atmaísta é uma arte onde convivem duas criações artísticas ao mesmo tempo, ou seja, dois trabalhos de natureza distinta compartilhando do mesmo espaço.

 A partir daí, os escritores, mais precisamente os poetas, passaram a incorporar elementos gráficos e imagens em seus trabalhos. Por outro lado, os artistas visuais retomaram, então, a origem visual da escrita, utilizando-se do mesmo processo das artes para acrescentar elementos textuais em suas obras, por exemplo: os grafismos, letras e arabescos de diversos alfabetos tiveram seu papel na colagem de fragmentos de textos impressos, entre outros recursos que pudessem servir de acessório ao trabalho artístico. Naquele momento, tornavam‑se objetos de arte tais aplicativos, tanto para aplicação nas pinturas,  quanto nas poesias.
 A partir desse marco histórico, a palavra e a escrita passaram a compartilhar do mesmo espaço físico, agregando-se ora à imagem, ora à escrita, mas sempre em busca de um sentido que desse uma contextualização aos temas, com o fim de conceituá-las como objeto de arte. No caso específico, a imagem passou a se servir da escrita, mas o contrário também aconteceu de forma considerável, pois os elementos artísticos com seus temas atravessaram o tempo e traduziram-se do grafismo ao visual, privilegiando sentido à imagem no mesmo instante em que, juntos, puderam participar do sentido dialogal.

A reaproximação entre imagem e escrita que se deu a partir do século XIX pode contribuir no processo de resgate dos vínculos entre a palavra e a imagem. Essa contribuição representou grande importância nas experiências de determinadas épocas e de determinados artistas, tais como as do poeta francês Mallarmé, que passa a considerar a visualidade da letra e do branco do papel, como um elemento a mais em seus poemas. Assim como o trabalho pioneiro de Picasso e Braque, que com os papiers collés, inauguraram uma forte tendência da arte contemporânea, incorporando na obra artística materiais não artísticos. Portanto, letras e fragmentos retirados de jornais, partituras musicais, papéis de parede entre outros elementos gráficos, passaram a ser utilizados em obras artísticas de modo que as partes se ajustassem ao todo, tal como num quebra cabeça, criando e se ajustando de forma harmônica, para dar sentido a um outro visual artístico.
Imagens e linguagens com suas possíveis variáveis
Vimos que esses modos que se interpenetram nas linguagens, utilizando-se de imagem e de palavras parecem não cumprir uma ordem clássica. São manifestações que chegam a exprimir irrupções incontroladas, como diz Beneval de Oliveira em sua Arte e Dialética. No contexto da linguagem a palavra quer falar e deve falar; no contexto da pintura,  o artista impõe à arte o dever que ela tem de se revelar, atendendo à demanda do resultado artístico desejado.
Sabe-se que há casos em que a imagem se comporta como anunciadora de seu próprio discurso, onde o diálogo se faz presente de forma iconográfica. Exemplos podem ser exibidos  no caso das legendas, onde as quais emprestam sentido ao tema‑título  como objeto de arte, onde, às vezes, a letra é pura ilustração que se ocupa de um lugar no texto para chamar maior atenção que o próprio texto.
 E o texto é mais que arte expressa em seu contexto de arbitrariedade e subjetividade, pois o sentido do discurso está subliminarmente em ser uma legenda, com arte e linguagem.  Neste caso, pode haver uma metáfora no discurso, tomando para si o lugar de ser do ser da arte, declarado no processo visual de modo intencional. E pode acontecer com a pintura (imagem) o mesmo processo da escrita - palavras: a imagem retoma para si o lugar de um status de metonímia – onde a (obra de arte) fala por si só – uma declaração da qual não necessita exemplificação à significação.
Portanto, a palavra já nasce (pronta) para falar imbuída  de seu aparato lingüístico, de seu sentido semântico com seu discurso legível e não se difere da pintura, pois em ambos os casos, os signos são distintos e podem até comungar da mesma cena no mesmo espaço. O diálogo da pintura se destaca por apresentar um corte na experiência de quem a vê (a imagem), ela pode até ter palavras, mas a imagem não é palavra. A imagem,  em certos momentos, nos empresta a ideia de que gostaria de nascer palavra quando estava sendo germinada na consciência do pintor. Desse modo, o ato de imaginar pode subverter a razão e, qualquer outro adorno pode poluir a imagem. Entretanto, como negar qualquer subordinação entre imagem, palavra e texto?
A partir dos anos sessenta, os meios de comunicação aumentaram sua penetração e difusão, passando a intervir em todas as instâncias da vida cotidiana, fazendo com que o convívio com as imagens caminhasse rumo à saturação. Com este avanço, houve uma crescente banalização da imagem e até do próprio texto. E o mesmo aconteceu com as relações entre os indivíduos e os objetos, ou seja,  uma “feira” à cultura de consumo.
De acordo com esse padrão de pensamento, artistas e poetas passaram a buscar maneiras novas de se relacionarem com a arte e com a escrita. Em última instância, essa foi uma experiência que aos poucos pode se mostrar adaptada às novas circunstâncias e, então, acrescentar às artes os novos materiais de suportes tradicionais. Nesse momento, entrava em cena e não menos sucessivamente, um novo panorama, questionado por alguns críticos, mas aceito na mais sublime condição humana: o modo de ver e de sentir a arte tal como sugere  M. Ponty em seu O Visível e o Invisível: “ (...) O visível à nossa volta parece repousar em si mesmo.” Os artistas, então, motivados por essa apropriação dos novos meios, passaram a adotar tais recursos como suporte para a sua criatividade. Saber ver, saber sentir a arte em todas as suas formas de linguagem é um modo de articular o diálogo.
As palavras: arte sem limite
De acordo com o exposto, para tornar possível a leitura de um texto onde a grafia é pura representação estética e, no caso contrário, se a uma obra de arte for acrescentada uma legenda, como deve ser tratada essa arte? É o texto que se atrela à imagem ou é a imagem que se quer palavra? No diálogo entre as artes, palavra e imagem discursam livremente, mas é importante compreender a fusão desses limites que separam a escrita iconográfica da escrita puramente textual. Desse modo, vale citar José Enes em seu livro Noeticidade e Ontologia:
“(...) O pensamento pensa articulando o que vê, ouve, entende, induz e conclui, atuando pela fala as virtualidades semânticas do sistema semiótico das línguas. O discurso é a articulação daquilo que o pensamento entende e diz. Com propriedade se pode dizer que as palavras tem significados e que o discurso, combinando-os, lhes dá um sentido. A combinação morfológica dos sememas forma a estrutura semântica das palavras, a integração sintática destas na significação da frase e das frases numa totalidade de sentido dá o discurso.”
Vimos que o diálogo das linguagens abre um espaço a mais para ceder lugar às artes, uma vez que o pensamento do artista articula o que vê. Como espectador, Freud confessa seus limites e suas afinidades estéticas, mas não deixa de oferecer à arte um modo de pensar.
“Não sou um conhecedor de arte, mas simplesmente um leigo (…). Sou incapaz de apreciar corretamente muitos dos métodos utilizados e dos efeitos obtidos em arte (…). Não obstante, as obras de arte exercem sobre mim um poderoso efeito, especialmente a literatura e a escultura e, com menos freqüência, a pintura. Isto já me levou a passar longo tempo contemplando-as, tentando apreendê-las à minha maneira, isto é, explicar a mim mesmo a que se deve seu efeito. Onde não consigo fazer isso, como, por exemplo, com a música, sou quase incapaz de obter qualquer prazer.”

As palavras  ditam também o discurso freudiano e por meio delas  Freud (1914) se dirige aos seus leitores, tentando assegurar indulgência para o resultado de suas incursões no campo das artes. Confessa o psicanalista o seu lugar de espectador, os seus limites e suas afinidades estéticas, sugerindo que há uma diferença de estatuto entre as artes que constituem os pólos de referência da Psicanálise, da literatura e das artes. E afirma que: “(...)  os escritores criativos são aliados muito valiosos, cujo testemunho deve ser levado em alta conta, pois costumam conhecer toda uma vasta gama de coisas entre o céu e a terra com as quais a nossa filosofia ainda não nos deixou sonhar.”

Bibliografia:
BARTHES, Roland. O Prazer do Texto. Lisboa, Portugal: Edições
70, 1973.
ENES, José. Noeticidade e Ontologia. Imprensa Nacional Casa da Moeda, Lisboa, 1990.
FREUD, S. Obras Completas de Freud. Vol. IX (1906 – 1908), “Gradiva” de Jensen e outros trabalhos.
Merleau-Ponty, Maurice. O Visível e o Invisível. Ed. Perspectiva S.A. São Paulo, 2005.
OLIVEIRA, Beneval de. Arte e Dialética. Pallas Editora e Distribuidora Ltda, Rio de Janeiro, 1983.

sexta-feira, 8 de março de 2013

O destino da educação na contramão da história: do obscurantismo medievo ao terrorismo da negação do saber feminino

Hoje, bem distante da Idade Média, ainda se vive uma caça as bruxas às avessas. Refiro-me à educação como um direito humano universal perante a Lei que promove e garante a democracia fundamentada na legalidade constitucional. A saber, esta legalidade não se limita ao gênero, pois é um direito de todos os cidadãos. Porém, do obscurantismo medieval até o momento presente, um hiato se estabelece contra o destino da educação que mais parece um clichê na contramão da história. Assim temos o caso de Malala Yousafzai que “não desejou o impossível”, a menina quis apenas praticar e desenvolver suas habilidades intelectivas para o que apenas desejava ser e ter: conhecimentos para enfrentar os inimigos segregadores dos saberes culturais. A jovem, com sua sapiência de uma quase criança, procurou nutrir-se de uma responsabilidade maior que a de seu próprio tempo e não tão menor que a de sua cultura. Malala toma para si a causa política da educação das meninas e foi em busca de mudanças que pudessem tornar possível tal realidade: ter o direito de ir para escola onde então vivia e experienciou armazenar conhecimentos para lutar contra o futuro imaginário da educação de seus iguais. A paquistanesa alcançava a visão de mundo e conseguia ver para além de seu tempo. Agindo desse modo, Malala prometia enfrentar os terroristas talibãs, uma facção fanática que não reconhece o direito das mulheres à prática do conhecimento escolar. Malala queria dar um basta ao absurdo do direito negado ao estudo das meninas. Quis ela fazer ver que essa forma já não cabe num mundo desenvolvido, no mundo de hoje, do século 21, onde o universo se comunica com todas as áreas do saber humano. O recado da jovem menina ressoou de forma ameaçadora ao mundo terrorista, despertando o ódio. Assim, o que se pensa (mesmo distante da Idade Média) pode permanecer na mente de um povo, no obscurantismo de classes e pessoas, constituindo-se no mais terrível dos crimes contra a mulher: impedi-la de ter a sua formação escolar. A jovem Malala foi vítima de um atentado contra o saber e o fizeram de forma cruel, covarde, que quase lhe tirou a vida. E isto aconteceu porque a menina é uma ativista que ousou escrever um blog para a BBC sob o nome de Gul Makai, explicando a situação em que viviam ela e sua família, diante do regime do Tehrik-i-Taliban Pakistan (TTP) e as tentativas de recuperar o controle do vale após a ocupação militar que obrigou-os a ir para as áreas rurais. Diante de tais acontecimentos, Malala põe em prática uma de suas “armas”: a palavra a serviço da ação. Em seus escritos, nota-se a presença de uma consciência política de cidadã responsável ao declarar os feitos de poder do Taliban pelo fechamento de escolas particulares e a proibição da educação de meninas entre 2003 e 2009. Nesse blog, Malala revelou as circunstâncias em que viviam as meninas de sua pequena Mingora, Swat, Jaiber Pastunjuá, Paquistão, uma revelação política, mas com consciência e, sobretudo, como cidadã engajada na causa da educação. Talvez coubesse aqui algumas perguntas: por onde anda a cabeça dos grandes governantes em relação ao destino da educação de um povo “marginalizado pela sorte” além de vulnerável às mãos de criminosos terroristas? O New York Times resume quem é a paquistanesa que aos 14 anos se tornou ícone do direito à educação feminina e do sofrimento cotidiano vivido por mulheres no Vale do Swat, na fronteira montanhosa e tribal entre Paquistão e Afeganistão. Mas a pergunta segue a pauta quebrando o silêncio de muitos: onde está a força do mundo globalizado que tem “olhos” mas não pode ver porque suas armas não são as mesmas que o inimigo possui? Por outro lado, se são muito menos poderosas, o que fazer se só possuímos palavras tais como as de Malala? E o que fazer quando o mundo nos oferece uma estrada virtual feita de palavras e com palavras que falam e conduzem o pensamento aonde quer que queiramos ir? Então eis a pergunta: como proteger as Malalas de nossas casas, de nossas vidas, de nossos irmãos, se só possuímos palavras? Se não ousarmos o direito que a palavra nos confere, não sairemos do lugar comum. Não sei se disse tudo que gostaria de dizer, mas o que disse eu sei bem a quem atingir: eu e todas as Malalas do mundo vamos continuar a praticar o exercício do direito da palavra, do direito da expressão, do direito de usar a fala como ferramenta de prazer para denunciar os abusos e absurdos contra qualquer forma de preconceito. Aqui fica o meu registro a favor do saber e da educação de todo ser humano, principalmente, o das mulheres de todo o mundo. Malala exerceu o direto da palavra e assim saiu do anonimato com o seu "Diário de uma estudante paquistanesa”: venceu o medo, enfrentou a morte, virou ícone. Mas sua vida vale muito mais e é através das palavras que queremos conferir nossa indignação aos atos de violência contra a mulher. Esta é a minha palavra de hoje: não à violência que tenta impedir a mulher de ser e ter as qualidades de um saber mais que específico.

domingo, 13 de janeiro de 2013

A BIOLOGIA DO AMOR E SUA QUÍMICA

“... se fôssemos verdadeiros cientistas, se aceitássemos viver um pouco na utopia da felicidade, faríamos punções lombares àqueles que assistem a fogueiras nos acampamentos.  Constataríamos que este simples facto aumenta a taxa de serotonina”.
Boris Cyrulnik


Uma pesquisa recente nos mostra a eficácia do afeto e o seu  e do coração benefício para a nossa saúde. Relata como a química da biologia funciona nas relações de afeto entre os parceiros amorosos, na convivência de pais e filhos. Mostra ainda como a afeição física pode interferir em todo o organismo, além do cérebro e do coração outros sistemas são diretamente afetados. O corpo também desempenha funções significativas em relação aos sentimentos. Essas funções combinam reações quando estão no comando de uma ação agindo ou interagindo para o nosso bem estar ou, ao contrário.
Durante séculos e no decorrer da vida, os artistas declararam em suas existências – o amor e a paixão – através de suas artes: os poetas cantaram na poesia  seus amores de todas as formas com as variáveis de cada época e gênero; os pintores, com tintas e pincéis, criaram ninfas e deusas do amor num relevo inimaginável com sombra,  luz e simbolismo vestiram a pintura de seus tempos e, aos compositores, também foi-lhes dado o dom de ser poeta: letra e música como declaração de amor e, em cada nota musical, um recado emocional capaz de seduzir, comunicar, encantar e assim falar de amor. Há outros movimentos que para além das artes são capazes de se comprometerem com a química produzida pelo amor.
Sabemos que a razão é um mecanismo ou uma qualidade do pensamento humano capaz de impor limites às próprias emoções, pois sem esse aprendizado diante das emoções violentas, haveria um desregramento responsável pela desordem e até pelo conflito social.
Nos últimos anos, cientistas começaram a entender essa química biológica em nossas relações afetivas, buscando entender como nossos corpos respondem ao amor e ao carinho. Ao investigar o hormônio  chamado ocitocina, encontrado na área do cérebro chamada hipotálamo, os estudiosos descobriram que a partir das interações afetivas, esse hormônio  é liberado em nossa corrente sanguínea.
É esse milagroso agente bioquímico, a citocina, que nos faz sentir bem quando estamos perto de uma pessoa amada, assim como de nossa família e de outros entes queridos, incluindo aí os animaizinhos de estimação. O processo que os cientistas chamam de sistema de recompensa é liberado pela dopamina, uma substância  presente no cérebro que desempenha um papel fundamental na maneira como percebemos o prazer: aquela sensação de bem-estar como se estivéssemos dopados, como o próprio nome invoca.
Assim, a ocitocina cumpre sua função biológica para além de nos fazer sentir bem, pois ela será capaz de reduzir os níveis de hormônios que provocam o estresse no organismo; diminuir a pressão arterial, além de melhorar o humor e aumentar a tolerância orgânica diante do sentimento de dor. Acredita-se que a ocitocina pode acelerar o processo de cura dos ferimentos, bem como, regenerar as queimaduras e até mesmo atenuar o sofrimento de doenças crônicas.
No Filme – O Amor é Contagioso “Patch” Adams descobre um belo dom de poder ajudar as pessoas usando o bom humor. Dois anos mais tarde, Patch entra em uma universidade de medicina para se formar como médico e, assim, poder ajudar de forma mais abrangente, colocando alegria no coração de seus pacientes. Patch  vai lutar contra um grande desafio ao tentar provar que o amor é contagioso.
Essa prática vivenciada por Patch, já vem sendo usada aqui no Brasil por uma ONG reconhecida em todo o país pelo desempenho, profissionalismo e sua atuação inovadora, agregando um elenco de Doutores da Alegria. A originalidade desta ONG pode ser observada através das visitas periódicas dos palhaços besteirologistas às crianças hospitalizadas, administrando risos como remédio. Esse elenco de profissionais da alegria, além das atividades que são praticadas, eles procuram envolver a família e toda a equipe de saúde.
Ao finalizar este artigo, quero lembrá-los de que a alegria é o agente bioquímico impulsionador de mudanças do humor, assim como o amor que produz todo ato de prazer. Desse modo, o amor e a alegria irão gerar antídotos capazes de não somente melhorar o estado físico e emocional, como também exercer a eficácia na recuperação de sistemas que estariam prestes a decretar sua falência.
Segue abaixo uma lista com 40 itens de doenças que são causadas por ressentimentos:
Doenças Causadas por Ressentimentos
1-Amidalite: Emoções reprimidas, criatividade sufocada
2-Anorexia: Ódio ao extremo de si mesmo
3-Apendicite: Medo da vida. Bloqueio do que é bom
4-Arteriosclerose: Resistência. Recusa ao ver o bem
5-Artrite: Crítica conservada por longo tempo.
6-Asma: Sentimento contido, choro reprimido
7-Bronquite: Ambiente familiar inflamado. Gritos, discussões
8-Câncer: Mágoa profunda, tristeza mantida por muito tempo
9-Colesterol: Medo de aceitar  a alegria
10-Derrame: Resistência. Rejeição à vida
11-Diabetes: Tristeza profunda
12-Diarréia: Medo, rejeição, fuga
13-Dor de cabeça: Autocrítica, falta de autovalorização
14-Dor nos joelhos: Medo de recomeçar, de seguir em frente
15-Enxaqueca: Raiva reprimida. Pessoa perfeccionista
16-Fibromas: Alimentar mágoas causadas pelo parceiro (a)
17-Frigidez: medo. Negação do prazer
18-Gastrite: Incerteza, sensação de condenação
19-Hemorróidas: Medo de prazos determinados. Raiva do passado
20-Hepatite: Raiva, ódio. Resistência à mudanças
21-Insônia: Medo, culpa
22-Labirintite: Medo de não estar no controle
23-Meningite: Tumulto interior. Falta de apoio
24-Nódulos: Ressentimento, frustração. Ego ferido
25-Acne (pele): Individualidade ameaçada. Não aceitar a si mesmo
26-Pneumonia: Desespero. Cansaço da vida
27-Pressão alta: Problema emocional duradouro não resolvido
28-Pressão baixa: Falta de amor quando criança. Derrotismo
29-Prisão de ventre: preso ao passado. Medo de não ter recursos suficientes
30-Pulmões: Medo de absorver a vida
31-Quistos: Alimentar mágoas. Falsa evolução
32-Resfriados: Confusão mental, desordem, mágoas
33-Reumatismo: Sentir-se vítima. Falta de amor. Amargura
34-Rinite alérgica: Congestão emocional. Culpa. Crença em perseguição
35-Rins: Medo da crítica, do fracasso, desapontamento
36-Sinusite: Irritação coma pessoa próxima
37-Tiróide: Humilhação
38-Tumores: Alimentar mágoas. Acumular remorsos
39-Úlceras: medo. Crença de não ser bom o bastante
40-Varizes: Sentir-se sobrecarregado
Referências:
CYRULNIK, B.. Fórmula química da felicidade. In: Para uma utopia realista – em torno de Edgar Morin. Lisboa: Instituto Piaget, 1998.
MATURANA, H..A ontologia da realidade (org. Magro, C.; Graciano, M.; Vaz, N.). Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1977.
___________, Emoções e linguagem na educação e na política. Belo Horizonte. Editora da UFMG, 1998.
MORIN, E.. Amor, poesia e sabedoria. Rio de janeiro: Bertrand Brasil, 1998

Site:
O conceito de afetividade de Henri Wallon:
HTTP://revistaescola.abril.com.br/gestão-escolar/conceito-afetividade-henri-vallon-645917.shtml
 

 
 



quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Os Ipês contam histórias

Gosto muito de ler e, do mesmo modo, gosto outro tanto de escrever. Por isso mesmo, ouso apresentar aos meus amigos que também gostam de ler uma pequena história sobre uma das mais belas árvores do Brasil: o exuberante Ipê.

O ipê é uma árvore do gênero Tabebuia (Tabebuia chrysotricha) pertencente à família das Bignoniáceas que pode ser encontrada por todo o Brasil. Os índios usavam essa madeira para fazer bodoques e arcos, aproveitando-se da peculiar elasticidade e da firmeza que a madeira oferece.  Assim, justifica-se um de seus nomes populares:  Pau-d’arco. Esta árvore de grande beleza vem sendo apreciada tanto pela excelente qualidade de sua madeira, quanto por seus efeitos ornamentais e decorativos, além de ser reconhecida pela farmacopéia popular e botânica por seus efeitos medicinais.

 Com toda a grandiosidade de suas qualidades, o Ipê seduziu escritores e provocou olhares de encantamentos. Desse modo, ficou imortalizado nas páginas de José de Alencar, Machado de Assis, Castro Alves, Bernardo Guimarães entre outros e tantas outras lendas. José de Alencar, além de dar o título a um de seus grandes romances: O Tronco do Ipê; em O Guarani, atribuiu a força do Ipê a sua narrativa ao dizer: “O velho Aymoré vacilou; seu braço que vibrava o tacape com uma força hercúlea, caiu inerte; o corpo abateu-se como o Ipê da floresta cortado pelo raio.” Continua Alencar em sua obra Ubirajara: “O grande chefe ergue a sua fronte soberba como o velho Ipê da floresta coroado de flores.” E em Machado de Assis,  na  obra Americanas, lê-se: “Um desfolhado ipê conserva e guarda / Flores que lhe ficaram de outro estio, / Como esperança de folhagem nova,/ Flores que a desventura lhe há negado,”. Em Bernardo Guimarães, no conto Pão de Ouro, encontra-se: É o truculento Ipê, que como um cacique todos os anos se enfeita de um diadema de flores amarela, diadema efêmero e irrisório, que no outro dia o vento lhe arranca da fronte e roja pelo chão.”

Muitos pesquisadores destacam o Ipê naquilo que ele tem de mais simbólico, além de beleza e flores: seu poder de acalentar, alegrar, agregar e curar. O pesquisador mineiro, Breno Marques, em seu Livro As Essências Florais de Minas – Síntese para uma medicina de almas, afirma que (...) A Tabebuia, que tem uma forte analogia sonora com Aleluia ou “Tábua-boa”, é uma “tábua de Salvação” que pode ajudar aquele solitário que, mesmo estando imerso nas águas bravias da dor e do sofrimento, pode resistir infinitamente por honra e glória do Criador. Diz, ainda, que a planta (...) associa os conceitos de sincronização temporal e de força, sendo portanto uma poderosa “lente” concentradora de energia solar, disponível naqueles momentos exatos de máxima necessidade. Arremata destacando que (...) O Ipê realiza arquetipicamente um princípio oculto, que foi captado e bem expresso por Vitor Hugo, que diz assim: “Não há nada mais forte que uma idéia quando chega o momento exato de sua realização.

  Nota-se que o nosso Folclore Brasileiro está recheado de fábulas, lendas, mitos com seus distintos e instigantes temas. Assim, dentro desse cenário, incluem-se os vários “causos” contados sobre o Ipê com uma infinidade de histórias interessantes, as quais nem todas fazem parte de um único gênero. Como bem se pode notar, entre os autores aqui citados, estão os variados estilos desde a medicina com seu cartesianismo exemplar à medicina vibracional, cedendo lugar às falácias populares até à literatura contemporânea. Por isso, retornemos ao criador do sistema dos Florais de Minas, Breno Marques, que foi um dos professores que mais me impressionaram durante suas aulas de  física quântica entre outras de igual importância, pela maneira descontraída de prender à atenção de seus alunos com momentos de descontração e com o seu jeito “mineiro” de contar histórias. De tudo que já pude ler e ouvir sobre as plantas e de toda trajetória de histórias vivenciadas como aluna e professora, uma se tornou especial, aquela que fora contada por Breno Marques e que nunca mais saiu de minha mente. O resumo dessa história retoma em minha memória um certo conceito de nozado, não pelos rituais que acontecem nos velórios, muito menos pela peculiar narrativa da palavra “soia”. Mas sim, pela fluidez semântica que faz a história ganhar um significado mais que simbólico de força vital e de esperança, que vai muito além da fenomenologia de uma simples etimologia contida no radical do nome da planta. O Ipê consagrou-se com seus pressupostos sedutores de energia, graça e beleza e, nele se pode ver uma atmosfera mágica que transborda qualquer conceito lingüístico, ao transcender olhares e às diferentes formas do dizer. Diante exposto, vamos ao causo:

Conta-se um “causo” que lá pelas bandas do interior das Minas Gerais, morreu uma véia (velha) e, então, chamaram o povo para animar o velório, com direito a pinga, comidinhas, bebedinhas e tudo mais, até um sanfoneiro... Tudo seria normal, não fosse o episódio que aconteceu: de repente, a veia que estava morta, se senta no caixão, e foi um Deus nos acuda... um corre – corre assustador, a porta ficou estreita, diante dos tantos que teimavam em fugir do fantasma vivo da véia. Com algum custo, aqueles poucos que ali ficaram, procuraram retirar a velha do caixão e colocá-la na cama. Porém, não demorou muito e a veia morreu de novo. E, assim, entre o morre-e-desmorre, lá pelas tantas, diante da estranha sucessão dos fatos resolveu-se chamar o homem que fez o caixão, e então perguntou-se:  
 Acaso o cumpade Izé não esqueceu algum prego puntudo dentro do caixão?! As veiz tá cutucando a cumade... num tá deixando ela sussegada lá dentro!? Antes de colocarem a véia novamente... vistoriaram todo o caixão por dentro... esquadrinharam tudo... várias mãos... e nada... não havia pregos pra desvendar o mistério do morre-desmorre sem fim... Foi quando o cumpadre Joaquim iluminou-se com a seguinte solução: já sei... o cumpade Izé feiz errado... num pode fazê caixão de Ipê!... O Ipê é tão forte que não deixa ninguém morrê!...
                     Assim, o Ipê conta sua história. E esta é apenas mais uma entre tantas outras com seu pseudo poder, segredo e graciosidade que a natureza nos oferece. Basta observarmos. Há bem pouco tempo, eu voltava da Barra da Tijuca em direção à Zona Sul e passando por São Conrado, um vislumbre...bem a minha frente, lá no alto na Rocinha, um Ipê também inspirou-me numa das crônicas do meu livro: O Rio e seus relevos díspares , onde se lê que “Um novo cenário  veste a imaginação e  empresta aos olhos, apenas aquilo que se pode ver. – Um velho Ipê amarelo resiste com sua doutrina.  A planta carrega em sua lenda o mito de uma velha  sabedoria que é fazer a vida renascer e florescer.”

Diante do exposto, releio o tempo presente  em função do passado e, assim, tristemente, estabeleço uma relação com o futuro que se aproxima, vislumbrando os Montes e Serras do Vale do Paraíba que continuam lá, porém, sem a floresta dos Ipês coloridos. Aproveito o instante deste escrito para renascer das lembranças e convidá-los a cantarmos juntos com o inesquecível Geraldo Vandré: “Pra não dizer que não falei de flores”. Agora, sigo caminhando e cantando os Ipês com suas flores e cores, com seus tons rosáceos, lilases, brancos e amarelos: todos servindo de ponte às boas lembranças da vida.

Se o texto que, ora lhes está sendo oferecido, pode, nessa breve reflexão, ser compreendido para além de sua expressão metafórica, naquilo que José Enes classifica como noético, (estrutura energética da faculdade intelectiva), então o Ipê já terá exercido uma de suas (máximas) a maior de todas as missões: levar a Luz da esperança a quem dela necessitar.  Descortinei lembranças de antigos campos, relembrei os prados verdejantes e as brincadeiras de esconde – esconde;  reavivei as tintas do passado através da memória dos Ipês e, de lá, trago um presente para você, leitor: um Ipê! A cor, você escolhe:



Rosa, é a cor do plexo cardíaco, trabalha o Amor incondicional e o sistema imunológico. Desenvolve os aspectos sensíveis da glândula Timo, está diretamente relacionado ao coração, melhora a arritmia cardíaca e o sistema circulatório, brônquios e o aparelho respiratório;

  
Branco, esta cor induz à pureza, à limpeza e é o símbolo da Paz;
 


Lilás, tem ligação direta com as energias superiores, trabalha a glândula Pineal nas disfunções das neuroses, irracionalidades, fobias, desorientação e obsessão, além das disfunções sensoriais e cerebrais, bem como a insônia, enxaqueca e histeria;

 


Amarelo é a cor do plexo solar e é também a cor do intelecto. Trabalha as funções da Personalidade, vitalidade, ação e vontade, auto-estima, melhorando a ansiedade, a indecisão e a desconfiança. Trabalha os sistemas nervoso e pancreático: o baço, estômago, fígado, vesícula, intestino delgado e parte inferior das costas.




   
Fonte:

SANTANA, Vannda. O avesso e o reverso na ponta da pena. Oficina Editores, 2ª Ed. RJ, 2007, p.83;

SILVA, Breno Marques da.  As essências florais de Minas: síntese para uma medicina de almas, Breno Marques da Silva  e Ednamara Vasconcelos e Marques. 2ª Ed. São Paulo, editora Aquariana, 1997;
Criatividade e Espiritualidade seguindo os passos de " A Profecia Celestina" - Dr. Breno Marques da Silva e Ednamara Batista Vasconcelos e Marques.

Site:

Pesquisa Google:

Os Ipês Amarelos de Rubens Alves
Os Ipês Floridos


terça-feira, 27 de novembro de 2012

A Hierarquia das Lembranças e a Fisiologia do Ser Humano na Arqueologia do Tempo

Fisiologia das lembranças
Lembrar! O que é que nos faz recordar? Em que lugar da memória estarão preservadas as lembranças de toda uma história de vida? Talvez tenhamos de responder essas perguntas com uma outra: será que nosso corpo, ao longo de nossa existência, abrigaria fisiologicamente toda espécie de recordações boas e más sem adoecer? Como o inconsciente daria conta de “administrar” conscientemente tais emoções? E, ainda,  será que seria saudável ter na lembrança os arquivos preservados de fatos vividos em uma época e que, para buscar um desse fatos, teríamos de acionar uma chave com o pressuposto poder de alavancar hierarquicamente todo um percurso de vivências e de lá resgatar imagens fossilizadas, as quais viriam à tona indiscriminadamente nos fazendo  lembrar tudo aquilo que tenha ficado marcado em nossas memórias, seja a coisa boa ou ruim.

 Portanto, lembrar é também ter de conviver com o arquivo das “coisas” que marcaram a memória de nossa existência: seja isso uma resposta a um grande desejo que tenha sido impulsionado para um imprinting ou ainda, uma via para uma “falsa memória”. Segundo Sternberg (2000), a memória é conceituada como “o meio pelo qual você recorre às suas experiências passadas a fim de usar essas informações no presente; refere-se a um processo de mecanismos dinâmicos associados à retenção e recuperação da informação” (p. 204). Cabe aqui rever um relato de Goethe sobre uma recordação da infância (Dichtung und wahrheit):“Se tentarmos recordar-nos do que nos aconteceu nos primeiros anos da infância, muitas vezes confundiremos aquilo que ouvimos de outros, com o que realmente nos pertence e que provém daquilo que nós próprios testemunhamos.” (In FREUD, 1917 -1918).

A memória está associada a um processo de mecanismos dinâmicos, diretamente ligados à função do armazenamento, tanto no que se refere à retenção de memórias quanto à recuperação de informações sobre experiências passadas. Dentro desse modelo de memória tradicional incluem-se os sistemas sensoriais de armazenamento de curto prazo e de longo prazo. De acordo com a psicanálise em sua primeira fase – a da catarse de Breuer – ela consistia em focalizar diretamente o momento em que o sintoma se formava; uma busca persistente por reproduzir os processos mentais envolvidos nessa situação, (um esforço) repetitivo, a fim de dirigir-lhes a descarga ao longo do caminho da atividade consciente. Daí, recordar, portanto, é ab-reagir com auxílio, mecanismo utilizado naquela época.  Tempos depois, surgiu a hipnose que logo foi abandonada, cedendo lugar à tarefa de descobrir a partir das associações livres do paciente, transformando-se no ato de redescobrir, o que ele (o paciente) se permitiria recordar.

A memória é uma das funções cognitivas mais complexas que a natureza produziu, e as evidências científicas sugerem que o aprendizado de novas informações e os seus respectivos processos de armazenamento causam alterações estruturais no sistema nervoso. Na memória está depositada toda a capacidade de reter, recuperar, armazenar e evocar informações disponíveis, seja internamente, no cérebro (memória humana), seja externamente, em dispositivos artificiais (memória artificial). Desse modo, a  memória humana focaliza coisas específicas, requer grande quantidade de energia mental e deteriora-se lamentavelmente, com a idade. Por isso mesmo, cientistas e estudiosos da neurociência recomendam  o exercitar da memória cotidianamente.

 A memória nos conecta a conhecimentos que geraram novas idéias, auxiliando‑nos a refletir sobre a tomada de decisões em nossa vida diária. A memória, segundo diversos estudiosos, é a sede do saber, do conhecimento e das histórias vividas de todo o ser humano. Desse modo, a memória deve ser trabalhada e estimulada em sua amplitude. Pois é através dela que damos significado ao nosso cotidiano e é através dela que acumulamos experiências para utilizar durante toda a vida.

Assim sendo, a memória tem para além da função de promover a adaptação do ser humano ao meio, contribuir de modo efetivo para a socialização e sobrevivência do indivíduo, exercendo uma complexidade diante das variáveis das linguagens: sentimentos, emoções, prazeres, dores e os estados sensoriais com seu sons e odores além dos estados de ânimos.

E o que é lembrar?

A lembrança é um fato real de uma evocação do passado. Mas também é a capacidade que o ser humano tem para reter e guardar os fatos e episódios interessantes ou não de um tempo vivido ou idealizado. A maior de todas as funções da memória é a possibilidade de projeção em relação ao futuro. Portanto, sem memória não se tem esperanças; sem memória não há futuro nem presente, pois não há identidade. Lembrar é ter certeza desse EU que se faz representar por tantos outros eus. A identidade sustentada por esse ''Eu" conduz o indivíduo a reviver lembranças que são projetadas e, que, vão ao longo do tempo, ser representadas pela consciência, tanto pela consciência superficial quanto profunda daquilo somos, pois, quando pensamos, aferimos lembranças: qualificando-as e quantificando-as em função do passado e em relação às projeções para o futuro. De certa forma, somos sempre o que passou e o que ainda pensamos vir a ser.

A compreensão da capacidade e da evidência neural, em relação aos estudos da memória, tem atingido um grande crescimento em virtude dos avanços tecnológicos em técnicas de neuroimagem funcional. Tais avanços constatam durante processos observáveis  os indicadores do desenvolvimento biológico para o desempenho de tarefas cognitivas. Eles são passíveis de observação direta e da quantificação, além de apresentarem a vantagem de uma representação gráfica de forte apelo. Desse modo, graças às tecnologias avançadas nas áreas do Sistema Nervoso Central (SNC), tais estudos e identificação são os correlatos neurais dos processos cognitivos engajados quando da realização de tarefas de conhecimento, por exemplo: codificação, armazenamento e recuperação de informação na memória.

O grande poder da memória assusta e já dizia Santo Agostinho. “Tenho medo da graça que passa sem que eu perceba!” E acredito que também temos medo de esquecer o que de mau vivemos, mas igualmente temos medo de não lembrar a felicidade vivida.

                Desse modo, somos essa misteriosa mistura de passado, presente e futuro. E ainda que lembrar nos faça doer, este é o melhor sinal.

Santo Agostinho. Confissões, Edição bilíngüe, 2ª Ed. Imprensa Nacional Casa da Moeda, 2004, Lisboa.
FREUD, Sigmund. Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana. Imago, RJ, 1987.




domingo, 28 de outubro de 2012

O Mito de Pandora e suas Variáveis Interpretativas

O símbolo dos desejos que causam a desgraça humana

(feminilidade e beleza, curiosidade, vingança e discórdia, inconsequência e desejo ardente)



Para os Gregos, os deuses eram descendentes da terra - Gaia - e do céu - Urano - e tinham grandes semelhanças com os homens. Havia um lugar para a morada dos deuses, o Monte Olimpo, reconhecido como sendo o ponto mais alto de toda a Grécia Antiga (com uma altitude de 2 917 m.), destinado à casa dos deuses mais importantes. Segundo conta a literatura e a história, a entrada para o Olimpo era feita através de um portão coberto de nuvens; isso, talvez, pudesse ser atribuído ao fato de que o cume da montanha, devido a sua altitude, permanecesse constantemente sob nuvens.

Há várias versões sobre o mito de Pandora e este parece ter sido um tema que a muitos seduziu e, ainda hoje, seduz. Porém, simbolicamente, o mito está impregnado de muitas interpretações, tornando-o, assim, difícil para uma única análise em função de sua história estar ligada à hierarquia dos deuses.

Mas vamos à história. Uma tentativa de compreender de forma reduzida as várias versões sobre o mito grego, no qual Prometeu está diretamente envolvido. Aliás, Prometeu, segundo a etimologia, é: (o que vê antes ou prudente, previdente) e representa o criador da humanidade. Pertencia à genealogia de um dos Titãs, filho de Jápeto e Clímene e também irmão de Epimeteu (o que vê depois, inconsequente), Atlas e Menécio. Os dois últimos se uniram a Cronos na batalha dos Titãs contra os deuses olímpicos e, por terem fracassado, foram castigados por Zeus que então tornou-se o maior de todos os deuses.

A caixa de Pandora é uma expressão muito utilizada quando se quer fazer referência a algo que gera curiosidade, mas que é melhor não ser revelado ou estudado, sob pena de se vir a mostrar algo terrível, que possa fugir de controle. Esta expressão vem do mito grego, que conta sobre a caixa que foi enviada com Pandora a Epimeteu. Pandora foi enviada a Epimeteu, irmão de Prometeu, como um presente de Zeus. Prometeu, antes de ser condenado a ficar 30.000 anos acorrentado no Monte Cáucaso, tendo seu fígado comido pelo abutre Éton todos os dias, alertou o irmão quanto ao perigo de se aceitar presentes de Zeus.

Prometeu uniu-se a Zeus e recomendou que seu irmão Epimeteu também o fizesse. Com isso, Prometeu foi aumentando os seus talentos e conhecimentos, o que despertou a ira de Zeus, que resolveu acabar com a humanidade, mas a pedido de Prometeu,  protetor dos homens, não o fez. Um dia, foi oferecido um touro em sacrifício e coube a Prometeu decidir quais partes caberiam aos homens e quais partes caberiam aos deuses. Assim, Prometeu matou o touro e com o couro fez dois sacos. Em um colocou as carnes e no outro os ossos e a gordura. Ao oferecer a Zeus  para que escolhesse um dos dois sacos, este escolheu o que continha banha. Por causa deste ato, Zeus puniu Prometeu retirando o fogo dos humanos.

Assim, coube a Epimeteu distribuir aos seres qualidades para que pudessem sobreviver. Para alguns deu velocidade, a outros força, a outros ainda deu asas. No entanto, Epimeteu, que não sabe medir as conseqüências de seus atos, não deixou nenhuma qualidade para os humanos, que ficaram desprotegidos e sem recursos. Foi então que Prometeu entrou no Olimpo (o monte onde residiam os deuses) e roubou uma centelha de fogo para entregar aos homens. O fogo representava a inteligência para construir moradas, defesas e, a partir disso, forçar a criação de leis para a vida em comum. Surge assim a política para que os homens vivam coletivamente, se defendam de feras e inimigos externos, bem como desenvolvam todas as técnicas.

Diante do acontecido, Zeus jurou vingança e pediu para que o deus coxo Hefestos, fizesse uma mulher de argila e que os quatro ventos lhe soprassem a vida. Determinou,  também, que todas as deusas do olimpo deveriam enfeitar essa mulher, que era Pandora (pan = todos, dora = presente) a primeira e mais bela mulher já criada e que foi dada, como estratégia de vingança a Epimeteu, que, alertado por seu irmão, recusou respeitosamente o presente. Zeus, ficou mais furioso e acorrentou Prometeu a um monte e lhe impôs um castigo doloroso, em que uma ave de rapina devoraria seu fígado durante o dia e, à noite, o fígado cresceria novamente para que no outro dia fosse outra vez devorado, e assim por toda eternidade.

No entanto, para disfarçar sua crueldade, Zeus espalhou um boato de que Prometeu tinha sido convidado ao Olimpo, por Atena, para um caso de amor secreto. Com isso, Epimeteu, temendo o destino de seu irmão, casou-se com Pandora que, ao abrir a caixa enviada como presente (a qual Prometeu já havia alertado para não fazê-lo), espalhou todas as desgraças sobre a humanidade (o trabalho, a velhice, a doença, as pragas, os vícios, a mentira, etc.), restando dentro dela somente a ilusória Esperança.

O que é a caixa de Pandora? É um mito grego que narra a chegada da primeira mulher à Terra e, com ela, a origem de todas as tragédias humanas. Essa história chegou até nós por meio da obra Os Trabalhos e os Dias, do poeta grego Hesíodo, que viveu no século VIII a.C..

Se o mito de Pandora simboliza a origem de todos os males da humanidade, segundo a lenda o homem recebeu os benefícios do fogo, contra a vontade dos deuses, e os malefícios da mulher, contra a sua vontade. A mulher é o preço do fogo. (CHEVALIER,1998). Ou seja, o fogo também simboliza o amor que todo humano deseja, mesmo que sofra em função dele.

Portanto, o mito da caixa de Pandora quer significar a ambivalência do fogo e seu imenso poder sobre o homem, tal como a imprudência que é atribuída aos humanos, assim como a consequência de sua falta de conhecimento e previsão. Desse modo, a curiosidade não deve predominar sobre a própria inteligência: o homem deve ser o agente de sua própria história e não ficar ao sabor da sorte ou das intempéries do destino.

A literatura moderna, assim como a Poesia, também conta uma história

Na literatura moderna, ao longo dos séculos, vários autores retomaram a história de Prometeu e o colocaram como figura que representa a vontade humana por conhecimento (mesmo tendo que passar por cima dos deuses). A captura do fogo representou a busca do conhecimento pela ciência. Dentre alguns desses autores, encontramos o alemão e poeta romântico Goethe que escreveu um pequeno poema de oito estrofes sobre a lenda de Prometeu intitulado de Prometheus (1774) do qual segue-se um trecho:

"Encobre o teu Céu ó Zeus
com nebuloso véu e,
semelhante ao jovem que gosta
de recolher cardos
retira-te para os altos do carvalho ereto
Mas deixa que eu desfrute a Terra,
que é minha, tanto quanto esta cabana
que habito e que não é obra tua
e também minha lareira que,
quando arde, sua labareda me doura.
Tu me invejas!
(...)
Eu honrar a ti? Por quê?
Livraste a carga do abatido?
Enxugaste por acaso a lágrima do triste?
(...)
Por acaso imaginaste, num delírio,
que eu iria odiar a vida e retirar-me para o ermo
por alguns dos meus sonhos se haverem
frustrado?
Pois não: aqui me tens
e homens farei segundo minha própria imagem:
homens que logo serão meus iguais
que irão padecer e chorar, gozar e sofrer
e, mesmo que sejam parias,
não se renderão a ti como eu fiz"

Goethe descreve Prometeu como um homem extraordinário, que se nega a venerar os deuses e, como ato de rebeldia, se prontifica a fazer homens segundo à própria imagem que não precisem venerar os deuses. O poeta metaforiza em sua poesia a rebeldia dos deuses com a sua criação de vida. O tema sugere repensar a sociedade pós-moderna para os dias atuais.



Fonte:
Hesíodo. Os Trabalhos e os Dias São Paulo: Iluminuras, 1990.
CHEVALIER, Jean e Alain GHEERBRANT. Dicionário de Símbolos. José Olympio, Rio de janeiro, 1988.

http://super.abril.com.br/superarquivo/2002/conteudo_120628.shtml