quarta-feira, 10 de maio de 2017

A Doença como Caminho


A Doença Como Caminho
Uma Visão Nova da Cura como Ponto de Mutação em que um Mal se deixa transformar em Bem

Bem e Mal. Um poder latente envolve todos os mundos, todas as criaturas, o bem e o mal. E esse poder é a verdadeira Unidade. Como ele pode abrigar dentro de si os opostos do bem e do mal? Na verdade não existe paradoxo nessa afirmação, pois o mal serve de trono para o bem.
(Baal Schem Tow)

Uma releitura:
Este é um livro que  nos leva a pensar na leitura como se fosse um “antídoto”, e através dele, uma lição de como entender a doença para não adoecermos. Os autores nos mostram “um caminho” para detectar o significado mais profundo das doenças. Eles partem do princípio de que todo sintoma é um alerta da alma para uma carência essencial. No final do livro, há uma espécie de glossário que nos oferece uma compreensão sobre os diversos sintomas clínicos e este é o clímax do livro – uma listagem desses sintomas é elencada – nos permitindo a oportunidade de conhecer esse novo caminho para nos aproximar de nós mesmos diante do autoconhecimento. Não se trata de um manual de autoajuda. O livro é sem dúvida uma releitura de nós mesmos e das doenças e sua expressão simbólica, pois aqui são analisados e interpretados como formas de manifestação dos problemas psíquicos (p.7)[1].

Sem mais questionamentos. Não há dúvidas de que a saúde é o nosso bem mais precioso. Por essa razão, buscamos o nosso bem estar físico e emocional, procurando compreender qual o sentido da doença em nossas vidas. Sendo assim, não basta entender o que se passa em nosso organismo se não nos propusermos a ouvir os sinais do próprio corpo. A epígrafe nos alerta para esse poder latente presente em todo mundo, e esta afirmação, dotada de um tom filosófico e maniqueísta, destaca-se por uma abordagem contextual sobre a lei dos opostos, referindo-se à polaridade e aos aspectos da mesma unidade. Diante  dessa ótica, em que o mal serve de trono para o bem, é visível que vamos nos confrontar com a nossa sombra já que o bem vive do mal e o mal do bem. Entretanto, decidir sobre o que é certo ou errado é uma questão de bom senso e lógica. Entretanto, sabemos que conviver com a nossa sombra não é nada fácil. Talvez, por questões de ética e moralidade nos venha ao pensamento que talvez fosse melhor eliminá-la sempre que ela vier à tona. Este pensamento, guarda sem dúvida, uma convicção com os nossos princípios morais além do rigor sobre os conceitos adquiridos. 

Para os autores – o psicólogo Thorwald Dethlefsen e o médico Rüdiger Dahlke – não existem “doenças”, mas sim, uma única doença ligada inseparavelmente à “imperfeição” humana, e que se revela através de diferentes sintomas. A Doença como Caminho destina-se às pessoas que estão preparadas para abandonar as noções tradicionais sobre doenças e buscam analisar mais profundamente a verdadeira natureza das mesmas: (Texto da contracapa do livro)[2]

Este texto é uma síntese que aponta para a necessidade de um olhar atento sobre a vida. A Doença Como Caminho não nos redime dos erros, tanto menos, opera milagres. Mas nos aponta para uma visão honesta da observação constante sobre o nosso existir e assim nos conduz a um novo modo de olhar à vida. Desse modo, acredito que esta recomendação tem como objetivo atingir nosso “eu” superior de forma mais consciente para se repensar nossa história, ao mesmo tempo em que oportuniza se conhecer o mal no processo de transmutação para o bem. Por entender que todos aqueles que buscam por uma melhor qualidade de vida, estarão buscando também alcançar o equilíbrio de uma boa saúde. Agindo assim, podemos compreender as trajetórias e os revezes de algumas etiologias, que por vezes nos afetam diretamente nos fazendo adoecer sem “ouvir” o alerta dos sintomas.   O livro oferece um questionamento para se descobrir o que está fora do equilíbrio e dessa forma entender a diferença entre lutar contra a doença e transmutar a doença. O processo de tal abordagem, fundamenta-se em conteúdos psíquicos e sintomáticos e os assuntos aqui abordados não nos causam  frustrações, mas sim, uma curiosa vontade de entender o sistema adotado que relaciona a doença como caminho.





 Pois bem, o aprendizado sobre a saúde e a doença nos faz rever conceitos: mas o que é Saúde e o que é Doença? De acordo com o dicionário Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, afirma ser  Saúde um "Estado daquele cujas funções orgânicas, físicas e mentais se acham em situação normal" (Ferreira, p.286) e a Doença: "falta ou perturbação da saúde"  (Ferreira, p.116). Dessa maneira, temos de usar o sintoma como um professor que nos orienta a entender a disciplina do desenvolvimento para nos tornarmos cada vez mais conscientes de nós mesmos.

De acordo com o que acabamos de observar, podemos relatar que a correlação apontada pelos autores nas diferentes funções do organismo humano é excludente. Entretanto, o que se pode constatar é que ambas (saúde e doença) guardam entre si uma interação que se dá de forma "normal" e neste caso, a resposta estaria no equilíbrio: se há harmonia no sistema emocional, mental e físico, então, temos saúde. Acredita-se que esta situação normal é adequada a cada ser humano e de forma individual, correspondendo àquela em que haveria o equilíbrio entre todas as suas funções orgânicas. Portanto, seria normal a negação da “sombra” de forma inconsciente. E anormal seria aceitar conscientemente que temos alguma doença e, seja ela qual for, não sabemos o que fazer com o processo psicossomático. É nesse ápice da questão, que devemos buscar a compreensão dos fatos ainda que eles nos pareçam complexos: 

Desde a época de Hipócrates, a medicina acadêmica vem tentando convencer os pacientes de que um sintoma é um fenômeno mais ou menos acidental, cuja origem deve ser procurada nos processos mecânicos do organismo. Desde então, todos estão empenhados na pesquisa desses processos. A medicina acadêmica evita cuidadosamente interpretar o sintoma, e assim condenar o sintoma e a doença ao exílio da ausência de significado. Com isso, o sinal perde sua verdadeira função: os sintomas transformam-se em sinais sem significados (p.15 -16).[3]

A partir do momento em que se instala um desequilíbrio no ser humano, por causas variadas que podem ser físicas ou acidentais, mental ou emocional ou ainda pelas repressões da infância, com as grandes perdas, automaticamente começam a surgir  os "sintomas" expressos de diferentes formas e em diferentes funções, pois o corpo, a mente e as emoções estão aí interligados num todo. Assim, por exemplo, os sintomas podem ser a soma dos fatores psicossomáticos e vir a se manifestar até mesmo por uma grande tristeza, decorrente de uma perda qualquer e, portanto, desencadear várias causas emocionais. Desse modo, perceber que os sintomas que combatemos podem ser nossos maiores aliados, na medida em que são como um “grito”  do nosso corpo nos chamando à atenção para algo muito maior que não vai bem. E esse desequilíbrio mais profundo deve ser tratado e corrigido. Às vezes, uma simples dor de cabeça, ou um estado febril nos mostra que algo não vai bem. Mas o que quer dizer este sinal? A cura pressupõe a compreensão desse TODO. Portanto, dar um passo em busca da “consciência” para descobrirmos onde foi que nos desviamos de nós mesmos, eis a questão; esse é o sinal; essa é a seta que indica e aponta o caminho da existência para ser feliz. A consequência não deve ser entendida como resposta final do mal, mas sim, como princípio de que algo não estará bem se não buscarmos a causa que continua presente no sintoma. Penso então, ser meu corpo o palácio de todas as coisas que nele se interagem e que de dentro de mim “falam” e convivem nessa semiótica de sentidos.

Penso não ser nada fácil tirar conclusões e pareceres sobre um estado de  fragilidades gerados por uma doença grave. Mas sei também que não há uma receita pronta para atenuar dúvidas. Porém, afirmo a certeza de que há diferentes modos de comportamentos que podem nos indicar caminhos de esperanças. E é isto, às vezes, que nos basta como antídoto: a esperança.

E não é por acaso que a história da Medicina se funde com a História do Homem. Pois, desde os tempos mais antigos, o homem busca a Cura das suas doenças e também não é por acaso que a Grécia antiga foi o berço dos deuses mitológicos e seus grandes mestres de cura como célebres filósofos. Como em todas as civilizações milenares os antigos buscavam, nos mitos, as respostas às suas indagações sobre as mais variadas questões e como não poderia deixar de ser, sobre a saúde, a doença e a cura. Os filósofos gregos nortearam todo o pensamento ocidental, portanto a medicina ocidental, e a influência deles em todas as áreas podem ser observadas até hoje. A palavra “cura” vem do centauro mitológico grego – Chiron, meio homem e meio animal, um semideus, filho do deus Cronos (deus do Tempo). Chiron foi ferido em sua anca por Hércules – ferida incurável e dolorosa, que lhe permitiu ter o conhecimento da dor e tudo que a ela se relacionava. Recebeu de Zeus, seu irmão, também filho de Cronos, a imortalidade, mas, como imortal, sua ferida incurável e sua dor nunca seriam exterminadas, então trocou sua imortalidade com o titã Prometeu que tinha o dom do Fogo. O Fogo tem o simbolismo da luz, do conhecimento, da consciência. Prometeu trouxe aos Homens, então, o autoconhecimento, a “consciência” e Chiron trouxe o conhecimento do corpo e da dor.

Neste pequeno recado temos uma grande lição: sermos mais conscientes com a vida que herdamos da divindade.






[1] A Doença como Caminho – Thorwald Dethlefsem & Rüdiger Dalke. Ed. Cultrix, São Paulo, 1999
[2] Idem
[3] Idem

domingo, 19 de março de 2017

Paideia: "Lugar dos gregos na história da educação"

Paideia: “Lugar dos gregos na história da educação”
Professora: Vannda Santana
Revisão: Márcia Vital
Toda educação é assim o resultado da consciência viva de uma norma que rege uma comunidade humana, quer se trate da família, de uma classe ou de uma profissão, quer se trate de um agregado mais vasto, como um grupo étnico ou um Estado.
(Werner Jaeger, Lugar dos gregos na história da educação).
Educação e formação dos gregos segundo princípios da Paideia
A Paideia é a fiel representação da educação na formação do homem grego. A  educação a que W. Jaeger se refere pode se aplicar com propriedade à palavra alemã Bildung (formação), no seu sentido pleno de forma completa e em seu todo. Desse modo, vale perceber o quão importante foi a metodologia de ensino aplicada na Grécia antiga e o verdadeiro objetivo que permeava tal concepção pedagógica.
Paideia (παιδεία) é um termo do grego antigo empregado para sintetizar a noção de educação na sociedade grega clássica. A palavra paidos (pedós) - criança  significava "criação dos meninos", referindo-se à educação familiar, aos bons modos e aos princípios morais.  A Grécia exerceu um  modelo de educação que tinha  por finalidade formar o homem em suas amplitudes morais e sociais.  Jaeger afirma que “A tendência do espírito grego para a clara apreensão das leis do real, tendência patente em todas as esferas da vida – pensamento, linguagem, ação e todas as formas de arte – radica-se nesta concepção do ser como estrutura natural, amadurecida, originária e orgânica.”

 Esta era a base de toda educação grega, vivenciada por uma preocupação consciente e com o caráter de atingir as melhores formas de existência humana dentro de uma prática organizada através do esforço consciente: o homem e a prática criadora, atuando em condições de manutenção e transmissão de suas organizações físicas e espirituais. E é através desse esforço físico e espiritual que era possível atingir o mais alto grau de intensidade consciente do conhecimento que se revestia de uma idealização no sentido da unicidade e da aplicação das leis ao conduzir o ideal do estilo.

Eis a verdade dos ideais educativos.  Os gregos que vivenciaram a educação com base na paideia  também tiveram seus problemas. Na literatura grega, por exemplo, houve um questionamento do conceito, seja na poesia, tragédia ou na comédia. Assim, os gregos tiveram de elevar seus espíritos para alcançarem melhores resultados, através do importante debate do estatuto com a questão filosófica dos Sofistas, logo depois  com Sócrates e Platão, seguido de Isócrates e, finalmente, com Aristóteles.  Desse modo, em meio à sociedade ateniense, a "paideia" passa a se referir a um processo de educação no qual os estudantes eram submetidos a um programa que procurava atender a todos os aspectos da vida do homem. Entre as matérias abordadas constavam a geografia, história natural, gramática, matemática, retórica, filosofia, música e ginástica.

O conceito que antes era preconizado originalmente exprimia o ideal de formação social do homem grego e este ideal  estava contido em outro termo: "aretê" (em grego, adaptação perfeita, excelência, virtude), dessa forma, explicitado nos poemas homéricos. A  aretê  era entendida como um conjunto de qualidades físicas, espirituais e morais, atributo próprio da natureza (como por exemplo, a bravura, a coragem, a força,  a destreza, a eloquência, a capacidade de persuasão e, enfim, a heroicidade). O alargamento do ideal educativo da aretê surgiu ao fim da época arcaica grega (por volta dos séculos VIII e VII a.C.), traduzindo-se na expressão "kalos kagathos" (kalos = bom; kagathos = belo, ou o bom e belo, em grego) da qual deriva o termo kaloskagathia, ou, a grosso modo, o cultivo da bondade ou do virtuosismo e da beleza, onde o homem era estimulado a alcançar a excelência física e moral além da honra e da glória.

A partir do século V a. C., o conceito de aperfeiçoamento do ser humano para o bem da sociedade como um todo segue em plena evolução. A noção agora vigente é que, para além de formar o homem, a educação deve ainda formar o cidadão, deixando de ser suficiente a simples e antiga educação baseada na ginástica, música e gramática.

O conceito acabado da paideia torna-se o ideal educativo da Grécia clássica. Com o tempo, passou a designar o resultado do processo educativo que se prolonga por toda vida, para muito além da escola. Até os dias de hoje seus ideais são imitados em praticamente todo o mundo, como um perfeito entendimento de formação social do ser humano.

A Educação Grega como exemplo para os dias atuais 
A distância compreendida desse período da Grécia Antiga  para os dias atuais não guarda hoje nenhuma semelhança com a educação contemporânea que temos no Brasil. Muito pelo contrário. A educação se perdeu do “homem” e o homem da educação.  No crescimento da sociedade a imagem está desconfigurada diante da realidade, longe do que se poderia chamar de ideal. E o destino da educação parece  resvalar  para a margem da história, agarrando-se a fragmentos de referências teorizadas mas sem nenhuma identidade moral que os autentique para um padrão de modelo. A imagem desenhada da educação atual deixou marcas de um esfacelamento total; traços amorfos se apresentam no caráter educativo como descrédito dos valores morais e sociais, um viés patológico como causa e talvez como consequência.

 A partir desse perfil, é possível vislumbrar resultados no sentido de alcançar melhores condições educativas, ainda que seja através de uma teoria, um idealismo formal ou uma concepção dialética;  mediada por uma grande reforma. Lamentavelmente, esses critérios não atingem a consciência coletiva; e a educação, como vítima, fracassa. E o homem vitimado pelas mesmas circunstâncias também fracassa em seu caráter. E o Estado perde com a deformação do todo.

Entretanto, o ideal dos gregos já teria desaparecido ao longo do tempo se o homem grego não tivesse exercido com eficaz pertinácia sua própria história, colocando como expressão de altíssima vontade aqueles ideais com que trabalhou seu destino. Desse modo, Colocar estes conhecimentos como força formativa a serviço da educação e formar por meio deles verdadeiros homens (...) é uma ideia ousada e criadora que só podia amadurecer no espírito daquele povo artista e pensador. (JAEGER, 2003, pag. 9). A nós caberá, ainda, imaginar  que nada se constrói em um só segundo muito menos a formação de um povo e sua história. Esse legado teve como estratégia o aprofundamento de estruturas psíquicas de forma doutrinária desde os estádios primitivos de crescimento individual até a formação ideal, porém dentro da coletividade social e de acordo com os ideais de  vontade; pois, á medida que avançava-se no caminho do crescimento, ia-se gravando na consciência a clareza da finalidade atribuída à formação de um elevado tipo de homem (JAEGER, 2003, pag. 7). 

Para W. Jaeger, a Paidéia  nos fala de um humanismo como norteador da formação e esta era a intenção primeira dos gregos antigos: um constante aperfeiçoar‑se. Notoriamente, esse foi o reflexo plasmado nas gerações posteriores. Assim sendo, se tal fato não fosse real, já teria se perdido nos porões do palimpsesto da memória e caído no esquecimento da história da humanidade. Porém, o que ocorre é um paradoxo, aquilo nos encanta é também o que nos põe em estado de alerta diante da realidade: os sintomas presentes como desordem na formação da sociedade. Assim sendo,  como a  "Paidéia" permanece presente na cultura ocidental até os dias atuais, fica em cada um de nós a pergunta: o que dela nos restou se não apenas o que sobrou de um grande idealismo formador de seres humanos tão melhores? Será que não vale repetir o modelo?

A rotina de um aluno de acordo com os preceitos da paideia
  • "Acordar logo ao amanhecer, e com a ajuda do pedagogo, o jovem lavava-se e vestia-se;
  • Refeição matinal e logo após, ida à palestra, para as aulas de música e ginástica;
  • Banho e regresso à casa para o almoço;
  • Retorno à palestra à tarde, para lições de leitura e escrita;
  • Ida para casa, sempre na companhia do pedagogo; estudo das lições, trabalhos de casa, jantar e enfim repouso.
  • Não havia finais de semana ou férias, exceto pelos festivais religiosos ou cívicos".
Conclusão

Um olhar reflexivo sobre a atualidade
O tema do XX Congresso Mundial de Filosofia organizado em Boston em 1998, destacou com relevância o conceito de educação grega, evidenciando um apelo para os  historiadores, filósofos e educadores contemporâneos, reafirmando ser uma proposta válida para a sociedade de hoje, considerando que a educação tem se caracterizado pela fragmentação e superficialidade, com grandes perdas de referenciais morais sólidos. Como observou Daise Diniz,
"A educação, para nossos antigos filósofos, foi acima de tudo um exercício para o bem viver em comunidade, uma convivência calcada, sobretudo, na responsabilidade para com os outros e no respeito mútuo, que instaura a harmonia e preserva a dignidade entre os seres. A razão humana, no que tinha de mais sublime, era enfocada no ato de educar. [...] A questão que fica para nós é como estamos lidando com essa herança grega, num mundo em que se convencionou dissociar o sucesso do desenvolvimento do caráter. [...] O ato de educar foi barbarizado, barbarizado pela apatia, pelo politicamente correto e pelas falácias produzidas pela mídia. Nesse sentido é que o ato de educar torna-se um tema vivo, por necessitar de constante reflexão. A reflexão sobre que seres e que sociedade desejamos para nossa geração e para as gerações futuras. Essa era a questão da paideia grega, uma vez que, na Grécia Antiga, educava-se para a vida em comunidade, em todas as suas nuanças. É preciso indagar se nossas práticas educativas têm ajudado para nos tornarmos seres melhores, posto que o ato de educar pode ser o motor da construção de sujeitos éticos dotados de responsabilidade, solidariedade e de caráter para dar novos rumos à história humana".
Alguns Projetos modernos de escolas de tempo integral no Brasil tiveram um currículo diversificado inspirado no antigo ideal grego de educação completa.  A Grécia Antiga deixou sua marca de dependência na cultura do ocidente pelos princípios adotados. Eis o que disse o filósofo Hans-Georg Gadamer: que um retorno aos gregos é para os ocidentais como que um reencontro consigo mesmos.

Bibliografia:
JAEGER, Werner Wilhelm. Paideia: a formação do homem grego. Tradução Artur M. Parreira. Ed. Martins Fontes. São Paulo, 1986
RELVAS, Marta Pires. NEUROCIÊNCIA E TRANSTORNOS DE APRENDIZAGEM. Editora Wak, Rio de janeiro, 2011.
WEISS, Maria Lúcia. Psicopedagogia Clínica: uma visão diagnóstica dos problemas de aprendizado escolar. Rio de Janeiro: DP&A editora, 2000. 7ª edição
Acesso em 13 de março de 2017
Conceito de Paideia. Disponível em:
Links para DSM 5
Links para o DID 10

CID 10 - Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde




segunda-feira, 6 de março de 2017

O algoz da depressão: a prisão da alma

Por:Vannda Santana
Revisão: Marcia Vital

Por que escrevo? Para quem escrevo? E o que escrevo?

Para responder a estas perguntas, se faz necessária uma pequena apresentação: sou professora, psicanalista, arteterapeuta e, como tantas outras pessoas, também fui vítima da depressão (doença da modernidade) que assola grande parte da sociedade e que, às vezes, costuma atrelar-se à síndrome do pânico, complicando ainda mais o diagnóstico. Este artigo é só um desabafo à medida em que necessito escrever – um  hábito que se tornou terapia a partir da leitura – transformando pensamentos e  criando novos estímulos.

De 1996 até setembro de 2004, fixei residência em Petrópolis, Rio de Janeiro, depois de adquirir uma “pseudo aposentadoria” que parecia ter um caráter  de segurança financeira para os anos vindouros (um prêmio) que se sucedia após longos e exaustivos vinte e nove anos de trabalho. A decisão de sair da Zona Sul do Rio e trocar o mar pela serra revirava-me a imaginação de estar vivendo a aventura de um conto de fadas: era tudo o que eu queria. Até o vento frio que soprava uma bruma branca e úmida, deixando as vidraças embaçadas, era motivo de poesia, pois em tudo havia uma beleza impar. Mas os dias na serra induzem ao isolamento e foi, de fato, o que aconteceu.

 Mas a calmaria da montanha e a escassez de trabalho intelectual resultariam em nostalgia e até um grande desânimo tomou conta do meu comportamento. Resolvi fazer um check up para conferir como andava a minha saúde. Foi quando então, veio a surpresa: pressão arterial alta. O cardiologista com sua postura de profissional ciente do seu dever de médico receitou-me confiança e muita calma, além de me prescrever “um livro” – O Demônio do Meio Dia – Uma Anatomia da Depressão do autor: Andrew Solomon. De início, achei aquela indicação estranha, mas à medida que eu ia lendo confrontava-me com o  próprio “demônio” depressivo, o meu particular demônio interior. Lê-lo foi um desafio naquele momento de tormenta. Porém, tendo vencido o primeiro instante da leitura, pude compreender como a depressão ia aos poucos se extinguindo e a pressão arterial mais controlada. Nesse momento, descobri o milagre que o livro havia produzido em minha vida: novos horizontes se iluminaram, apontando novas oportunidades em direção ao academicismo. Ao ser convidada por uma universidade para ministrar vários cursos de pós graduação nas áreas de educação e psicanálise, surgia como um despertar de energias em mim um desejo de viver tão vigoroso que apontava como resultado a saída do caos; no mesmo instante que me introduzia de forma satisfatória e prazerosa no universo intelectual. Essa reviravolta deu-me novo folego e pude durante treze anos oferecer conhecimentos e outros saberes àqueles alunos ávidos por concluírem seus cursos de pós-graduação, tutelando TCCs, Dissertações de Mestrado e, alguma orientação em Teses de Doutorado. Por isso, ler é remédio poderoso.

E é por este motivo que resolvi  criar um Blog para expor “teorias” que possam ocupar a minha mente enquanto penso naquilo que desejo expor e que, ao mesmo tempo, possam indicar caminhos a qualquer indivíduo deprimido ou não,  certa de estar contribuindo com a imaginação criativa do leitor. Ainda assim, a leitura é sempre causa de uma ação criativa,  um produto-íntimo e pessoal de ação humanista onde a “consequência” tem como resposta, a ação-curativa por atingir outros seres pensantes  enquanto me leem e, assim,  através da escrita, uma catarse poderá acontecer.

 Diversos artigos são escritos de forma intencional, desde um pensamento romântico até uma possível crítica histórica, social, literária ou uma resenha de alguma época. Porém, em cada escrito há o exercício do pensamento, oferecendo formulação de sentido ao ser idealizado diante da manipulação de uma escritura ou de expressões pessoais: aquelas que se permitem vazar pelas impressões da realidade ao tentar esculpir com palavras a dor endurecida pelo sofrimento.

Neste mosaico de coloridas pinceladas de emoções escritas, lanço mão de alguma metodologia acadêmica para dar suporte ao texto que se quer lido por outros leitores e não somente para os que já se sentiram no lugar de vítimas da depressão.

Portanto, alicerçar os pensamentos é poder direcioná-los no sentido mesmo de  alcançar o leitor naquilo que ele busca como “terapia”: se encontrar com a sua razão de ser e de existir – face a face com o objeto do prazer. Eis o que esses escritos propõem para serem lidos através deste blog. Não há milagres encapsulados que possam apontar saídas favoráveis aos que queiram buscar na leitura uma oportunidade terapêutica. Existe, sim, uma ponte para ser atravessada no abismo temporário que se chama CORAGEM, sem esta aquisição nenhuma leitura será prazerosa. Os textos serão como alento quando alcançados pelo leitor e caso o atinjam. Ao contrário, de nada terá valido a leitura, pois o escrito não terá conseguido libertar a alma de sua prisão ocasional. Os textos manipulam um poder metafórico para além do “arco-íris”, mas é preciso ler – narrar para viver e viver para narrar – quer seja um texto literário, poético, pedagógico ou acadêmico, mas qualquer que seja o escrito  terá de exercer a sedução ao olhar do leitor. Desse modo, o texto seduz o leitor à leitura e o encontro se realiza num espaço mágico de ideias compartilhadas pelo prazer de ler.

Desse modo, posso afirmar que a escrita e a leitura exerceram sobre mim os seus poderes mágicos, livrando-me do aprisionamento da alma e do corpo, subjugados ao cego sofrimento da existência de uma depressão. Por outro lado, e sem valorizar os acontecimentos, dispo-me da vitimização e da possível vaidade para garantir o espírito da compaixão com aqueles que ainda não conseguiram se erguer para abrir a porta da prisão que os asfixia. É neste ponto de encontro  que lanço o meu olhar sobre o equilíbrio perdido, a fim de tornar o pesadelo da angústia numa reação de prazer com livros e textos.

Em nome dessa libertação de corpos e almas aprisionados pelo stress e pela depressão, ofereço minha receita afetiva de vida: texto-terapia, leitura-terapia, escrita-terapia como reconstrução de um ego completamente estilhaçado. Ainda que o efeito catártico da leitura ou da escrita tenha produzido várias interpretações não muito satisfatórias, temos a convicção da prática do diálogo que se ergue face a face com o próprio texto, cumprindo  sua função: tirar-nos da solidão avassaladora. Esta dualidade dialogal entre o texto e o leitor aponta para a significância de enfrentar o fracasso psíquico pela via do comportamento, alterando ações, modificando sentimentos entre os polos positivos e negativos de reações psicológicas.

É neste sentido que me refiro como terapeuta em arteterapia a poder trabalhar a comunicação entre as artes como essência de tratamento e propiciar a criação do  diálogo entre o “eu” mediante um contato com o “outro”. Assim sendo, a individualidade se construirá na coletividade, exercendo uma identidade autônoma.  Como diz admiravelmente Maurice Blanchot: Se há um mundo onde, buscamos liberdade e regras de vida, o que encontramos não é o mundo, mas o livro...

Eis aí a minha experiência com a depressão. As múltiplas faces de muitas leituras salvaram-me e tiraram-me da crise. Assim, despeço-me com as palavras de Mikhail Bulgakov:

Tudo passa – sofrimento, dor, sangue, fome, peste. A espada também passará, mas as estrelas ainda permanecerão quando as sombras de nossa presença e nossos feitos se tiverem desvanecido da Terra. Não há homem que não saiba disso. Por que então não voltemos nossos olhos para as estrelas? Por quê?

Fonte:
SOLOMON, Andrew. O Demônio do Meio Dia – Uma Anatomia da Depressão.  Ed. Objetiva, RJ, 2002;
OUAKNIN, Marc-Alain. Biblioterapia. Edições Loyola, SP. 1996;

THORWALD DETHLEFSEN & RUDIGER DAHLKE.  A Doença Como Caminho. Uma Visão Da Cura como Ponto de Mutação em que um Mal se Deixa Transformar em Bem. Ed. Cultrix, SP. 1999.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

A criatividade como impulso libertador

A criatividade como impulso libertador


Por: Vannda Santana
Revisão: Márcia Vital
27/01/2017





“Não darei inicialmente uma revisão histórica e mostrarei o desenvolvimento das minhas ideias a partir das teorias dos outros, porque minha mente não funciona deste modo. O que acontece é que eu coleciono isto e aquilo, aqui e acolá, vinculo-me à minha experiência clínica, formo minhas próprias teorias e depois, no final, passo a me interessar em verificar o que eu roubei de quem. Talvez este método seja tão bom quanto qualquer outro”.
D.W.Winnicott – Primitive  Emotional Development.


Ao escrever este artigo, meu pensamento paira sobre as formas de analisar o brincar tal como um método em que a “A criação se ergue entre o observador e a criatividade do artista” – e este critério, sem dúvida, trabalhado com o rigor da observação pelo médico D.W. Winnicott, em seu livro, deixou-nos a certeza de uma herança psicopedagógica – entender o brincar nas diferentes fases da vida.

Assim, “O Brincar e a Realidade”,  protagonizado pelo médico pediatra e psicanalista,  declara a importância da  observação durante as sessões de análises que tanto puderam contribuir para a vida de pais e mães e, sobretudo, para a vida das da crianças em desenvolvimento. Penso que coube a ele entender o desenvolvimento infantil mediante o olhar atento do psicanalista que relaciona a brincadeira com a sublimação, visto que o brincar é parte de uma fantasia a qual se sustenta pela própria  fantasia oculta internamente no indivíduo. E esta é uma tarefa do analista de crianças: interpretar a fantasia. Até então, a brincadeira em si era uma coisa sem muita importância para a psicanálise, enquanto que o brincar winnicottiano tem uma topologia e uma temporalidade. O espaço que o brincar ocupa não fica dentro nem tampouco fora da subjetividade, fica na fronteira.[1] O autor  propõe algo inovador ao olhar  para o ato do brincar e confere a este  (brincar) o que sua observação produziu em seu método de análise como objeto de estudo. Diferente de Melaine Klein que vê a brincadeira de crianças como uma forma de comunicação, onde o ato de brincar é só mais uma tarefa do fazer analítico de cada sessão, enquanto que, na visão winnicottiana, o processo constitui uma realidade vivenciada pela experiência clínica, aferindo mais profundamente a prática da psicoterapia que não se limita apenas às crianças, mas inserindo também os adultos.
Ficamos com as palavras de Winnicott:

A psicoterapia se efetua na sobreposição de duas áreas do brincar, a do paciente e a do terapeuta. A psicoterapia trata de duas pessoas que brincam juntas. Em consequência, onde o brincar não é possível, o trabalho efetuado pelo terapeuta é dirigido então no sentido de trazer o paciente de um estado em que não é capaz de brincar para um estado em que o é.[2]

 Portanto, reler a obra de Winnicott, nos aponta para um novo olhar à realidade e às formas do “brincar” como algo significante sendo representado pelo objeto em uso através do relacionamento das identificações. Particularmente,  percebi em meus estudos, um certo encantamento com os princípios fenomenológicos adotados pela investigação do psicanalista.
 Desse modo, o livro,  “O Brincar e a Realidade”,   passou a fazer parte dos meus instrumentos teóricos, não tão somente nos cursos de pós-graduação em psicopedagogia clínica em que eu atuava como professora, mas também no consultório e na clínica com os pais, oferecendo a eles, de certo modo, uma nova oportunidade de se verem e se auto avaliarem no enfrentamento do cotidiano diante de seus filhos. Essa visão requer a necessidade de um novo interpretar a realidade das crianças e o livro nos aponta para a leveza de nos fazer ver a vida imaginativa das crianças que se amplia como experiência cultural, o que nos  parece ser um fator determinante em sua teoria ao analisar a capacidade individual das crianças em viverem criativamente. Por outro lado, amplia-se a complexidade no campo da observação direta e da investigação indireta, dos “objetos transicionais” que ocorrem na prática de uma exploração clínica efetuada pela avaliação do material clínico em conjunto – sutilezas  vivenciadas pela relação mãe-bebê no processo analítico –  formando significação e sentido com a análise do fenômeno das ações do brincar.
 A criatividade, segundo Winnicott, deve impulsionar o ser humano em toda fase da vida; qualquer pessoa – bebê, criança, adolescente, adulto ou velho – se inclina de maneira saudável para algo ou realiza deliberadamente alguma coisa, desde uma sujeira com fezes ou o prolongar do ato de chorar como fruição de um som musical. O autor, com sua teoria, nos coloca frente ao impulso criativo como sendo algo universal e, com base na psicanálise, postula a ideia, diferenciando criatividade  de criação.  Winnicott  exemplifica o postulado de que a criação pode ser um quadro, uma casa, um jardim, um vestido, um penteado, uma sinfonia ou uma escultura; essas coisas poderiam ser criações (...). A criatividade que me interessa aqui é uma proposição universal. (Winnicott, 1975 p. 99 -100). 
 Com base no impulso criativo “o brincar” não se limita à submissão humana, pois a criatividade ultrapassa o contorno de possíveis barreiras inconscientes. É sabido que, em alguma parte da psique humana, pode ocultar-se uma vida secreta satisfatória com qualidade original e criativa e, que, por outro lado, pode também permanecer uma insatisfação em virtude daquilo que está oculto e que, pela mesma razão, necessita vir à tona. O impulso criativo reflete o instante de expressão primordial da vivência de cada indivíduo, deixando escapar aquilo que seria o objeto de insatisfação. É através da apercepção criativa, mais do que qualquer outra coisa, que o indivíduo sente que a vida é digna de ser vivida.
Através da análise do brincar, constata-se um simbolismo que possibilita à criança transferir não apenas interesses, mas todas as suas fantasias, desde  objetos e ansiedades, além de culpas para outras pessoas. Portanto, o ato de brincar é um processo libertador, possibilitando a criatividade no brincar. Desse modo, podemos pensar que a criatividade seria um viés de sublimação; uma prática comum encontrada pela criança ao colocar suas pulsões à mostra, expostas pela via dos objetos socialmente valorizados.  Nesse contexto, avalia-se a importância do desenvolvimento psíquico e a formação de símbolos analisados por Winnicott, possivelmente, o primeiro pós-freudiano a se debruçar sobre a realidade temática da criatividade, objetivando sistematizar de forma profunda seu objeto de estudo e de análise.
 Durante a análise infantil, os instrumentos e os conteúdos seriam o ato, o belo, o mágico e o criativo, além do processo de significação e de surpresa que se expõem diante da própria criação no setting analítico, produzindo efeitos significativos, aliados à interpretação do analista. "Interpretar fora do amadurecimento do material é doutrinação e produz submissão. Em consequência, a resistência surge da interpretação dada fora da área da superposição do brincar em comum de paciente e analista" (Winnicott).
 Na introdução de O brincar e a realidade (WINNICOTT, 1975), o autor  chama a atenção para um paradoxo, referindo aos fenômenos transicionais e espaços potenciais. Ele lança uma certa crítica aos hábitos e ao   modo de uma cultura que se estabelece em torno da vida dos bebês tais como o uso dos ursinhos e outros objetos, produto de um certo intelectualismo:

Minha contribuição é solicitar que o paradoxo seja aceito, tolerado e respeitado, e não que seja resolvido. Pela fuga para o funcionamento em nível puramente intelectual, é possível solucioná-lo, mas o preço disso é a perda do valor do próprio paradoxo. (WINNICOTT, 1975, p. 10)

Vimos que, para Winnicott,  o ato de brincar é uma atividade onde se manifesta uma ação de liberdade, de criação, tanto da criança, quanto do adulto, ou seja, essa “liberdade” situa-se num espaço que não é nem o da realidade psíquica nem o da realidade externa, mas sim num espaço potencial existente entre a mãe e o bebê - o transicional. Portanto, o brincar e ser criativo no trabalho analítico seriam sinônimos, extensões de um mesmo processo. Brincar como experiência, sempre da ordem criativa, uma experiência na continuidade espaço-tempo. 

Criatividade ou impulso criativo?

 Penso que o impulso criativo esteja presente na ação do arquiteto ao escolher o material necessário para dar forma ao mundo que deseja transformar; assim como, esteja na partitura do músico, através da melodia que deseja atravessar fronteiras e se fazer ouvir pela harmonia universal; esteja também na vida do artista escultor e pintor; pelas mesmas condições de impulsos criativos. Ou seja, os matizes de uma paleta mágica podem colorir a vida de PESSOAS e de coisas. E a vida de pessoas necessita de arte que se pronuncia através de objetos e, desse modo, as formas e os conteúdos  criativos inimagináveis, acrescentados dos processos psicanalíticos vão muito além do que se pode alcançar.

O trabalho de Winnicott nos aponta para esse saber sobre O brincar e a realidade, reafirmando ações, elucidando formas de interatividade psíquica entre objetos e pessoas, mostrando nesse enunciado de registros escritos o universo que se oferece como um amplo argumento de análises e que, sem dúvida, se abre para experiências e vivências, norteando-as sob o olhar da psicanálise observacional ao exigir um rigor sistêmico de leituras.
Visto assim, a experiência do médico-pediatra e psicanalista, nos conduz a uma bela viagem pelo “O brincar e a realidade”, onde o guia, nosso mestre Winnicott, acena para os perigos de uma infância em desenvolvimento inadequado, mostrando-nos o perigo de um labirinto que ronda a vida das crianças e a importância da psiquiatria infantil.

Hoje, como psicanalista e arteterapeuta, refaço meu pensamento ancorando ideias sobre o desenvolvimento da criança e suas implicações na educação, revendo atitudes que possam aliar conceitos de forma lúdica e saudável para um melhor aprendizado.

Assim, a vida e a arte podem juntas se manifestar através do impulso criativo. E sabemos que “Cada um tem o dom de ser capaz”.





[1]W. D. WINNICOTT. O Brincar e a Realidade.

[2]O Brincar e a Realidade. D. W. Winnicott, p.59. Imago EditoraLTDA. Rio de Janeiro

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Para além da Psicanálise: As Marias nossas de cada dia

Professora: Vannda Santana

Revisão: Márcia Vital


Não há civilização sem loucura […] ela acompanha a humanidade por todo lugar que haja imposição de limites”.– Michel Foucault

Entender a loucura para compreender a humanidade ou vice e versa? É nesse lugar de humanidade que se escondem as peripécias do poder social e da desumanização sem limites contra a classe feminina. Estamos exaltando as Marias nossas de cada dia, aquelas mulheres incríveis que sabem ser múltiplas quando necessário.

 Este artigo não trata de questões sobre o feminismo; ele nos leva à reflexão da existência de algumas desigualdades “humanas” que atingiram, em maior parte, a existência das mulheres. O texto é uma proposta reflexiva sobre um conceito literário e mitológico da história, ao comparar a mulher ao mito.

 Entretanto, recorrer ao mito como traço de uma jornada feminina não significa debruçar sobre ideários de discriminação nesta proposta. O texto é uma narrativa sem compromisso de política partidária – não agrega conceitos radicais – ele visa atravessar fronteiras do pensamento humano e atrelar-se à arte como fenômeno literário e de expressão e, sobretudo, apontar para o alvo dos acontecimentos  da história e da cultura em contínua transformação. É nessa ordem de idéias que propomos aqui a leitura sobre a mulher  no seu cotidiano como representante de um tempo. Exaltar a coragem dessas mulheres de assumir o pecado como se fosse um mal e ainda ter a ousadia de transgredir  todo o contexto cultural, o que, aos nossos olhos, parecia andar na contramão civilizatória da história. Não queremos recorrer à Idade Média, muito menos abdicar de conceitos intramuros da existência.

Diante de uma breve reflexão, algumas discordâncias poderão surgir como fluxos de ideias atemporais ao serem analisados os fatos históricos sobre as mulheres e suas ações diante da contemporaneidade. Tal como o título sugere, algumas  mulheres, independente de suas atividades profissionais, assumem, na lida do dia, as Marias necessárias para dar conta da rotina que, nem sempre, cabe numa só mulher. E, não há uma mensuração para dar conta de quantas mulheres seriam necessárias para abrigar uma só Maria. Eis aí a grande loucura  primordial daquela que sabe ser mulher.

 “Ainda que simulem obedecer e optar pelo vanguardismo dos costumes, as mulheres são rebarbativas às inovações. No fundo da sua natureza, há um apelo ao primitivo, ao antigo, ao passado, ao já experimentado e, sob esse aspecto, não há fantasias para elas”[i].

Este escrito, não pretende vir a  ser um relato histórico ou acadêmico. Ele visa compor um espaço literário livre de marcos epocais e  se destina, tão somente, a apontar para um repensar o lugar da mulher na sociedade contemporânea sem a submissão de ser “santa” e sem o estigma de não ser feminina. Pois, é assim que grande parte das mulheres vive como prisioneiras da sociedade. Ao contrário dos mitos, das mulheres de “papel” ficcionais, estamos falando de mulheres reais de carne e osso. Mulheres que fazem de sua vida uma história de vida e arte. Por isso,  toda mulher é uma artista e, por isso mesmo, também, um mito. E a maior de todas as artes escultura-se em cada ação e em cada atributo no fazer de cada uma delas –  um louvor – ao desempenharem com galhardia o seu cotidiano. E elas são múltiplas, são tantas as Marias  nossas de cada dia –  Marias de todas as classes e de todas as cores que colorem os nossos dias com seus vestidos estampados desbotados ou não. Em cada uma, um mito se fazendo valer, ora revelando identidades, ora dominando angústias e sombras para deixar o riso nascer. E eis aí a arte que faz parte do ser de toda mulher.

Carl Gustav Jung (1875-1961), foi um dos primeiros a se dedicar e a encontrar na mitologia uma fonte de conhecimento e de inspiração. O psiquiatra suíço através da psicologia analítica  buscou nas divindades da mitologia grega e em outros mitos religiosos associar características presentes no ser humano tais como: a sabedoria, a coragem, a sensualidade, entre outras qualidades, em maior ou menor grau.

Assim sendo, quando um mito era contado, as pessoas acreditavam nele piamente de coração e alma. E, a partir da escuta, alguns indivíduos passavam a se identificar com certos mitos, encontrando, assim, traços de semelhanças com a sua "própria" história ou de alguém conhecido. Entretanto, somente através das qualidades e da força dos deuses é que os gregos puderam alcançar uma mudança interna que possibilitasse a presença de uma nova atitude, principalmente nas qualidades atribuídas às deusas.

Desse modo, a crença nos mitos se debruçava sobre os muitos atributos humanos encontrados nos deuses gregos, desde um comportamento físico até as reações emocionais e, em muitos, podia-se notar traços na aparência física. Assim, o estudo da mitologia veio nos proporcionar padrões de conhecimentos bastante favoráveis a respeito do comportamento do homem, contribuindo de forma significativa e reflexiva para os estudos simbólicos e psicológicos das atitudes dos homens pela referência simbólica.

Segundo Jung, os atributos dos deuses e deusas continuam presentes em nossas vidas como arquétipos - modelos de comportamentos universais que servem a todas as pessoas. De acordo com certas histórias, os mitos refletem a sabedoria humana, pois são adornados de temas que abordam e fazem parte da herança da humanidade em sua representação de imagens simbólicas. Desse modo, os mitos auxiliam na elaboração e compreensão dos "papéis" sociais desenvolvidos pelos cidadãos – quer seja nos relacionamentos familiares, entre os amigos, no dia a dia do trabalho ou na prática do lazer – o ser humano pode assumir um desses arquétipos em sua estrutura humana e poderá vivenciar  uma certa influência simbólica, não menos significativa de um desses deuses ou deusas, diante de um tipo de relacionamento ou de uma atividade que seja escolhida para ser desempenhada. Assim, os mitos evocam sentimentos e estimulam a imaginação humana, não importa o gênero em questão.

Para agregar novas reflexões arquetípicas sobre algumas mulheres míticas ou bíblicas, deixamos aqui algumas perguntas: o que  conta a Bíblia e o que ela não conta sobre Lilith?  A história de Lilith nos parece que se funde com a história de Eva, porém há evidências de que Lilith tenha sido a primeira mulher. Os escritos cabalísticos e gnósticos informam que Adão foi feito de poeira pura e Lilith de esterco e sedimento. Por não aceitar a submissão, ela fugiu do Éden e foi habitar as sombras, tornando-se, assim, o símbolo do feminino sombrio, da contestação, da não submissão e da rebeldia, da independência e da autossuficiência.

De acordo com o texto Teoria da Conspiração: Lilith a primeira mulher de Adão, há uma  afirmação, onde  autora faz analogia entre os textos sagrados do livro da Bíblia, do Talmude e do Torá, como justificativa de conspiração: 

No primeiro capítulo do livro Gênesis, que faz parte da Torá e da Bíblia, Deus cria “homem e mulher” a sua imagem e semelhança. Mas, logo no capítulo seguinte, somente Adão é mencionado. Onde foi parar a mulher do primeiro capítulo? É só no segundo capítulo que Eva é criada, e no terceiro que recebe seu nome. Essa inconsistência sugere que parte do texto tenha sido editada ou removida. [ii]

Interessante notar a constatação da não presença do nome de Lilith nesses registros sagrados. O que querem eles ocultar? Que padrão de mulher eles querem formar? Uma “santa” de carne e osso com total submissão? Ao desvelar o texto percebemos que há muito mais do que um reino de opressores, há muito mais do  que um simples patriarcado exercendo um tal poder “sagrado” sobre o feminino, onde as mulheres de então parecem ter parte com o “demo” e por isso devem ser castigadas. Desse modo, percebemos que a teoria de que Lilith  tenha sido “apagada da história”  evidenciaria um processo de conspiração ou um erro de edição. Porém, nada foi confirmado até hoje e tudo que temos, segundo essas análises, nos remete simplesmente à figura folclórica de Lilith, como mera suposição e sem credibilidade científica.  

 Ainda, segundo pesquisadores, Lilith já estava lá

O registro mais antigo dessa figura está nas gravuras dos amuletos de Arslan Tash, relíquias que datam do século 7 a.C. Alguns historiadores argumentam ainda que Lilith é mencionada ainda antes, na demonologia suméria do terceiro milênio a.C. Na Épica de Gilgamesh, poema mesopotâmio de 2100 a.C., há uma possível menção a Lilith como demônia. Ou seja,Lilith já era conhecida antes de compilarem o Gênesis, o que reforça a teoria de que foi “apagada da história”.[iii]

No texto citado, discute-se à desmitificação sobre a figura da mulher  que ainda mantém o mito pela tentação de Eva ao fazer Adão comer o fruto proibido, ocasionando, assim, a expulsão de ambos do paraíso.  Sabemos que a partir daí, uma consciência foi estabelecida entre os dois – a diferença de sexo e suas polaridades. Esta polaridade  torna-se clara diante da necessidade de combinação e complementaridade, remetendo-nos à perfeição inicial. Assim, sendo, homens e mulheres estão, por assim dizer, inconscientemente, motivados por essa busca – busca infinita de um pelo outro – visando à totalidade perdida, neste caso, uma espécie de androgenia.

Ao concluir este artigo, considero relevante destacar a importância de uma cumplicidade que se dá entre o autor e o leitor. Ainda que ambos não saboreiem do mesmo prazer estético, da mesma safra filológica e do mesmo símil, ainda assim, a escrita servirá de elo pela “transliteração da fala”.  O texto segue sua senda, composto por palavras que podem atribuir um prazer que derive de um encontro mágico com um significante qualquer ou com a extravagância de algum sentido. É dessa forma que as palavras ganham asas e, através delas, me convenço de que o texto escrito seja um veículo de comunicabilidade entre o escritor e o leitor. Por isso, escrevo pelo prazer da sedução que a palavra exerce. Escrever é mais que um sintoma, é uma “euforia”, enquanto que o ato de ler resulta numa “embriaguez”, consequência da euforia.

Desse modo, ofereço aos meus companheiros de estrada (meus leitores) a minha reflexão.  Compartilho pensamentos, intencionando troca de ideias.  Ao comungar este símil, deixo explícita a pretensão futura de nos encontrarmos pelos caminhos de outras abordagens. Neste “tecido” segue a imaginária malha da subjetividade – a de que a psicanálise seja avessa à compreensão, embora tudo esteja no limiar do desejo.

Fonte:
Saber Fazer com o Real. Diálogos entre Psicanálise e Arte. Organizadores: Marcia Mello de Lima e Marco Antonio Coutinho Jorge. Ed. Companhia de Freud. Editor: José Nazar, 2009
Graça Moura. O Fantástico no Feminino. Edições Rolim, Lisboa 1985.

Nota:


[i] Isabel Alegro de Magalhães. O Tempo das Mulheres. Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa 1987, pag. 207.
[ii] Gabriela Portilho, http://mundoestranho.abril.com.br/religiao/teoria-da-conspiracao-lilith-a-primeira-mulher-de-adao/
[iii] Ibid