segunda-feira, 7 de outubro de 2013

A ARTE DE ESCREVER À MÃO


 


(uma técnica quase em extinção)

 

Por: Vannda Santana  

 


 


                   Reviver a escrita a mão é processar a palavra no seu contexto teórico: Caligrafia vem do grego “calli” e significa “belo”, grafia “escrita”. Assim, a letra pode até não ser bela, mas seu registro impresso no papel guarda uma “imagem”, um sinal gráfico que significa uma marca, um registro individual, no qual se imprime a identidade individual. Poderíamos até dizer que, para além do grafismo, há um simbolismo. A letra marca esse registro no escrito, deixa “rastros” de legitimidade, imprime um caráter, mostra sua marca de identificação, sinaliza seu traço único e, assim,  denuncia quem o fez.  Portanto, a letra é muito mais que uma marca individual; através dela e do traço que simboliza sua forma pode-se definir o dono da escrita, pode-se deduzir uma estrutura bem próxima de uma identidade pessoal. Dentro desse critério, podemos conceituar a grafologia como ciência; um estudo analítico da personalidade, feito através da escrita. Trata-se de um estudo de conhecimento científico grafológico, o qual tem como referência suas características essenciais, que afirma ser capaz  de dar conta da verificação e da análise da personalidade da escrita do indivíduo. Não é aqui o caso específico.

 

A palavra Escrever origina-se do grego “gráfein” e em latim “scribere”, significando a origem da ação da escrita grafada. Aqui neste artigo, a intenção é relembrar os tempos remotos, tempos da escrita feita à mão, um processo já quase que em extinção. Poucas são as pessoas que ainda se utilizam da escrita à mão. Por isso mesmo, tento voltar no tempo, ir até lá, -  onde a memória havia se rendido lentamente aos velhos hábitos – e saltar do passado ao presente, numa espécie de ponte que vai do recuar do tempo à adequação de novas tecnologias, num exercício vigoroso de reconhecimento do novo mas sem abandonar, totalmente, velhas práticas da escrita feita à mão. A chegada desses novos hábitos mudaram, radicalmente, o rumo e a troca da comunicação; os computadores facilitaram os meios de informação, tais como os e-mail que chegaram para derrubar fronteiras e ainda falam em tempo real, onde quer que a notícia aconteça. Portanto sem fronteiras, não há mais distância entre os cidadãos de qualquer lugar do mundo. Daí, o ato de escrever à mão ter caído em desuso.
 
  Assim sendo e sem lançar mão de conceitos científicos, torna-se visivelmente fácil diferenciar a letra de uma pessoa que esteja centrada, calma, envolvida com o fazer de seu escrito, daquela outra que, sem concentração e sem capricho, deixa seus rabiscos tortuosos falar por ela mesma.
 
 Eis, então, a pergunta: uma simples observação sobre a letra seria capaz de revelar o que se passa no interior do indivíduo?  Posso até dizer que sim. Porém, não fiz nenhum estudo sobre grafologia e não seria o caso aqui em questão. O que se pretende com este texto é nada mais nada menos que oferecer ao leitor uma visão desmitificadora da escrita à mão. Depois do evento do computador, com os recursos da tecnologia da Informática, percebeu-se que a escrita a mão ficou em segundo plano e, às vezes, em total desuso. Desse modo, afirma-se que através  da grafia (guardando algumas observações) chega-se ao caráter psicológico do indivíduo, pelo tipo da letra-escrita a mão. Todo professor deve conhecer bem o tipo de letra de seus alunos; podendo garantir a diferença visual dos que são mais cuidadosos, daqueles que não o são.
 
Se o cérebro determina o que a mão deve escrever, acredito que a mão também se torne cúmplice por emprestar ao papel o grafismo impresso na folha branca. Assim, como um fio de energia criativa, a escrita escapa do pensamento pela mão e logo escorre pela ponta da caneta, em forma de tinta ou de grafite, isto é,  uma energia que se desloca das idéias, passando pela mão até chegar ao papel.
 
 De certa forma, a escrita cumpre seu ritual, plasma-se num desenho gráfico em forma de letras: letra torta, redonda, gorda,  comprida, esquisita, letra feia, a letra dos  disléxicos como classificam alguns teóricos; letra bordada, rabiscada, embolada, indecifrável, grande, pequena, subindo morro ou despencando ladeira abaixo. Não importa a ordem em que essa estrutura esteja manifesta no corpo da letra, nem a forma em que os rabiscos grafados apareçam arquitetados por gestos ou carregados de intenção. Para o nosso caso aqui, leitor, nada importa mais que a sua leitura.
 
Por outro lado, queremos chamar à atenção para os atos de criação: uma letra pode estar a serviço de uma ideia e para que esta possa vir a se fixar e se plasmar no papel, há que se ter um veículo que a conduza ao seu destino. Então, constatamos ser a mão o elemento que favorece o caminho da escrita. Daí, que toda ideia intenta contar uma história e a escrita é o único veículo de cultura que, sabiamente, irá conduzir a linguagem a fim de ser ideiaescrita. Parece complicado. Descomplicando: haja vista as histórias de cada povo e de cada tempo de sua época. Entretanto, cada tempo e povo tem seus registros alicerçados, assim, tal como na película de um filme que conserva o enredo e a trama da cultura de um passado. Desse modo,  a história também se faz reveladora de um registro. Pode  dizer-se que os fósseis humanos foram vistos e interpretados pelos paleontólogos numa perspectiva condicionada pela sua época segundo André Leroi-Gourhan.[1] A história da existência humana analisada sobre esses aspectos remontam fatos para muito além da letra.
 
  A libertação da mão tem sua origem na história da fisiologia humana, das ações e do pensamento. Sabemos que a letra é individualizada, personificada e, por isso mesmo, ela é uma identidade física, uma manifestação de um certo fisiologismo psicológico e, talvez, fosse notório lembrar que os símbolos gráficos remontam, criteriosamente, às primeiras escritas nas pedras e nas paredes das cavernas. É de lá que resgatamos os registros que foram deixados  da espécie humana: o modo de ser e de viver de cada povo. Por isso, pode-se afirmar que pela estrutura da letra, do rabisco e das formas, talvez pudéssemos chegar a uma argumentação que nos levasse ao pictórico no terreno das pesquisas mais longínquas, através de uma análise de que a ideia de todo autor é, antes e também,  a inscrição de um tempo e da própria escrita. Essa  hipótese visa sustentar que toda ideia empresta à mão uma espécie de senha no momento da transcrição da escrita. Seria, talvez, um elo mágico? Ou seria esse algo (nascido das idéias) que, ao contaminar a escrita, por meio de uma semiologia, denotaria uma informação celular como  hierarquia de um núcleo familiar?
 
 É sabido que se perdeu o status da escrita à mão diante da evolução da tecnologia na era digital, da escrita eletrônica. Então, adotamos um status para a escrita - o de ser uma vilã na revolução do mundo informatizado, - onde as normas apontam para novos paradigmas no ato de “escrever”. O rigor tecnológico cristaliza sua exigência perante a velha estrutura, enquanto que as novas formas de representações vão se alterando  no eixo de identificação que se dá entre  o escriba e a existência do texto. Estamos falando de forma física como forma padrão, deixando claro que já não é mais permitido ao texto exibir sua grafia, sua letra como arte original de uma escritura feita à mão. Há casos,  regras e, também,  exceções.   
 
Portanto, o ato de escrever vai muito além de uma simples atividade  como artefato manual. Há em torno da escrita, uma certa magia, uma forma de como a mão vai imprimindo o desejo ideal a ser  desenhado pela letra na escrita. E o papel em branco? Ah! o papel..., este nada fala mas, aceita. O papel é o próprio silêncio fundante[2] sabe ser cúmplice daquilo que o pensamento dita para a mão. O papel tem sua discrição, nem questiona a eficácia intelectual de quem escreve. O papel é assim, só se importa com o registro que fica impresso em sua pele.
 
 
Amigo leitor, a arte de escrever é um privilégio e a mão é apenas uma aliada do processo de uma idéia.
 
 
 



[1] O Gesto e a Palavra – Técnica de Linguagem. André Lerói-Gourhan. Edições 70, Lisboa 1985.
[2] As Formas do Silêncio – No Movimento dos sentidos. Eni Puccinelli Orlandi. 6ª edição da Editora Unicamp, SP, 2007.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Reflexão sobre o cuidado!

Fenomenologia: uma breve reflexão sobre o Cuidado
 
 
 
 


“A ciência  não tem e não terá jamais o mesmo sentido de ser que o mundo percebido, pela simples razão de que ela é uma determinação ou uma explicação dele”.

(Merleau-Ponty, 2006)

 

Iniciar uma escrita ousando seguir os rastros da percepção de Merleau-Ponty é quase um ato desmedido. Não por vinculá-la a uma aventura sobre a ciência da fenomenologia da percepção, mas por ser um tema que se atrela à gêneses da filosofia e da psicologia, pressupostos necessários para que se possa reconhecer e compreender a seriedade filosófica que estará presente como essência da fenomenologia.

 

 Diante de tal ciência, o autor acima citado, assim, como Husserl,  nos conduz à atentar para uma reflexão sobre questões que, até hoje, estão longe de serem resolvidas.  Husserl já havia privilegiado a fenomenologia como caráter de “psicologia descritiva” e que esta poderia retornar “às coisas mesmas”, resultando em desaprovação da ciência. Enquanto que, para Merleau-Ponty, “O mundo fenomenológico não é a explicitação de um ser prévio, mas a fundação do ser; a filosofia não é o reflexo de uma verdade prévia mas, assim como a arte, é a realização de uma verdade.”  

 

A fenomenologia de M. Ponty, ao afirmar sua crença na filosofia como seu único logos que preexiste, reafirma-se ser, ao mesmo tempo, o modo de como se pode perceber as coisas existentes no mundo. O autor ainda nos diz que “A verdadeira filosofia é reaprender a ver, e nesse sentido uma história narrada pode significar o mundo com tanta “profundidade” quanto um tratado de filosofia.” Desse modo, podemos lançar mão de seu tratado para alcançarmos a reflexão sobre um olhar para o mundo e tudo que nele habita e, no caso específico deste artigo, queremos atrair à atenção do leitor, para uma reflexão sobre a palavra cuidado: o cuidar em primeiro lugar de quem se ama; depois, o cuidar com respeito aos nossos semelhantes e com responsabilidade das coisas existentes, como forma de garantir nossa própria existência.

 

 Então, se questiona: por que fenomenologia como uma reflexão sobre o cuidado? Eis a resposta: por acreditar na essência da fenomenologia como ciência e como um conceito que define - as essências: a essência da percepção e a essência da consciência. Este é o ponto central deste escrito –  perceber, sentir,  para melhor cuidar.

 

Desse modo, teremos de aguçar os nossos sentidos. Para que se possa sentir, se faz necessário perceber; perceber - exige uma condição para a qual se possam conduzir os vários sentimentos - os quais fazem parte de uma larga compreensão; enquanto que compreender - aciona o ato do saber para um estado de alerta - esta ação corresponde à ação que pode mudar qualquer realidade que se torne um fenômeno em nossa percepção.

 

Como funciona o fenômeno da percepção e o que em cada um de nós pode ser alterado por estes órgãos? Basta querer predispor-se a uma pequena observação dos fatos cotidianos para que se possa abstrair do objeto percebido aquilo que, na maioria das vezes, estaria visível aos nossos olhos. O canal da percepção deverá ser acionado, portanto, para analisar desde os pequenos gestos às mais belas atitudes.  Perceber uma obra de arte é poder ver com todos os sentidos. Perceber é um saber que dialoga com o mundo e se expressa com o que foi visto em seus vários sentidos. Portanto, perceber é acionar a nossa capacidade de ver o que vai além de um simples olhar.

 

A fenomenologia teve como um ideal de ciência o envolvimento de duas perspectivas fundamentais: primeiro, como uma tentativa de resgatar o ideal clássico de ciência que se havia perdido e que Husserl percebeu no final do século XIX; segundo, para restabelecer a filosofia como modelo de ciência rigorosa, a partir da investigação da consciência como núcleo da unidade do discurso científico e da unidade da existência. Historicamente, até o Renascimento, final do século XVI, conservava-se a tradição grega em relação à concepção de conhecimento, em que conhecer tinha a ver com uma comunidade entre o corpo e o mundo e essa comunidade só seria possível através dos sentidos[1]. O desvio operado por Merleau-Ponty na doutrina de Husserl viria mais tarde a confluir para os domínios de uma nova ontologia, como uma proposta tacitamente presente no ideário do pensador. Perante uma filosofia da consciência impõe-se o advento de uma filosofia do corpo, visto por uma dimensão comum, aparentemente, esquecida pela tradição filosófica ocidental[2].

 

Enfim, vamos à palavra cuidado, para o que, no momento, nos interessa como a fenomenologia. Numa visão menos especulativa, cuidar é uma palavra que se apresenta como experiência cientifica e filosófica, formando assim, um novo conceito diante do cotidiano e ao lado daquilo que vivenciamos como prática.  Assim, poderíamos dizer que existem várias formas de pensar e analisar os modos de cuidar, além de nos proporcionar uma outra visão ampliada na forma de amar com cuidado. Cuidar, então, no sentido científico-e-prático, acessa o modo como os cuidadores profissionais fazem do ato de cuidar uma profissão. Diferentemente, estão os grupos familiares que agregam, em sua prática, a relação de toda uma vivência de experiências afetivas com ampla consciência. O cuidar, neste caso, tem a ver com a pessoa a que se ama e, por isso mesmo, tem uma outra dimensão: abrigar com cuidado, cuidar com um zelo específico, cuidar para prolongar afetos.

 

 Enfim, como se apresenta a nossa percepção? Talvez, tenhamos que refazer o modo de ver, ouvir e sentir, reavaliando o modo pela qual fomos educados. De acordo com essa reavaliação de nossa cultura, é imprescindível rever nossos conceitos e as novas maneiras de interferir na prática afetiva.

 

  A palavra cuidado guarda semanticamente um novo conceito que nos obriga a repensar o cuidado como objeto não mais de forma independente de nós mesmos, mas diretamente comprometida e envolvida no seu duplo apêndice de sentido semântico que, além de agregar um sêmen que há no entorno do cuidar, abriga em sua estrutura um outro cuidar que vai muito além de um simples ato que nos impele à ação. Desse modo, por mais que não tenhamos cuidado, somos cuidados. Nesse caso, o significado possui uma dimensão ontológica para além da filosófica, atrela-se à fisiologia como demanda M. Ponty em sua Fenomenologia da Percepção, reafirmando existir uma constituição fisiológica entranhada na percepção do ser humano.

 

Por isso, equivale dizer que cuidar é um modo-de-ser extremamente singular, com o qual todos nós estamos de alguma maneira envolvidos, quer seja aquele que cuida ou  quem é cuidado. Desse modo e,  sem o juízo da consciência que a palavra cuidado exprime, deixaríamos de ser um ser humano no sentido lato. Lembrem-se: “... As palavras estão grávidas de significados existenciais. Nelas os seres humanos acumulam infindáveis experiências, positivas e negativas.”

 

Filologia da Palavra Cuidado:

 

 

Cuidado deriva do latim “cura”, forma antiga do latim “coera” significado atribuído nas relações de amor, do desvelo, da preocupação com a pessoa amada.

 

à Outra variante de cuidado: “cogitare”- cogitatur”, corruptela de coydar, coidar, cuidar. O sentido de cogitare-cogitatur é o mesmo de cura. Portanto, cuidar é tratar muito bem a pessoa a que se ama.

 

à Cuidado, então, significa: uma constante inquietação com aqueles a quem amamos e uma certa preocupação permeada de responsabilidade, de solicitudes, de zelo e de atenção. Sobretudo, o cuidar é um gesto que nasce do amor e prevalece independente de quaisquer condições e status. O ato de cuidar com amor, inicia-se na formação da família, gerando vidas e, mais tarde, esses filhos, serão os futuros cuidadores de seus pais. Ao finalizar a vida, todos passarão por esse estágio.

 

 Atenção: você cuida bem da pessoa que você ama?  Pense que o amanhã sem essa essência primordial do amor com certeza não haverá futuro sem remorsos.

 


Fontes:

 

Husserl E. Lições para uma fenomenologia da consciência interna do tempo. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda; 1994.

 

Husserl E. Crisis de las ciencias europeas y la fenomenología transcendental. México: Folios; 1984.

 
Merleau-Ponty M. Fenomenologia da percepção. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes; 2006.



[1] Husserl E. Crisis de las ciencias europeas y la fenomenología transcendental. México: Folios; 1984.
 
[2] Merleau-Ponty M. Fenomenologia da percepção. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes; 2006.
 
 

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

GÊNESIS DA PALAVRA “PALAVRA”


Por: Vannda Santana

 

        
O vocábulo “palavra” apropria-se do sistema lingüístico, realiza-se através da contextualização de uma idéia, conta um conto, faz história, imprime uma cena. E quantos mistérios há acerca de uma só palavra e o que ela pode ocultar em seu contexto histórico-literário? Sabe-se que a palavra transgride, ao mesmo tempo que se ocupa da arte para se camuflar, quer seja numa  lenda referindo-se à moral da história, ou numa  cena onde a trama epistemológica será apenas valorizar a etimologia.
 

 Certos de que as Palavras são instrumentos de linguagem e que, de certo modo, estão sempre prontas a transmitir informações, busca-se então, através delas, o conhecimento. Mas é sabido também, que os critérios lingüísticos repassados à sociedade, possuem  uma diversidade de informação capaz de confundir qualquer  receptor menos avisado. Daí a importância de se conhecer o código da língua mater, o que ele deseja exteriorizar e qual o alvo de compreensão que se queira alcançar.

 
Portanto,  para que se compreenda a história que a palavra guarda em seu sentido Lato-Senso e em seu étimo, há que se rastrear desde à etimologia, ao simbolismo, em busca da gênesis e da formulação dos sentidos que se escondem por trás de cada palavra escrita.  E a PALAVRA,  termo que deu origem a este escrito, de onde vem?

 
  Longa é sua jornada. Há um logos como princípio supremo, portador de ritmo e de harmonia contido no léxico de cada letra de cada palavra que quer se comunicar. Por isso, os hebreus procuraram retratar a palavra de forma visual mostrando sua estrutura gráfica composta de letras  em (chamas). Portanto, a palavra BERESHÍT, que significa (No começo),  causa uma expressão de admiração por sua forma original em hebraico: – “Quantas chamas numa única palavra!  (...) As chamas são silenciosas. Elas CREPITAM, estalam, dançam, queimam, aquecem, iluminam. É o GRITO do Gênesis, é o FOGO da Sarça repetidos interminavelmente em cada letra, em cada palavra, em cada linha, em cada página, de começo a fim.”  Desse modo, afirma-se que os hebreus criaram um hieróglifo para grafar a  palavra – PALAVRA, conferindo a esta um importante sentido simbólico. Eles adotaram um valor de poder à Palavra de tal forma que, quando esta viesse a ser grafada, uma força recairia sobre a expressão, tal como um fogo alquímico: “fogo transformador”. Daí, a expressão deixar de ser lenda para ser Ação.

 
                              Assim são os atos e os fatos narrados no cotidiano da civilização humana. E para que servem as palavras se não para contar histórias e estórias e dar sentido à vida? As palavras são como cores e odores; são como o pão e vinho para alimentar o homem ao longo de sua história.  A palavra exorciza nossos fantasmas, ao mesmo tempo que socializa com seus elementos fantásticos. Incorpora personagens míticas e históricas, povoa nosso mundo onírico com imagens célebres, nos permitindo sonhar com mundos nunca antes vistos, sequer imaginados. “A PALAVRA É FOGO.





[1] Rômulo Cândido de Souza. Palavra Parábola. Uma aventura no mundo da linguagem. Ed. Santuário SP, 1990, p. 125
[2] Id., ibid., p.124

domingo, 2 de junho de 2013

O DIÁLOGO ENTRE AS ARTES E A LITERATURA

Uma fusão de limites entre palavra, texto e imagem

 

“Do passado caligráfico que me vejo obrigado a lhes supor, as palavras conservam sua derivação do desenho e seu estado de coisa desenhada: de modo que devo lê-las superpostas a si próprias; são palavras desenhando palavras (...).”
(Michel Foucault)

O diálogo entre os tempos


O diálogo entre as artes, analisado num período que vai do século XV ao século XX,  desenvolveu-se  num contexto em que a sociedade ocidental alimentava a ideia de separação entre os signos linguísticos e as artes plásticas. No decorrer do século XX, as relações  dialógicas entre as artes e a literatura estreitava-se de forma manifesta, adequando-se como parte da história com o passar do tempo. E, como todo acontecimento histórico que dá origem a uma movimentação artística, este contribuiu singularmente para que o evento pudesse acontecer na diluição dos limites entre as diferentes linguagens e, conseqüentemente, pela aproximação das diversas artes.
 Desse modo, ao estreitarem-se as fronteiras entre o texto e a imagem, abriu-se, então, um espaço para a aproximação das artes, partindo-se do princípio de que vários poetas, num dado momento, apropriando-se das artes visuais, inseriu-as nos seus escritos poéticos, estampando‑as na página. Tal procedimento denomina-se  atmaísmo.
Mas o que vem a ser Atmaísmo? Atmaísmo vem da união de duas palavras: Atman e Ismos. Para os hindus, “Atman” tem o sentido de alma individual originada do deus Brahan e que recebeu deste todo o poder de criação. “Ismos” é um sufixo de origem grega, que significa “capaz de captar e irradiar beleza”. Portanto, um trabalho atmaísta é aquele em que o artista inseriu um desenho ou uma pintura em sua poesia, ou vice-versa, unindo arte visual e  literatura como complementação do belo. Não se trata de colagem, o trabalho atmaísta é uma arte onde convivem duas criações artísticas ao mesmo tempo, ou seja, dois trabalhos de natureza distinta compartilhando do mesmo espaço.

 A partir daí, os escritores, mais precisamente os poetas, passaram a incorporar elementos gráficos e imagens em seus trabalhos. Por outro lado, os artistas visuais retomaram, então, a origem visual da escrita, utilizando-se do mesmo processo das artes para acrescentar elementos textuais em suas obras, por exemplo: os grafismos, letras e arabescos de diversos alfabetos tiveram seu papel na colagem de fragmentos de textos impressos, entre outros recursos que pudessem servir de acessório ao trabalho artístico. Naquele momento, tornavam‑se objetos de arte tais aplicativos, tanto para aplicação nas pinturas,  quanto nas poesias.
 A partir desse marco histórico, a palavra e a escrita passaram a compartilhar do mesmo espaço físico, agregando-se ora à imagem, ora à escrita, mas sempre em busca de um sentido que desse uma contextualização aos temas, com o fim de conceituá-las como objeto de arte. No caso específico, a imagem passou a se servir da escrita, mas o contrário também aconteceu de forma considerável, pois os elementos artísticos com seus temas atravessaram o tempo e traduziram-se do grafismo ao visual, privilegiando sentido à imagem no mesmo instante em que, juntos, puderam participar do sentido dialogal.

A reaproximação entre imagem e escrita que se deu a partir do século XIX pode contribuir no processo de resgate dos vínculos entre a palavra e a imagem. Essa contribuição representou grande importância nas experiências de determinadas épocas e de determinados artistas, tais como as do poeta francês Mallarmé, que passa a considerar a visualidade da letra e do branco do papel, como um elemento a mais em seus poemas. Assim como o trabalho pioneiro de Picasso e Braque, que com os papiers collés, inauguraram uma forte tendência da arte contemporânea, incorporando na obra artística materiais não artísticos. Portanto, letras e fragmentos retirados de jornais, partituras musicais, papéis de parede entre outros elementos gráficos, passaram a ser utilizados em obras artísticas de modo que as partes se ajustassem ao todo, tal como num quebra cabeça, criando e se ajustando de forma harmônica, para dar sentido a um outro visual artístico.
Imagens e linguagens com suas possíveis variáveis
Vimos que esses modos que se interpenetram nas linguagens, utilizando-se de imagem e de palavras parecem não cumprir uma ordem clássica. São manifestações que chegam a exprimir irrupções incontroladas, como diz Beneval de Oliveira em sua Arte e Dialética. No contexto da linguagem a palavra quer falar e deve falar; no contexto da pintura,  o artista impõe à arte o dever que ela tem de se revelar, atendendo à demanda do resultado artístico desejado.
Sabe-se que há casos em que a imagem se comporta como anunciadora de seu próprio discurso, onde o diálogo se faz presente de forma iconográfica. Exemplos podem ser exibidos  no caso das legendas, onde as quais emprestam sentido ao tema‑título  como objeto de arte, onde, às vezes, a letra é pura ilustração que se ocupa de um lugar no texto para chamar maior atenção que o próprio texto.
 E o texto é mais que arte expressa em seu contexto de arbitrariedade e subjetividade, pois o sentido do discurso está subliminarmente em ser uma legenda, com arte e linguagem.  Neste caso, pode haver uma metáfora no discurso, tomando para si o lugar de ser do ser da arte, declarado no processo visual de modo intencional. E pode acontecer com a pintura (imagem) o mesmo processo da escrita - palavras: a imagem retoma para si o lugar de um status de metonímia – onde a (obra de arte) fala por si só – uma declaração da qual não necessita exemplificação à significação.
Portanto, a palavra já nasce (pronta) para falar imbuída  de seu aparato lingüístico, de seu sentido semântico com seu discurso legível e não se difere da pintura, pois em ambos os casos, os signos são distintos e podem até comungar da mesma cena no mesmo espaço. O diálogo da pintura se destaca por apresentar um corte na experiência de quem a vê (a imagem), ela pode até ter palavras, mas a imagem não é palavra. A imagem,  em certos momentos, nos empresta a ideia de que gostaria de nascer palavra quando estava sendo germinada na consciência do pintor. Desse modo, o ato de imaginar pode subverter a razão e, qualquer outro adorno pode poluir a imagem. Entretanto, como negar qualquer subordinação entre imagem, palavra e texto?
A partir dos anos sessenta, os meios de comunicação aumentaram sua penetração e difusão, passando a intervir em todas as instâncias da vida cotidiana, fazendo com que o convívio com as imagens caminhasse rumo à saturação. Com este avanço, houve uma crescente banalização da imagem e até do próprio texto. E o mesmo aconteceu com as relações entre os indivíduos e os objetos, ou seja,  uma “feira” à cultura de consumo.
De acordo com esse padrão de pensamento, artistas e poetas passaram a buscar maneiras novas de se relacionarem com a arte e com a escrita. Em última instância, essa foi uma experiência que aos poucos pode se mostrar adaptada às novas circunstâncias e, então, acrescentar às artes os novos materiais de suportes tradicionais. Nesse momento, entrava em cena e não menos sucessivamente, um novo panorama, questionado por alguns críticos, mas aceito na mais sublime condição humana: o modo de ver e de sentir a arte tal como sugere  M. Ponty em seu O Visível e o Invisível: “ (...) O visível à nossa volta parece repousar em si mesmo.” Os artistas, então, motivados por essa apropriação dos novos meios, passaram a adotar tais recursos como suporte para a sua criatividade. Saber ver, saber sentir a arte em todas as suas formas de linguagem é um modo de articular o diálogo.
As palavras: arte sem limite
De acordo com o exposto, para tornar possível a leitura de um texto onde a grafia é pura representação estética e, no caso contrário, se a uma obra de arte for acrescentada uma legenda, como deve ser tratada essa arte? É o texto que se atrela à imagem ou é a imagem que se quer palavra? No diálogo entre as artes, palavra e imagem discursam livremente, mas é importante compreender a fusão desses limites que separam a escrita iconográfica da escrita puramente textual. Desse modo, vale citar José Enes em seu livro Noeticidade e Ontologia:
“(...) O pensamento pensa articulando o que vê, ouve, entende, induz e conclui, atuando pela fala as virtualidades semânticas do sistema semiótico das línguas. O discurso é a articulação daquilo que o pensamento entende e diz. Com propriedade se pode dizer que as palavras tem significados e que o discurso, combinando-os, lhes dá um sentido. A combinação morfológica dos sememas forma a estrutura semântica das palavras, a integração sintática destas na significação da frase e das frases numa totalidade de sentido dá o discurso.”
Vimos que o diálogo das linguagens abre um espaço a mais para ceder lugar às artes, uma vez que o pensamento do artista articula o que vê. Como espectador, Freud confessa seus limites e suas afinidades estéticas, mas não deixa de oferecer à arte um modo de pensar.
“Não sou um conhecedor de arte, mas simplesmente um leigo (…). Sou incapaz de apreciar corretamente muitos dos métodos utilizados e dos efeitos obtidos em arte (…). Não obstante, as obras de arte exercem sobre mim um poderoso efeito, especialmente a literatura e a escultura e, com menos freqüência, a pintura. Isto já me levou a passar longo tempo contemplando-as, tentando apreendê-las à minha maneira, isto é, explicar a mim mesmo a que se deve seu efeito. Onde não consigo fazer isso, como, por exemplo, com a música, sou quase incapaz de obter qualquer prazer.”

As palavras  ditam também o discurso freudiano e por meio delas  Freud (1914) se dirige aos seus leitores, tentando assegurar indulgência para o resultado de suas incursões no campo das artes. Confessa o psicanalista o seu lugar de espectador, os seus limites e suas afinidades estéticas, sugerindo que há uma diferença de estatuto entre as artes que constituem os pólos de referência da Psicanálise, da literatura e das artes. E afirma que: “(...)  os escritores criativos são aliados muito valiosos, cujo testemunho deve ser levado em alta conta, pois costumam conhecer toda uma vasta gama de coisas entre o céu e a terra com as quais a nossa filosofia ainda não nos deixou sonhar.”

Bibliografia:
BARTHES, Roland. O Prazer do Texto. Lisboa, Portugal: Edições
70, 1973.
ENES, José. Noeticidade e Ontologia. Imprensa Nacional Casa da Moeda, Lisboa, 1990.
FREUD, S. Obras Completas de Freud. Vol. IX (1906 – 1908), “Gradiva” de Jensen e outros trabalhos.
Merleau-Ponty, Maurice. O Visível e o Invisível. Ed. Perspectiva S.A. São Paulo, 2005.
OLIVEIRA, Beneval de. Arte e Dialética. Pallas Editora e Distribuidora Ltda, Rio de Janeiro, 1983.

sexta-feira, 8 de março de 2013

O destino da educação na contramão da história: do obscurantismo medievo ao terrorismo da negação do saber feminino

Hoje, bem distante da Idade Média, ainda se vive uma caça as bruxas às avessas. Refiro-me à educação como um direito humano universal perante a Lei que promove e garante a democracia fundamentada na legalidade constitucional. A saber, esta legalidade não se limita ao gênero, pois é um direito de todos os cidadãos. Porém, do obscurantismo medieval até o momento presente, um hiato se estabelece contra o destino da educação que mais parece um clichê na contramão da história. Assim temos o caso de Malala Yousafzai que “não desejou o impossível”, a menina quis apenas praticar e desenvolver suas habilidades intelectivas para o que apenas desejava ser e ter: conhecimentos para enfrentar os inimigos segregadores dos saberes culturais. A jovem, com sua sapiência de uma quase criança, procurou nutrir-se de uma responsabilidade maior que a de seu próprio tempo e não tão menor que a de sua cultura. Malala toma para si a causa política da educação das meninas e foi em busca de mudanças que pudessem tornar possível tal realidade: ter o direito de ir para escola onde então vivia e experienciou armazenar conhecimentos para lutar contra o futuro imaginário da educação de seus iguais. A paquistanesa alcançava a visão de mundo e conseguia ver para além de seu tempo. Agindo desse modo, Malala prometia enfrentar os terroristas talibãs, uma facção fanática que não reconhece o direito das mulheres à prática do conhecimento escolar. Malala queria dar um basta ao absurdo do direito negado ao estudo das meninas. Quis ela fazer ver que essa forma já não cabe num mundo desenvolvido, no mundo de hoje, do século 21, onde o universo se comunica com todas as áreas do saber humano. O recado da jovem menina ressoou de forma ameaçadora ao mundo terrorista, despertando o ódio. Assim, o que se pensa (mesmo distante da Idade Média) pode permanecer na mente de um povo, no obscurantismo de classes e pessoas, constituindo-se no mais terrível dos crimes contra a mulher: impedi-la de ter a sua formação escolar. A jovem Malala foi vítima de um atentado contra o saber e o fizeram de forma cruel, covarde, que quase lhe tirou a vida. E isto aconteceu porque a menina é uma ativista que ousou escrever um blog para a BBC sob o nome de Gul Makai, explicando a situação em que viviam ela e sua família, diante do regime do Tehrik-i-Taliban Pakistan (TTP) e as tentativas de recuperar o controle do vale após a ocupação militar que obrigou-os a ir para as áreas rurais. Diante de tais acontecimentos, Malala põe em prática uma de suas “armas”: a palavra a serviço da ação. Em seus escritos, nota-se a presença de uma consciência política de cidadã responsável ao declarar os feitos de poder do Taliban pelo fechamento de escolas particulares e a proibição da educação de meninas entre 2003 e 2009. Nesse blog, Malala revelou as circunstâncias em que viviam as meninas de sua pequena Mingora, Swat, Jaiber Pastunjuá, Paquistão, uma revelação política, mas com consciência e, sobretudo, como cidadã engajada na causa da educação. Talvez coubesse aqui algumas perguntas: por onde anda a cabeça dos grandes governantes em relação ao destino da educação de um povo “marginalizado pela sorte” além de vulnerável às mãos de criminosos terroristas? O New York Times resume quem é a paquistanesa que aos 14 anos se tornou ícone do direito à educação feminina e do sofrimento cotidiano vivido por mulheres no Vale do Swat, na fronteira montanhosa e tribal entre Paquistão e Afeganistão. Mas a pergunta segue a pauta quebrando o silêncio de muitos: onde está a força do mundo globalizado que tem “olhos” mas não pode ver porque suas armas não são as mesmas que o inimigo possui? Por outro lado, se são muito menos poderosas, o que fazer se só possuímos palavras tais como as de Malala? E o que fazer quando o mundo nos oferece uma estrada virtual feita de palavras e com palavras que falam e conduzem o pensamento aonde quer que queiramos ir? Então eis a pergunta: como proteger as Malalas de nossas casas, de nossas vidas, de nossos irmãos, se só possuímos palavras? Se não ousarmos o direito que a palavra nos confere, não sairemos do lugar comum. Não sei se disse tudo que gostaria de dizer, mas o que disse eu sei bem a quem atingir: eu e todas as Malalas do mundo vamos continuar a praticar o exercício do direito da palavra, do direito da expressão, do direito de usar a fala como ferramenta de prazer para denunciar os abusos e absurdos contra qualquer forma de preconceito. Aqui fica o meu registro a favor do saber e da educação de todo ser humano, principalmente, o das mulheres de todo o mundo. Malala exerceu o direto da palavra e assim saiu do anonimato com o seu "Diário de uma estudante paquistanesa”: venceu o medo, enfrentou a morte, virou ícone. Mas sua vida vale muito mais e é através das palavras que queremos conferir nossa indignação aos atos de violência contra a mulher. Esta é a minha palavra de hoje: não à violência que tenta impedir a mulher de ser e ter as qualidades de um saber mais que específico.

domingo, 13 de janeiro de 2013

A BIOLOGIA DO AMOR E SUA QUÍMICA

“... se fôssemos verdadeiros cientistas, se aceitássemos viver um pouco na utopia da felicidade, faríamos punções lombares àqueles que assistem a fogueiras nos acampamentos.  Constataríamos que este simples facto aumenta a taxa de serotonina”.
Boris Cyrulnik


Uma pesquisa recente nos mostra a eficácia do afeto e o seu  e do coração benefício para a nossa saúde. Relata como a química da biologia funciona nas relações de afeto entre os parceiros amorosos, na convivência de pais e filhos. Mostra ainda como a afeição física pode interferir em todo o organismo, além do cérebro e do coração outros sistemas são diretamente afetados. O corpo também desempenha funções significativas em relação aos sentimentos. Essas funções combinam reações quando estão no comando de uma ação agindo ou interagindo para o nosso bem estar ou, ao contrário.
Durante séculos e no decorrer da vida, os artistas declararam em suas existências – o amor e a paixão – através de suas artes: os poetas cantaram na poesia  seus amores de todas as formas com as variáveis de cada época e gênero; os pintores, com tintas e pincéis, criaram ninfas e deusas do amor num relevo inimaginável com sombra,  luz e simbolismo vestiram a pintura de seus tempos e, aos compositores, também foi-lhes dado o dom de ser poeta: letra e música como declaração de amor e, em cada nota musical, um recado emocional capaz de seduzir, comunicar, encantar e assim falar de amor. Há outros movimentos que para além das artes são capazes de se comprometerem com a química produzida pelo amor.
Sabemos que a razão é um mecanismo ou uma qualidade do pensamento humano capaz de impor limites às próprias emoções, pois sem esse aprendizado diante das emoções violentas, haveria um desregramento responsável pela desordem e até pelo conflito social.
Nos últimos anos, cientistas começaram a entender essa química biológica em nossas relações afetivas, buscando entender como nossos corpos respondem ao amor e ao carinho. Ao investigar o hormônio  chamado ocitocina, encontrado na área do cérebro chamada hipotálamo, os estudiosos descobriram que a partir das interações afetivas, esse hormônio  é liberado em nossa corrente sanguínea.
É esse milagroso agente bioquímico, a citocina, que nos faz sentir bem quando estamos perto de uma pessoa amada, assim como de nossa família e de outros entes queridos, incluindo aí os animaizinhos de estimação. O processo que os cientistas chamam de sistema de recompensa é liberado pela dopamina, uma substância  presente no cérebro que desempenha um papel fundamental na maneira como percebemos o prazer: aquela sensação de bem-estar como se estivéssemos dopados, como o próprio nome invoca.
Assim, a ocitocina cumpre sua função biológica para além de nos fazer sentir bem, pois ela será capaz de reduzir os níveis de hormônios que provocam o estresse no organismo; diminuir a pressão arterial, além de melhorar o humor e aumentar a tolerância orgânica diante do sentimento de dor. Acredita-se que a ocitocina pode acelerar o processo de cura dos ferimentos, bem como, regenerar as queimaduras e até mesmo atenuar o sofrimento de doenças crônicas.
No Filme – O Amor é Contagioso “Patch” Adams descobre um belo dom de poder ajudar as pessoas usando o bom humor. Dois anos mais tarde, Patch entra em uma universidade de medicina para se formar como médico e, assim, poder ajudar de forma mais abrangente, colocando alegria no coração de seus pacientes. Patch  vai lutar contra um grande desafio ao tentar provar que o amor é contagioso.
Essa prática vivenciada por Patch, já vem sendo usada aqui no Brasil por uma ONG reconhecida em todo o país pelo desempenho, profissionalismo e sua atuação inovadora, agregando um elenco de Doutores da Alegria. A originalidade desta ONG pode ser observada através das visitas periódicas dos palhaços besteirologistas às crianças hospitalizadas, administrando risos como remédio. Esse elenco de profissionais da alegria, além das atividades que são praticadas, eles procuram envolver a família e toda a equipe de saúde.
Ao finalizar este artigo, quero lembrá-los de que a alegria é o agente bioquímico impulsionador de mudanças do humor, assim como o amor que produz todo ato de prazer. Desse modo, o amor e a alegria irão gerar antídotos capazes de não somente melhorar o estado físico e emocional, como também exercer a eficácia na recuperação de sistemas que estariam prestes a decretar sua falência.
Segue abaixo uma lista com 40 itens de doenças que são causadas por ressentimentos:
Doenças Causadas por Ressentimentos
1-Amidalite: Emoções reprimidas, criatividade sufocada
2-Anorexia: Ódio ao extremo de si mesmo
3-Apendicite: Medo da vida. Bloqueio do que é bom
4-Arteriosclerose: Resistência. Recusa ao ver o bem
5-Artrite: Crítica conservada por longo tempo.
6-Asma: Sentimento contido, choro reprimido
7-Bronquite: Ambiente familiar inflamado. Gritos, discussões
8-Câncer: Mágoa profunda, tristeza mantida por muito tempo
9-Colesterol: Medo de aceitar  a alegria
10-Derrame: Resistência. Rejeição à vida
11-Diabetes: Tristeza profunda
12-Diarréia: Medo, rejeição, fuga
13-Dor de cabeça: Autocrítica, falta de autovalorização
14-Dor nos joelhos: Medo de recomeçar, de seguir em frente
15-Enxaqueca: Raiva reprimida. Pessoa perfeccionista
16-Fibromas: Alimentar mágoas causadas pelo parceiro (a)
17-Frigidez: medo. Negação do prazer
18-Gastrite: Incerteza, sensação de condenação
19-Hemorróidas: Medo de prazos determinados. Raiva do passado
20-Hepatite: Raiva, ódio. Resistência à mudanças
21-Insônia: Medo, culpa
22-Labirintite: Medo de não estar no controle
23-Meningite: Tumulto interior. Falta de apoio
24-Nódulos: Ressentimento, frustração. Ego ferido
25-Acne (pele): Individualidade ameaçada. Não aceitar a si mesmo
26-Pneumonia: Desespero. Cansaço da vida
27-Pressão alta: Problema emocional duradouro não resolvido
28-Pressão baixa: Falta de amor quando criança. Derrotismo
29-Prisão de ventre: preso ao passado. Medo de não ter recursos suficientes
30-Pulmões: Medo de absorver a vida
31-Quistos: Alimentar mágoas. Falsa evolução
32-Resfriados: Confusão mental, desordem, mágoas
33-Reumatismo: Sentir-se vítima. Falta de amor. Amargura
34-Rinite alérgica: Congestão emocional. Culpa. Crença em perseguição
35-Rins: Medo da crítica, do fracasso, desapontamento
36-Sinusite: Irritação coma pessoa próxima
37-Tiróide: Humilhação
38-Tumores: Alimentar mágoas. Acumular remorsos
39-Úlceras: medo. Crença de não ser bom o bastante
40-Varizes: Sentir-se sobrecarregado
Referências:
CYRULNIK, B.. Fórmula química da felicidade. In: Para uma utopia realista – em torno de Edgar Morin. Lisboa: Instituto Piaget, 1998.
MATURANA, H..A ontologia da realidade (org. Magro, C.; Graciano, M.; Vaz, N.). Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1977.
___________, Emoções e linguagem na educação e na política. Belo Horizonte. Editora da UFMG, 1998.
MORIN, E.. Amor, poesia e sabedoria. Rio de janeiro: Bertrand Brasil, 1998

Site:
O conceito de afetividade de Henri Wallon:
HTTP://revistaescola.abril.com.br/gestão-escolar/conceito-afetividade-henri-vallon-645917.shtml
 

 
 



quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Os Ipês contam histórias

Gosto muito de ler e, do mesmo modo, gosto outro tanto de escrever. Por isso mesmo, ouso apresentar aos meus amigos que também gostam de ler uma pequena história sobre uma das mais belas árvores do Brasil: o exuberante Ipê.

O ipê é uma árvore do gênero Tabebuia (Tabebuia chrysotricha) pertencente à família das Bignoniáceas que pode ser encontrada por todo o Brasil. Os índios usavam essa madeira para fazer bodoques e arcos, aproveitando-se da peculiar elasticidade e da firmeza que a madeira oferece.  Assim, justifica-se um de seus nomes populares:  Pau-d’arco. Esta árvore de grande beleza vem sendo apreciada tanto pela excelente qualidade de sua madeira, quanto por seus efeitos ornamentais e decorativos, além de ser reconhecida pela farmacopéia popular e botânica por seus efeitos medicinais.

 Com toda a grandiosidade de suas qualidades, o Ipê seduziu escritores e provocou olhares de encantamentos. Desse modo, ficou imortalizado nas páginas de José de Alencar, Machado de Assis, Castro Alves, Bernardo Guimarães entre outros e tantas outras lendas. José de Alencar, além de dar o título a um de seus grandes romances: O Tronco do Ipê; em O Guarani, atribuiu a força do Ipê a sua narrativa ao dizer: “O velho Aymoré vacilou; seu braço que vibrava o tacape com uma força hercúlea, caiu inerte; o corpo abateu-se como o Ipê da floresta cortado pelo raio.” Continua Alencar em sua obra Ubirajara: “O grande chefe ergue a sua fronte soberba como o velho Ipê da floresta coroado de flores.” E em Machado de Assis,  na  obra Americanas, lê-se: “Um desfolhado ipê conserva e guarda / Flores que lhe ficaram de outro estio, / Como esperança de folhagem nova,/ Flores que a desventura lhe há negado,”. Em Bernardo Guimarães, no conto Pão de Ouro, encontra-se: É o truculento Ipê, que como um cacique todos os anos se enfeita de um diadema de flores amarela, diadema efêmero e irrisório, que no outro dia o vento lhe arranca da fronte e roja pelo chão.”

Muitos pesquisadores destacam o Ipê naquilo que ele tem de mais simbólico, além de beleza e flores: seu poder de acalentar, alegrar, agregar e curar. O pesquisador mineiro, Breno Marques, em seu Livro As Essências Florais de Minas – Síntese para uma medicina de almas, afirma que (...) A Tabebuia, que tem uma forte analogia sonora com Aleluia ou “Tábua-boa”, é uma “tábua de Salvação” que pode ajudar aquele solitário que, mesmo estando imerso nas águas bravias da dor e do sofrimento, pode resistir infinitamente por honra e glória do Criador. Diz, ainda, que a planta (...) associa os conceitos de sincronização temporal e de força, sendo portanto uma poderosa “lente” concentradora de energia solar, disponível naqueles momentos exatos de máxima necessidade. Arremata destacando que (...) O Ipê realiza arquetipicamente um princípio oculto, que foi captado e bem expresso por Vitor Hugo, que diz assim: “Não há nada mais forte que uma idéia quando chega o momento exato de sua realização.

  Nota-se que o nosso Folclore Brasileiro está recheado de fábulas, lendas, mitos com seus distintos e instigantes temas. Assim, dentro desse cenário, incluem-se os vários “causos” contados sobre o Ipê com uma infinidade de histórias interessantes, as quais nem todas fazem parte de um único gênero. Como bem se pode notar, entre os autores aqui citados, estão os variados estilos desde a medicina com seu cartesianismo exemplar à medicina vibracional, cedendo lugar às falácias populares até à literatura contemporânea. Por isso, retornemos ao criador do sistema dos Florais de Minas, Breno Marques, que foi um dos professores que mais me impressionaram durante suas aulas de  física quântica entre outras de igual importância, pela maneira descontraída de prender à atenção de seus alunos com momentos de descontração e com o seu jeito “mineiro” de contar histórias. De tudo que já pude ler e ouvir sobre as plantas e de toda trajetória de histórias vivenciadas como aluna e professora, uma se tornou especial, aquela que fora contada por Breno Marques e que nunca mais saiu de minha mente. O resumo dessa história retoma em minha memória um certo conceito de nozado, não pelos rituais que acontecem nos velórios, muito menos pela peculiar narrativa da palavra “soia”. Mas sim, pela fluidez semântica que faz a história ganhar um significado mais que simbólico de força vital e de esperança, que vai muito além da fenomenologia de uma simples etimologia contida no radical do nome da planta. O Ipê consagrou-se com seus pressupostos sedutores de energia, graça e beleza e, nele se pode ver uma atmosfera mágica que transborda qualquer conceito lingüístico, ao transcender olhares e às diferentes formas do dizer. Diante exposto, vamos ao causo:

Conta-se um “causo” que lá pelas bandas do interior das Minas Gerais, morreu uma véia (velha) e, então, chamaram o povo para animar o velório, com direito a pinga, comidinhas, bebedinhas e tudo mais, até um sanfoneiro... Tudo seria normal, não fosse o episódio que aconteceu: de repente, a veia que estava morta, se senta no caixão, e foi um Deus nos acuda... um corre – corre assustador, a porta ficou estreita, diante dos tantos que teimavam em fugir do fantasma vivo da véia. Com algum custo, aqueles poucos que ali ficaram, procuraram retirar a velha do caixão e colocá-la na cama. Porém, não demorou muito e a veia morreu de novo. E, assim, entre o morre-e-desmorre, lá pelas tantas, diante da estranha sucessão dos fatos resolveu-se chamar o homem que fez o caixão, e então perguntou-se:  
 Acaso o cumpade Izé não esqueceu algum prego puntudo dentro do caixão?! As veiz tá cutucando a cumade... num tá deixando ela sussegada lá dentro!? Antes de colocarem a véia novamente... vistoriaram todo o caixão por dentro... esquadrinharam tudo... várias mãos... e nada... não havia pregos pra desvendar o mistério do morre-desmorre sem fim... Foi quando o cumpadre Joaquim iluminou-se com a seguinte solução: já sei... o cumpade Izé feiz errado... num pode fazê caixão de Ipê!... O Ipê é tão forte que não deixa ninguém morrê!...
                     Assim, o Ipê conta sua história. E esta é apenas mais uma entre tantas outras com seu pseudo poder, segredo e graciosidade que a natureza nos oferece. Basta observarmos. Há bem pouco tempo, eu voltava da Barra da Tijuca em direção à Zona Sul e passando por São Conrado, um vislumbre...bem a minha frente, lá no alto na Rocinha, um Ipê também inspirou-me numa das crônicas do meu livro: O Rio e seus relevos díspares , onde se lê que “Um novo cenário  veste a imaginação e  empresta aos olhos, apenas aquilo que se pode ver. – Um velho Ipê amarelo resiste com sua doutrina.  A planta carrega em sua lenda o mito de uma velha  sabedoria que é fazer a vida renascer e florescer.”

Diante do exposto, releio o tempo presente  em função do passado e, assim, tristemente, estabeleço uma relação com o futuro que se aproxima, vislumbrando os Montes e Serras do Vale do Paraíba que continuam lá, porém, sem a floresta dos Ipês coloridos. Aproveito o instante deste escrito para renascer das lembranças e convidá-los a cantarmos juntos com o inesquecível Geraldo Vandré: “Pra não dizer que não falei de flores”. Agora, sigo caminhando e cantando os Ipês com suas flores e cores, com seus tons rosáceos, lilases, brancos e amarelos: todos servindo de ponte às boas lembranças da vida.

Se o texto que, ora lhes está sendo oferecido, pode, nessa breve reflexão, ser compreendido para além de sua expressão metafórica, naquilo que José Enes classifica como noético, (estrutura energética da faculdade intelectiva), então o Ipê já terá exercido uma de suas (máximas) a maior de todas as missões: levar a Luz da esperança a quem dela necessitar.  Descortinei lembranças de antigos campos, relembrei os prados verdejantes e as brincadeiras de esconde – esconde;  reavivei as tintas do passado através da memória dos Ipês e, de lá, trago um presente para você, leitor: um Ipê! A cor, você escolhe:



Rosa, é a cor do plexo cardíaco, trabalha o Amor incondicional e o sistema imunológico. Desenvolve os aspectos sensíveis da glândula Timo, está diretamente relacionado ao coração, melhora a arritmia cardíaca e o sistema circulatório, brônquios e o aparelho respiratório;

  
Branco, esta cor induz à pureza, à limpeza e é o símbolo da Paz;
 


Lilás, tem ligação direta com as energias superiores, trabalha a glândula Pineal nas disfunções das neuroses, irracionalidades, fobias, desorientação e obsessão, além das disfunções sensoriais e cerebrais, bem como a insônia, enxaqueca e histeria;

 


Amarelo é a cor do plexo solar e é também a cor do intelecto. Trabalha as funções da Personalidade, vitalidade, ação e vontade, auto-estima, melhorando a ansiedade, a indecisão e a desconfiança. Trabalha os sistemas nervoso e pancreático: o baço, estômago, fígado, vesícula, intestino delgado e parte inferior das costas.




   
Fonte:

SANTANA, Vannda. O avesso e o reverso na ponta da pena. Oficina Editores, 2ª Ed. RJ, 2007, p.83;

SILVA, Breno Marques da.  As essências florais de Minas: síntese para uma medicina de almas, Breno Marques da Silva  e Ednamara Vasconcelos e Marques. 2ª Ed. São Paulo, editora Aquariana, 1997;
Criatividade e Espiritualidade seguindo os passos de " A Profecia Celestina" - Dr. Breno Marques da Silva e Ednamara Batista Vasconcelos e Marques.

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Os Ipês Amarelos de Rubens Alves
Os Ipês Floridos