quarta-feira, 6 de julho de 2016

Os múltiplos de mim

“Quero para mim o espírito desta frase, transformada a forma para a casar com o que eu sou: Viver não é necessário; o que é necessário é criar.”
(Fernando Pessoa)


Eu e meus escritos e os múltiplos de mim: na poesia, às vezes sou uma jovem quase adolescente, em outros momentos, sou uma senhora recatada e, até certo ponto, às vezes, chata, prolixa, procurando a palavra certa, aquela que melhor se encaixe no verso. Mas não se iludam que termine por aí o arsenal de fantasmas que habitam em mim. Nesta conversa podem até pensar que me revelo; enganos mil. Nenhuma forma retrata o perfil dessas vozes que se fazem passar ao narrar por mim. Enquanto escrevo, uma delas “finge” ser quem sou e o que sou nem eu mesma sei. Sei que, em apenas alguns instantes, uma outra mulher estará presente neste escrito, bem parecida com aquela que você já leu, mas, não é ela. Tal como as águas de um rio que passa veloz mudando sua história, assim sou eu em cada escrito. E não sou eu quem muda e, sim, a própria história.

Diante do computador, olhando a tela, me vem à mente a professora, a terapeuta, a pesquisadora, a mãe dedicada entre outras tantas. Porém, todas questionando sempre às coisas da vida. Mas nem todas tem o mesmo perfil. No mesmo conjunto dessas muitas que sou, existe uma muito forte que, por vezes, divide o mesmo lugar habitado pela a mais fraca ao se deixar vencer pela depressão. Depressão? Sim! Depressão, como algo “sistêmico” como sintomas da modernidade.Graham Greene disse: “Às vezes cogito como é  que todos os que não escrevem, não compõem ou não pintam conseguem escapar da loucura, da melancolia, do pânico inerente à condição humana.”[1] Por isso, escrevo e não se espante com a depressão. Ela pertence àquelas pessoas pensantes, preocupadas com o rumo das coisas e da vida cotidiana. E são elas criaturas sem rosto, porém, diversificadas e de múltiplas castas: ricas e pobres, de variadas profissões, são artistas, são escritoras, são desenhistas e elas são assim, as multifaces de um só fazer. E aqui convivem muitas de mim até que algo aconteça.

 Bem, até aqui só mostrei pedaços dessas múltiplas que já são conhecidas de vocês no gênero da poesia. Mas ainda há muito mais de mim, espalhados pelos meus escritos. Por exemplo, na escrita dos contos existe uma vestimenta peculiar para cada uma das personagens e, como são poucas, posso lhes emprestar uma interessante linguagem e ainda lhe oferecer uma identidade jovem de alma romântica por trocar juras de amor infinitamente. Enquanto que nas crônicas a mesma cena já não acontece e o mesmo se dá nos ensaios, pois aí surge um outro “eu” bem mais crítico e politizado, mais consciente da realidade e nesta hora, exalta-se uma mulher questionadora, ativa; quase engajada nas questões sociais.

E ainda existe um romance, porém, (inédito) e com uma temática bastante surpreendente aparentemente e que nada tem a ver com o que sou e gosto. O romance em questão é carregado de linguagens policialescas, o que contraria a minha forma literária de escrever. No projeto inicial a escrita pretendia vir a ser um objeto de estética social cheio de aventuras juvenis, relatando fatos de um ambiente regional. De repente, ao meio do caminho da escrita, surge uma vertente modificando o tom e o clímax do romance, contrariando o estilo que a minha sensibilização e vocação haviam se emprestado ao texto. A partir desse momento, a escrita passou então a exibir uma linguagem de suspense – recheada de confissões – e isto gerou em mim uma tremenda confusão, levando-me à desistência de continuar escrevendo sobre coisas que não gosto de ver e de sentir. Fiz uma baita força para trabalhar uma narrativa dotada de características leves e emocionais, mas não deu muito certo. Por mais que eu fugisse do rumo da linguagem de crimes mais enrolada, a trama se vestia e se enaltecia de uma convicção tão real, exercendo uma linguagem independente da minha vontade. Então, parei de escrever. Mas, para surpresa minha e, possivelmente, de todos que me leem, não consegui me distanciar da linguagem do crime e da violência. Isto porque eu queria fugir à linguagem policial, pois, sem que eu quisesse, uma força estranha tomava para si o rumo da escrita. Mas fiquem tranquilos. Por saber que foi em vão toda essa tentativa, apossei-me dos conhecimentos literários e tudo que eu pudesse lançar mão para conduzir você, leitor, a esses labirintos que não foram tramados por mim oficialmente, mas que nele conterá uma surpresa agradável, para isso bastará lê-lo até o fim. Entretanto, certa de que a escrita teria de convencer, através das ações propostas com seus elementos que caracterizariam os tipos de personagens, tentei  buscar uma saída que me levasse a transitar mais confortavelmente pela obra: coloquei na boca de uma personagem, palavras da poesia, exaltando uma poeta muito à frente de seu tempo (eis um outro livro, dentro do livro). Claro que não foi fácil.

De acordo com tal visão, delimitei os fatos do dia a dia, compatíveis com a do cenário explícito demograficamente, para abrigar o enredo e a trama do romance. Assim, desse modo, não pude mudar o clímax de suspense da narrativa, mas pude dar ao romance uma nova energia e fazer o texto obedecer à voz que narrava os poemas. Agora, deixo você  leitor, fazer suas próprias descobertas ao longo da história junto com cada personagem.

Iniciei este escrito para falar dos múltiplos de mim. Assim sendo, quer sejam na poesia, no conto ou nas crônicas, a linguagem sempre será única naquele instante, tal como as águas de um rio. De acordo com Heráclito Não cruzarás o mesmo rio duas vezes, porque outras são as águas que correm nele. Desse modo, vive a “população” dos meus escritos, perpetuando-se e se fazendo significar naquilo que produz durante a sua transição. E ainda segundo Heráclito: Tudo flui, nada persiste nem permanece o mesmo. Portanto, não se surpreendam se por acaso uma senhorinha bem velhinha se apresentar como uma jovem e,  num outro momento, a mesma “criatura” parecer mais idosa e agir de tal forma que venha a ser uma criança. Não se trata de senilidade, nem insanidade – isto é arte e, portanto, as recebam todas com suas aventuras – pois, em cada uma, há um todo e em todas elas estarão presentes um pedaço de mim, compartilhando emoções e semelhanças.

 Demonstrei até aqui o mundo criativo que existe em cada escritor. Um certo modo de “confessar”, tal como a temática do meu romance –  confissões, onde a protagonista faz alusão à narrativa para os atos de confessar. Esses momentos de criação podem até parecer repetitivos, pois fazem parte da arte de escrever e não importa o quê.  Daí, a necessidade de ser múltiplos, de comungar verdades e mentiras, de ser o rei ou a rainha, de viver o amor ou a decepção. E, assim, ser mil em um ao exibir possíveis cenas de convivências, de comunhão e de hábitos em suas diversidades.

Eis aqui uma dúzia de mim esperando por outras oportunidades para se multiplicar em tantas mais: criança, adolescente, jovem, madura, meia idade e velha, porém, feliz.


[1] SOLOMON, Andrew. O demônio do meio-dia: Uma anatomia da depressão. Rio de Janeiro; Objetiva, 2002, p. 12.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

A SIBIPIRUNA


A SIBIPIRUNA:

 um dia de silêncio e luto na Serra

(para nós do bairro Quitandinha)

 


Professora: Vannda Santana

 

Hoje, uma bela e esguia árvore chamada Sibipiruna teve sua morte decretada na agenda de uma evolução empresarial. Uma árvore, vítima da insensibilidade humana, foi, assim, brutalmente arrancada pela raiz de sua seiva viva por uma retro-escavadeira assassina que a fez tombar sobre o chão com seus grandes galhos de verdes folhas ao serem extirpados. E, logo em seguida, em seu lugar, abriu-se uma enorme cratera onde parece sucumbir um vazio silenciado, deixado no ar e no espaço. A cratera agora sangra, literalmente a olhos nus, nos mostrando o tamanho da violência que, sem conta, sem preço, se processa contra a natureza.

 Assistimos a todo este ato com muito sofrimento e nada do que fizemos, foi mais forte que o aviltamento. Tentamos reagir para impedir que a árvore fosse retirada, mas não tínhamos poder superior que pudesse nos representar perante aquele cenário tão previamente arquitetado. Pedimos, então, a voz e a força da Associação dos moradores que, prontamente, atendeu a nossa solicitação, se apresentando dignamente pela pessoa de nossa amiga Liliana que, imediatamente, se dirigiu até o local. Porém, lá chegando, veio ao seu encontro um cavalheiro, operário altamente significante, trazendo em suas mãos “uma folha de papel” e apresentou à nossa amiga com toda a sua finesse. Esta “folha” certificava a autorização à retirada da árvore. Sem argumentos, nossa representante se retira meio decepcionada diante do fato consumado. Então, só nos restou a triste sina em ter que  assistir como cúmplices àquilo que para nós parecia ser um crime ambiental. Leigos que somos até certo ponto em assuntos ecológicos e de ecossistema, acreditamos que a “folha de papel” tinha mais valia documental, por aferir valor de autorização ao crime do que a nossa vontade de fazer prevalecer o belo espetáculo que a Sibipiruna  nos reservava para o mês de setembro: um florescer em ouro. E  agora só nos resta assistir de pé o que não mais poderemos ver, uma vez que a pobre árvore tenha sido derrubada.

 Todos nós ficamos um pouco órfãos com o luto que nos coube sentir, lamentando a cena que ficará para sempre marcada em nossas memórias. Pois, diante do episódio, nada parecia deter tamanha fúria da máquina-assassina. Diante do feito, e de posse da frustração pela ação do homem, nos restou a impotência de nossas vozes ao implorar, apelando pela vida da árvore, certos de que nada tenha valido perante o fato, calamos com certeza  do sentimento de não sermos ouvidos, mas certos de termos feito aquilo que nos cabia no momento.

 Obrigada Liliana! Valeu sim o seu empenho a nosso favor. Sabemos que fez mais do que podia ao exercer como cidadã tal compromisso social. Estamos certos que a tristeza que nos abate neste momento é um tanto sua também, pois ela tem o caráter da verdadeira indignação pela invalidez do significado maior que tinha como objetivo salvar a Sibipiruna. Mas isto não irá nos calar nem tão pouco nos singularizar. A razão nos diz que seremos justos e que cumpriremos com os nossos deveres de cidadãos, ainda  que nossas atitudes não falem mais alto. Mas a nossa consciência não dorme e nos ensina defender a vida mesmo quando o propósito parece ser impossível.

 Ficamos com os ruídos que se podem ouvir agora: a mesma máquina assassina parece (gemer) sem parar, preparando o solo para um outro “semear” – um pedaço de chão está sendo burilado para dar lugar ao mais novo comércio de carros.

 Mesmo que esse novo espaço, que por si só, já se contradiz às mais nobres funções ecológicas, pensamos serem os empresários também filhos e irmãos habitando o mesmo planeta, o mesmo verde da planta, tão necessários para todos nós. Assim, desse modo,  penso que se trocam a seiva e o verde tão importantes para a vida de homens e pássaros, pelos “futuros pulmões” humanos com possíveis enfisemas. Em breve, a cratera deixada será um espetaculoso pátio “colorido” (não de flores) mas repleto de agentes poluentes.

 Eis a evolução dos tempos modernos que chega aos centros urbanos e avança até os confins do sem-limite e do sem-medir-conseqüências. Isto é bom? Sim, sem dúvida. Mas, talvez, pudéssemos poupar algumas espécies da natureza de sua extinção tão abrupta. Não me expresso contra o processo de evolução. Minha indignação se dá pelo desrespeito que este progresso impõe contra ao ambiente e, notoriamente, exacerbando a insensibilidade de alguns.

 Quero deixar explicitado neste relato que não tenho nada contra os carros, pois eles são necessários à vida urbana do cotidiano. E mais ainda, não tenho nada contra os empresários, pois eles fazem da vida todo esse fluir em movimentos dinâmicos para gerar  mais e mais empregos.


 Porém, é meu este lamento, é meu este grito que silencio. Neste lamento, deságua em meu peito uma tristeza profunda que se faz notar pela ausência de alguns pássaros que terão de buscar outros abrigos mais distantes. Este é um silêncio tingido pela bruma fina e fria a qual se faz encorpar de um branco embaçado que mais parece comungar com aqueles que agora choram como eu, pelo silêncio cenográfico que se espalha pelo chão e, sem medida atinge a atmosfera  e o espaço geográfico.


Este é o desenho da minha dor. Defino aqui o meu vazio; o vazio deixado impunemente e que os meus olhos tiveram o desprazer de assistir. Lamento, sim, o olhar do bairro e dos transeuntes que por ali irão passar e  não mais hão de ver o deslumbramento de uma florada em festa. Por último, lamento sim, pelos que ainda irão passar e, simplesmente, não mais poderão ver e nem mais ouvir o alarido do cantar dos pássaros na algazarra pelas flores. Lamento pela ausência do néctar das flores amarelas, pela ausência das borboletas sobrevoando e pousando na minha janela. Lamento ainda, os dias mais amarelos na falta do sol que somente a Sibipiruna tão bem sabia representar com sua veste coberta de flores cor de ouro.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

A inocência poética nas palavras: "Exercícios de Ser Criança" de Manoel de Barros

A inocência poética nas palavras:“Exercícios de ser Criança” de Manoel de Barros



O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras. E começou a fazer peraltagens.Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro  botando ponto no final da frase.Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
Manoel de Barros


O Exercício de Ser Criança de Manoel de Barros apresenta poemas narrativos que contam duas histórias: "O menino que carregava água na peneira" e "A menina avoada". O livro tem como introdução para essas duas histórias um poema que trata do absurdo e dos despropósitos como matéria própria da poesia. Exercício de ser Criança deve ser lido por qualquer indivíduo e em todas as idades, “um exercício de metalinguagem” onde a poesia se comunica com as coisas da natureza, nos transmitindo emoções através da palavra-poética ao mesmo instante que nos leva à reflexão para o “ser” de ser da criança em sua pureza e singularidade, explorando todos os sentidos naquilo que se pode ver, ouvir e sentir.

Por que o tema?

Nada mais além de um simples encantamento pela palavra: da palavra escrita,  não somente como função do dizer, mas do sentir; da palavra como força no poema e pela capacidade de fecundar sonhos e devaneios; da palavra como construtora de símbolos e de imagens expressivas. Assim é o livro, Exercícios de Ser Criança. Nesta obra o autor coloca em relevo uma riqueza de formas e conteúdos e, simultaneamente, aproxima a inventividade polissêmica de um processo de arrebatamento da língua literária através da poesia com suas rimas, ritmos, sonoridades e ressonâncias, despertando em cada leitor, adulto ou criança, seus múltiplos sentidos para além da fantasia, aflorando a percepção sensorial e a sensibilidade, onde o som das palavras, com sua doce melodia, nos conduz ao inimaginável.   Ler Manoel de Barros é revisitar a nossa criança interna, é possibilitar um retorno à infância, matriz da  inocência, onde repousa o imaginário de cada ser humano ou, ainda, um convite para fazer emergir o melhor que há em cada um de nós. Lembrando o que disse Antonio Cândido: “A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante.”[1]


E, na palavra do poeta, um pouco de poesia:

No aeroporto o menino perguntou:
- E se o avião tropicar num passarinho?
O pai ficou torto e não respondeu.
O menino perguntou de novo:
- E se o avião tropicar num passarinho triste?
A mãe teve ternuras e pensou:
Será que os absurdos não são as maiores virtudes da poesia?
Será que os despropósitos não são mais carregados
de poesia do que o bom senso?
Ao sair do sufoco o pai refletiu:
Com certeza, a liberdade e a poesia a gente aprende com as crianças.
E ficou sendo.


A mãe teve ternuras e pensou: / Será que os absurdos não são as maiores virtudes da poesia? Quero afirmar que sim. As palavras  da poesia de Manoel de Barros atravessam o tempo e o imaginário da escrita e nos envolvem no enlevo palatal de cada verso; e em cada verso, uma imagem além do retorno às lembranças da infância. Acredito nas  palavras que transformam e tocam o sensível como na expressão do afeto maternal: “A mãe teve ternuras” (...) Será que os despropósitos não são mais carregados de poesia do que de bom senso?”.  E desse modo, o verso faz seu avesso, faz até a palavra fazer  peraltagens: “O menino aprendeu a usar as palavras. Viu que podia fazer peraltagens com as palavras. (...) Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro botando ponto no final da frase.
 E o que falar da palavra..., ela constrói mas também destrói, cria  pontes invisíveis com  letras feitas de som; letras feitas de imagens e, com palavras simbólicas enfeita-se o universo daqueles que se rendem à poesia.
E a poesia conta história, realiza sentidos, cumpre seu dever social: anuncia ou denuncia fatos, aglutina multidões e basta deixar a palavra falar, pois a leitura trabalha no silêncio do discurso fielmente, conduzindo-nos a um viajar pelas entrelinhas do verso. Nas palavras da poesia de Manoel de Barros até um vento pode ser roubado: “A mãe disse/ que carregar água na peneira/ Era o mesmo que roubar um vento e sair correndo com ele para mostrar aos irmãos. Nesse sentido de movimento, o poema mostra leveza no sabor dos dribles reais, subordinação de uma reinvenção que atravessa a palavra para dar forma e asas ao corpo da poesia.   E, é desse modo, que se seguem as palavras: ora vestindo a imagem e ora oferecendo sopro e alma aos conteúdos da ação dos poemas.

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
Que carregava água na peneira.
A mãe disse
Que carregar água na peneira
Era o mesmo que roubar um vento e sair
Correndo com ele para mostrar aos irmãos.


As palavras cumprem seu papel – O menino que carregava água na peneira e A menina avoada –  nos fazem mergulhar  no imaginário infantil e, ao mesmo tempo, nos revelar todo um lirismo que está por trás daquilo que podemos dizer ser a inocência que cabe na poesia.  E é com essa inocência colorida de lembranças da infância que o escritor tinge as palavras e as torna mais ricas em sua travessia através da linguagem poética.

Para reafirmar o exercício da escrita, trago à tona as palavras de Marguerite Duras: Escrever, essa foi a única coisa que habitou minha vida e a encantou. Eu o fiz. A escrita não me abandonou nunca.[2] A função do escriba se abre em possibilidades como produto de linguagem, sobretudo, como reflexão da criação literária, resultado e testemunho de um processo social como porta-voz de cultura. Como afirma o autor Manoel de Barros “ É preciso transver o mundo. A razão nos descompleta.” (do livro Sobre o Nada)

A literatura é uma arte que se revela nas coisas vistas, sabidas ou intuídas, além de apresentar encantamentos ela é representação de múltiplas faces do cotidiano. Os discursos literários se manifestam como estratégias de possibilidades e de experiências que podem ser apreendidos através da prática da leitura e essa é uma das funções de grande relevância e mais representativa da sociedade. Através da leitura o homem se reconhece no mundo, amplia seu dever de cidadão, concebe os bons exemplos de ética,  não só pela função de ler mas também no ato de escrever. Escrever denota compromissos, sobretudo, pelo cumprimento do dever social que o intelectual assume com a sociedade. Diante dessa concepção, o escritor procura desempenhar tal responsabilidade de “ser um indivíduo dotado de uma vocação para representar, dar corpo e articular uma mensagem, um ponto de vista, uma atitude, filosofia ou opinião para um público.”[3]


Amigos leitores, eu li Exercícios de Ser Criança e me permiti viajar na fantasia de ser feliz com poesias, porque gosto das palavras. E A única palavra que me devora é aquela que meu coração não diz[4].





[1] CANDIDO, Antonio. A Educação pela Noite. Rio de Janeiro, Ouro sobre Azul, 2006.

[2] DURAS, Marguerite. Escrever. Tradução de Rubens Figueiredo, Rio de Janeiro, Rocco, 1994.
[3] SAID, Edward W. Representações do intelectual: As Conferências Reith de 1993. Tradução de Milton Hatoum, São Paulo, Companhia das Letras, s.d.
[4] Sueli Costa e Abel silva, “Jura Secreta”

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

O FOG MODIFICANDO IMAGENS E ALTERANDO EMOÇÕES


O Fog modificando imagens e alterando emoções




O Fog, tal como um personagem em ação, veste o dia com suas espessas franjas brancas e  navega entre montanhas e vales  no sabor do vento. E o Fog vibra com  suas diáfanas cortinas  que bailam em movimento: se faz de “arteiro” do tempo e tolda a nossa visão; modifica o cenário de bairros e lugares, veste de branca névoa, imagens de  árvores e casas. Enquanto dura essa façanha, empresta aos nossos pobres olhos em segundos, um novo cenário para  um outro vislumbrar.


Vannda Santana


“Se fossemos verdadeiros peritos em climatologia, se conhecêssemos verdadeiramente os sutis mecanismos do tempo atmosférico, saberíamos que a influência do homem sobre o clima é um tema tão antigo como a própria humanidade.”[1]

As emoções compõem os sentimentos do homem ao longo de sua história e exercem um poder mágico nas relações sociais e individuais. Portanto, as emoções parecem receber  influências geográficas de tempo e clima, interagindo-os às percepções afetivas de espaço e lugar, modificando comportamentos emocionais e de humores. E o Fog? Este nos parece ser o grande “vilão” dessa estória. Com seus pincéis  e paletas invisíveis, vai “pintando” o cenário  da natureza, modificando imagens e paisagens, colocando brancas cortinas de vapores nas casas e nos telhados, nos campos e nas árvores. O Fog? Também brinca de esconde-esconde a qualquer hora da noite ou do dia.

Segundo estudiosos de climatologia e meteorologia dizem que o tempo corresponde às condições atmosféricas existentes num dado momento e numa dada região e, enquanto o clima, corresponde às condições atmosféricas médias em relação a sua variação ao longo do ano numa dada região. E isto quer dizer que o tempo traduz um estado atual da atmosfera, ao passo que o clima representa um estado médio da atmosfera. Como o Clima resulta, em última análise, de uma sucessão de estados de tempo, pode-se defini-lo melhor como sendo “a sucessão mais frequente dos diversos estados de tempo ao longo do ano”.[2]

Partindo do empréstimo dessa leitura sobre o tempo e o clima podemos rever a história do homem num determinado tempo e a sua relação climática com as variáveis de emoções. Pode parecer utopia relacionar estado psíquico com o estado físico por estar num determinado lugar sob os efeitos de acontecimentos externos da natureza. Mas sabemos que esses eventos de transição naturais podem causar predisposição para desenvolver certos tipos de doenças de situações sazonais climáticas e diversas. Assim, temos uma relação com o desencadear de sintomas que propiciam o estado de tristezas ou de alegrias e, dessa forma, ao serem afetados por tais influências, o corpo refletirá o clima e a psique, o estado do tempo  e do lugar.

É comum sentirmos uma sensação de bem-estar quando percebemos um lindo dia de sol. E é mais comum ainda vermos as flores exuberantes de um jardim num dia de chuva. Mas é extremamente comum vibrarmos com as crianças nas águas frias de uma cachoeira num dia de extremo calor. Entretanto, todas essas reações passam pelo efeito do olhar e do sentir essas alternâncias de tempo e de lugar com suas regulações climáticas.

Talvez, este seja um estudo que mereça maior observação do estado de emoção, modificado pelo efeito do clima com as variáveis do tempo. Esses dados de interferências de comportamentos específicos e de influências da natureza que atingem o emocional do individuo requer maior atenção e não é a nossa proposta neste artigo. Apenas para ilustrar nosso ensaio sobre essas reações climáticas que tomam conta do corpo e da psique do ser humano, lembro-me de um caso de uma moradora de Petrópolis que dizia ter três meses de criação cultural, três meses para plantação e os demais meses para viver a depressão. Perguntado a ela qual era a causa dessa depressão, ela responde de imediato: acordar sem sol é quase comum, com chuva também, mas com fog por vários dias reforça em nós a idéia de solidão, de um vazio infinito, de um exílio coletivo onde o outro não é visto, sequer sentido, apenas imagina-se que ali estaria esse outro ou uma casa com pessoas, mas que os olhos não conseguem ver.

 Entender esse tipo de solidão como “sintoma” de depressão não é uma afirmativa. Mas sabemos que é uma característica de lugares frios esse fenômeno climático. Porém, o que nos remete para esse lugar é a possibilidade de um olhar menos banalizado sobre a questão da depressão, sem ter de passar pelo rótulo de doença sazonal ou então, pela crise da introspecção que os diversos sintomas aparentes sugerem. Entretanto, as emoções causadas pelo Fog, surgem provenientes de uma situação climática, sinalizando uma predisposição (boa ou ruim) em pessoas sensíveis, causando alegrias ou tristezas e, às vezes, uma introspecção, como estado de solidão. Portanto, podemos até dizer que se trata de uma “solidão coletiva” vivenciada pela invisibilidade desse “outro”, de um “outro” que se encontra por trás de uma janela fechada. Ou ainda, camuflado dentro de uma nuvem branca e diáfana.

   O estado emocional de estar num determinado lugar, num tempo qualquer, corresponde a uma situação que aparentemente nada tem a ver com a situação da meteorologia  existente numa dada região. Entretanto, quando se faz um passeio por regiões de serras montanhosas com seus riachos contornando os relevos, nos faz contemplar belas pastagens eleva nosso olhar para um vislumbrar o mais pleno estado de alma o que nos permite fantasiar emoções ao emitir em nosso corpo sinais ópticos que são transformados em fenômenos químicos formando uma rede axônios de neurônios de felicidades por viver aquele momento paradisíaco como se fosse único. Esse complexo emocional, passa pelos órgãos da percepção e os estímulos sensoriais respondem pela  mensagem que tem como significado a emoção. Segundo (DELGADO) existem várias formas de emoções e muitas reações emocionais e, para ele, nem todas requerem compreensão,  assim, afirma o autor:

As emoções são usualmente determinadas por uma combinação de percepção e lembrança, porquanto a interpretação dos sinais recebidos depende em grande escala das experiências passadas e a lembrança é muitas vezes iniciada e modificada por estímulos ambientais.[3]

Voltando ao tema que deu origem a este texto – O Fog modificando imagens e alterando emoções – caracteriza-se para além dos elementos meteorológicos com seus estímulos externos, o que nos chamou à atenção, debruça-se  para as reações físicas e psíquicas de estímulo perceptivo. Dessa mera observação, surge a indagação como possibilidade de investigação fenomenológica das emoções: quais desses elementos da natureza teria maior incidência sobre a geografia das emoções: o tempo ou o clima? Talvez, esse seja o maior mistério e de maior dificuldade para fundamentar futuras pesquisas, o que não é o nosso objetivo neste artigo. Fica aqui apenas sugestões,  cuidar em amenizar a dor da alma humana que sofre e sente depois do corpo revelar-se em sintomas depressivos e nostálgicos.

Para melhor esclarecer as diferenças conceituais entre a depressão e um momento depressivo por depressão normal seria necessário comparar a diferença que há entre clima e tempo. Clima e tempo não são a mesma coisa. O tempo é representado pelas condições atmosféricas de um lugar em determinado momento. Já o clima é a sucessão habitual de tipos de tempo em um local na superfície da Terra. O tempo pode mudar de uma hora para outra, enquanto o clima é mais duradouro, não muda com tanta facilidade. O estudo do clima inclui o conhecimento de elementos importantes, como temperatura, umidade, massas de ar, pressão, ventos e precipitações. O tipo de clima depende de uma série de fatores, como latitude, altitude, relevo, distribuição das terras e dos mares, radiação solar etc. Sabemos que até mesmo o ser humano pode alterar o clima com suas interferências na natureza.


 Portanto, nessa pequena demonstração estaria o clima – como estado de humor – e o tempo – como fator de variações. Neste caso, um paciente deprimido teria dias melhores ou piores enquanto que em ambos os dias, qualquer pessoa poderia ter suas tormentas: ora com dias ensolarados, ora com chuvas e trovoadas. Portanto, comparar as fases  de um baixo astral com o estado de depressão, seria um grave erro e não estaríamos falando da mesma coisa. Ninguém pode afirmar o que um deprimido sente, só ele mesmo. O psicanalista ou o psiquiatra podem até reconhecer os sintomas de seu paciente, mas jamais saberão entender na íntegra o que representam esses estados de sentimentos e sofrimento no corpo e na alma desse ser humano.[4]

               
Uma pessoa deprimida precisa de sol e o papel da atmosfera é fator determinante. Quando o céu está claro os raios solares nos atinge com maior  quantidade de calor, fixando em nossos corpos a vitamina D, elemento de grande importância em nossas vidas.  Com o céu nublado, tudo parece escurecer, até o interior da casa e dos corpos ficam mais frios e escuros. A falta de exposição à luz solar, em caso extremo, pode levar a esse tipo de depressão já falado anteriormente e conhecido como Depressão Afetiva Sazonal (Seasonal Affective Disorder -SAD). Esse tipo de depressão foi reconhecido pela primeira vez pelos cientistas do Instituto Nacional de Saúde Mental dos EUA em Bethesda, Maryland, nos anos oitenta. Em 1987, a depressão afetiva sazonal também foi reconhecida como um tipo de depressão pela Associação Psiquiátrica Americana, que desenvolveu um diagnóstico específico para o problema. A doença atinge homens e mulheres de todas as raças e idades, inclusive crianças, mas a tendência é que mais mulheres do que homens sejam afetadas. Pesquisas revelam que há quatro mulheres para cada homem com depressão sazonal. Quanto mais longe da linha do Equador a pessoa viver, mais chances terá de sofrer de depressão sazonal.



Os sintomas mais comuns de depressão sazonal são:


>alterações drásticas de peso e apetite

>baixo nível de energia física
>exaustão e fraqueza
>insônia ou sono prolongado
>isolamento
>letargia
>ansiedade, desespero, carência
>falta de interesse pelas tarefas do cotidiano
>pouco ou nenhum apetite sexual
>falta de concentração e raciocínio lento
>incapacidade de tomar decisões
>sentimento de culpa
>auto-flagelação e fatalismo
>ataques de choro, angústia, pensamentos suicidas


À guisa de conclusão, informamos que os sintomas com alterações climáticas e  com predisposição à reação psicofísica foram meras observações de convivências com pessoas moradoras da cidade de Petrópolis no período de  1998 a 2004.  Além dessa observação, na qual se apoiou este escrito, outras fontes deverão ser consultadas.






[1] Aguiar, João (2002): Que Tempos!, In :Super Interessante nº 45.
[2] http://profjeferson1.blogspot.com/2008/09/os-climas-da-terra.html
[3] José M. R. DELGADO. Emoções. Editora da Universidade de São Paulo – Livraria José Olympio Editora, p. 32.
[4] http://www.klickeducacao.com.br/materia/16/display/0,5912,POR-16-44-630-,00.html

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Lendas e "Causos" - Erotildes e o Sabugo de Milho


LENDAS E “CAUSOS”

Erotildes e o sabugo de milho

Uma história dentro das histórias da coletividade humana

 

 

“Lenda que se difundiu e vive nos lábios do povo, jamais morre, porque é deusa imortal.”

(Hesíodo, 736)

 

 

Lendas e “causos” sempre povoaram a memória coletiva da humanidade com suas peripécias coloridas e, às vezes, adornadas por um certo mistério. Relatos primitivos com recheio de frases e linguagens ritmadas, concisos em sua forma de representação, possuíam uma fórmula verbal que os caracterizavam: “era uma vez” . Assim era o verbete em quase todas as canções e versos como sustentação da oralidade. Talvez, pela falta de consciência do próprio ser em relação ao tempo, nem todos os relatos tiveram registro em suas escrituras, e o que nos chega ao conhecimento se fundamenta na oralidade popular.

 Historicamente, são essas concepções e ações que irão nortear o imaginário humano. Ouvir uma história é vive-la; e deixar-se impregnar por tais influências é um dos caminhos para se ampliar a consciência. Os relatos primitivos do pensamento filosófico desde a Antiga Grécia até os dias atuais percorreram toda a tradição desde Platão. Com o avanço da escrita através dos séculos, uma marca histórica desse pensamento ocidental aproxima a linguagem oral da linguagem escrita, assinalando, assim, um trânsito de existência cultural inscrita no inconsciente de cada sociedade. Essa evolução acontece pela urgência de expressão e esta só se realiza  quando a experiência se totaliza e se completa através dos arquétipos e de elementos, tais como o mito, a religião, o sagrado e o profano. Esses elementos arquetípicos ao apropriar-se do pensamento e da imaginação, cedem lugar às tramas e teias da consciência humana, num movimento de fantasia e de verdadeira expressividade, tanto na forma de exaltar, como na de cultuar a existência ao apropriar-se das imagens da natureza.

 

Do longínquo passado, resta-nos a maravilhosa tradição com vestígios de antigos mitos, de celebrações sobre divindades, de experiências religiosas e culturais. E é a partir dessas experiências, entre a imaginação e a realidade de mundos tão distantes, que surge um ponto comum na história dos povos - o poder criativo e imaginativo, fantasiando e criando estórias. Diz Nicolescu que a imaginação verdadeira engendra assim a realidade, num contínuo brotar, numa perpétua gênese.[1] Sobre a imaginação, Pierre Deghaye afirma ser a faculdade de produzir imagens. E entre a fantasia e a realidade, estão os registros imaginários, quer sejam na escrita do real ou na ficção com suas imagens. Mas é dessa imaginação verdadeira que, de certa forma, também pude resgatar heranças culturais que hoje, neste relato, exponho a estória de Eroltildes.

 

 Esse legado da história de hábitos, costumes e crenças da humanidade, atravessou o tempo e participa da memória contemporânea desde os mais antigos povos. Portanto, é possível ler o passado através dos tempos e é possível compreender o presente naquilo que se ouve das variadas etnias de grupos sociais com seus ritos culturais conservadores. Desse modo, as Lendas se fundem com os Causos que, a partir de então, passam a ser fato comum ou história do cotidiano de cada povo e não importa a sua origem.

E aqui vai o “causo” de Erotildes e o sabugo de milho – uma estória dentro da história – um acontecimento real. O episódio se desenvolve delineando-se através de imagens engendradas no inconsciente familiar e é desse modo que a narrativa ganha status de conto: uma realidade tingida de fantasia literária no frescor dos dias atuais. Encontrei na linguagem natural dos meus familiares os elementos que conduzirão o motivo do fato real ao objeto central da estória. Quando me propus a escrever o que aconteceu com a menina Erotildes, pensei ser possível descrever os fatos  sem ter que maquiar certas figuras de linguagem. Porém, a força da palavra tenta impingir sua ação aos elementos da narração. Fiz, então, uma breve retrospectiva da árvore genealógica em busca dos costumes caseiros pautados na realidade de suas vidas; o instante onde surge a estória real e o momento quando ela passa a ser recontada com mero requinte entre as antíteses e os paradoxos, resultando em hipérboles no processo do reinventar. Mas não é isto que se diz: quem conta um conto aumenta um ponto? Aqui, o causo não poderia ser diferente.

 E foi assim, vivenciando essas estórias tão reais e algumas supostamente imaginárias, mas narradas pelos meus antepassados que ousei atrever-me a exercer tal função neste escrito. Essas marcas do real estão, por assim dizer aqui  recheadas de “enigmas” e ainda falam de um tempo marcado por faltas elementares, de uma época sem rádio, sem televisão e sem livros, mas amalgamados por infinitas fantasias em minha mente. E é dessa trama extraída do real, que proponho escrever este conto, ora resvalando na ficção imaginária, ora tecendo o fio da trama nos fatos reais, que foram contados por minha avó, mãe e tias. Se você leitor quiser saber mais sobre o que aconteceu com Erotildes e o Sabugo de Milho, vai ter de seguir comigo até um lugar chamado Queima Sangue, em Paraíba do Sul. Então, vamos lá.

Primeiro ato:

Era uma vez uma menininha muito loirinha igualmente sapequinha, de corpo franzino, de pés descalços e de vestidos rodados, rodopiava cirandas no chão de barro pisado. Foi então, quando, inesperadamente, escorregou no sabugo de milho e de fato caiu, fraturando o ilíaco.

Segundo ato:

Entra em cena dona Hercília, mãe da menina Erotildes, senhora de um currículo invejável, mateira, raizeira, rezadeira, parteira, entre muitas outras habilidades. Hercília, como o próprio nome indica, significa orvalho ou seja, senhora da “natureza”. E ela era assim: razão-e-ação em suas atitudes, obedecendo sempre aos seus instintos numa relação  íntima com a natureza.  Das muitas virtudes dessa mulher incrível que foi minha avó, algumas transbordam em sua sabedoria natural, outras atitudes acompanham a grande capacidade de tudo resolver com aparente serenidade, muita intuição e uma inigualável coragem sem distinção. Do pouco contato que tive com ela na minha infância, nada melhor e mais eficaz que ouvir o ressoar das vozes sobre os seus feitos. E a prova significativa de sua obra ficou para sempre marcada no corpo de sua filha Erotildes. Acredito que nenhuma outra mãe teria vivenciado tal dissabor com a relevância de saber colocar de lado a sua própria tensão e angústia e, assim, agir com naturalidade e aparente frieza, coragem e qualidades necessárias naquele instante decisivo. Portanto, esse era um dos seus maiores quesitos: ousadia.

 Minha avó Hercília era fisicamente magra, morena, cabocla brejeira, estatura mediana, mais para alta; além de leve e lépida feito um azougue, tinha no olhar um aspecto desconfiado. Neste breve intróito, quero destacar que, apesar do meu pouco contato com essa avó índia na origem e nos hábitos, severa nos costumes e decidida ao extremo tanto na forma de ser, como no modo de viver e de ver a vida existe algo que nos aproxima. Entre mim e minha avó, apesar de não haver muitas semelhanças, de repente, salta do íntimo um ponto comum de grande convergência.  Na aparência física nada nos aproxima, mas no modo de ser há qualquer coisa desse nada que nos une em nosso DNA e talvez residam na genética os traços mais ancestrais. Desses registros, a intuição é uma marca singular. Mas o que realmente predomina é o nosso interesse comum (meu e dela) pelas coisas da natureza, pelo conhecimento das ervas medicinais com o seu encanto e seu poder de cura. Haja vista a minha vocação profissional a qual dedico todo o meu tempo em pesquisas constantes como terapeuta. Desses registros, a intuição é uma marca singular. Dos atributos herdados de minha avó, esta foi a minha herança.

 

Eu era ainda menina quando passei a ouvir, pelos cantos da casa, a história da tia Erotildes. Como qualquer criança, não me faltava curiosidade. Ficar, portanto, de ouvidos atentos aos assuntos e aos feitos de minha avó Hercília era algo instigante. À medida que o tempo passava, crescia em mim um maior interesse pelo caso da menina Erotildes (minha tia). Um dia fiz minha mãe contar a estória várias vezes seguidas. Quanto mais minha mãe recontava a estória, maior minha avó se tornava diante dos meus sentidos, mas, curiosamente, quanto mais sua figura impar  ganhava uma dimensão imensa sobre seus feitos, mais distante ela ficava dos meus olhos, tal como um ídolo intocável.  No desenrolar da estória ela era um mito real que se estruturava em minha cabeça. Dona Hercília, figura mítica, uma espécie de deusa – quase inatingível. Aí, eu cresci (não muito) e estou aqui contando esta estória para você.

 

Erotildes, a filha de dona Hercília, que deu origem a este conto, carrega a marca de uma saga heroica – vencer não somente a dor, mas o desajuste que o acidente lhe traria com o tempo e em seguida o resultado como causa e consequência. E é nesse momento que a estória perde seu e minúsculo para ganhar um H maiúsculo – uma verdadeira “História” – passaporte para entrar em ação.

Terceiro ato:

Tinha a menina seis anos de idade quando o episódio aconteceu. Como toda criança saudável, corria ela livremente pelas terras do sítio quando, inexplicavelmente, sem que nada impedisse sua jornada olímpica, pisou numa espiga de milho, tropeçou, escorregou e caiu, ficando lá, estendida no chão, sem poder se levantar. Foi aí que minha avó entrou em ação: pegou a filha no colo, calmamente, a levou com todo o jeito e a colocou sobre a cama para uma breve “examinada”, apalpando-a com dedos intuitivos, à procura de saber o que teria acontecido com a menina. Imediatamente, percebendo a gravidade daquele tombo, a mateira dona Hercília não hesitou em dar ouvidos à intuição, pernas à razão e asas à direção da maior de todas as ações: embrenhou-se mata adentro em busca da solução.

 

Dona Hercília era conhecida nas redondezas como a maior de todas as curandeiras do lugar, tinha ela agora, em suas mãos o dever de fazer valer seu jargão. Mas esta era a maior de todas as missões já executadas até aquele momento. Considerada “mestra” em curar qualquer tipo de problema com suas folhas e raízes milagrosas, teria ela, agora, de colocar em prova toda a sua eficácia, até por que, tratava-se de sua filha e os recursos médicos e hospitalares estavam há quilômetros dali. Então, só restavam os seus saberes. Era o momento de chamar o conhecimento empírico e fazê-lo funcionar. Estava em suas mãos resolver um caso dramático e TRAUMÁTICO com um diagnóstico de possível fratura e deslocamento do ilíaco. Como resolver tal fato com ervas? Eis aí o impasse, diante da gravidade e do estado em que se encontrava sua filha, o que fazer longe dos recursos da medicina ortodoxa, longe, literalmente, no sentido pleno da palavra? O lugarejo chamado Queima Sangue, há setenta anos atrás, não dispunha de condução, muito menos de recursos urbanos. Para se chegar a uma cidade mais próxima, onde pudesse encontrar algum Hospital, mesmo que precário, teria de viajar em carro de boi,  algumas horas de solavancos por uma estrada de chão, de poeira avermelhada, entre serras e cachoeiras, rios e pinguelas.  Tudo isto seria lindo e até pitoresco, se não fosse a urgência e a gravidade que o caso exigia.

Quarto ato:

Mas vamos ao “causo”, que é isto que nos interessa.  Dona Hercília, como boa filha da natureza que era, não hesitou em despir-se do “orvalho” e enfrentá-lo diante do problema: saiu resoluta  mata adentro em busca da erva que seria a solução para a cura de sua filha. A raizeira embrenhou-se intimamente no “ser da Selva” na selva de sua real aflição. Chegou a hora de por em evidência coragem e energia intuitiva aliadas aos saberes ancestrais. Sem outras possibilidades, segue apenas a demanda de uma ordem  interna e milenar. Uma voz silenciosa direciona a mateira e aponta para a erva, aquela que certamente seria necessária. Estamos diante de um tal “cipó” – Cipó cabeludo. De posse do Cipó, a mãe e “médica”, médica sim, pois só havia este único recurso. A pobre criatura correu para sua casa para por em prática os procedimentos equivalentes à cura de uma fratura com deslocamento de ilíaco. O Cipó desprenderia uma resina fantasticamente curativa - matéria prima básica de princípios ativos para casos como estes.

 

 Contava minha avó Hercília que este cipó tinha um poder tão mágico de entender a cura no seu tempo – quando o órgão afetado tivesse sido restaurado a resina do Cipó já teria feito seu papel de cura. O Cipó só se soltaria da pele depois de cicatrizada, expulsando a cataplasma grudada na pele, numa espécie de expurgo.  Concluía minha avó: este tempo será em torno de 30 a 40 dias, tempo suficiente para deixar agir o efeito anti-inflamatório e o cicatrizante. A partir daí é só esperar que a natureza cumpra seu ato curativo.

 

A confiança de dona Hercília no conhecimento natural, faz desse caso mais que uma aventura, tanto em torno da lenda do cipó, quanto na sua própria crença. Aparentemente, o Cipó dera conta do recado e a “doutora” herbarista também. Não fosse o desconhecimento de anatomia, tudo estaria muito bem. A faculdade do “mato” da mãe natureza, não incluíra a cadeira de ortopedia em sua aprendizagem. No caminho dos saberes de dona Hercília estavam apenas as ERVAS e a INTUIÇÃO. E ao Cipó não fora dado o direito de exercer a cátedra de fisiologia humana, ele só fez o que sabia fazer: curar,  não se importando com o que estava fora de lugar. Por isso, Erotildes ficou com uma sequela: teve sua perna encolhida, mas nada que a impedisse de andar, dançar, viver, casar e ter lindos filhos.

 

 Esta é apenas uma das muitas estórias de verdadeiras histórias de gente simples, de coisas do interior, de pessoas que apenas sabem praticar o bem. Quando lhes faltam recursos, usam então os seus saberes naturais e suas capacidades intuitivas em prol da saúde. E eu só contei esta estória para que ela não se perdesse no tempo e no limbo da minha memória. Se você leitor gostou, me aguarde. Na próxima, falarei da outra avó – a paterna.

 

 

 

 

Vannda Santana



[1] Basarab Nicolescu. Ciência, Sentido & Evolução. A cosmologia de Jacob Beehme, Attar Editorial, São Paulo, 1995 p. 91.

terça-feira, 2 de junho de 2015

O ESPELHO


O espelho

O que tento lhe traduzir é mais misterioso, se enreda nas raízes mesmas do ser, na fonte impalpável das sensações.

J. Gasquet, Cézanne

 

O edifício vizinho invadiu minha sala. Entrou pela janela e se aboletou inteiro num pequeno espelho sobre a mesa de jantar. Estranhamente, o “invasor” trouxe do lado de lá a Praça do Metrô e o prédio em  frente (este do qual estou falando) e tudo isso refletido em suas vidraças, além de um lindo pôr de sol como artífice de  grandes pareidolias. E o espelho, ao ostentar seu espetáculo, não se dá conta de tanto brilho. E a sala, mil vezes menor, cede à imagem o espaço perceptivo.

Falar sobre os “espelhos” não nos parece muito simples, quando se tem um Umberto Eco seguido de um Machado de Assis. Mesmo assim, vou me aventurar em relatar o que vi numa tarde de outono. Inicio este escrito questionando o desafio da física e da geometria, ao ver parte de um bairro com praças e prédios refletida no espelho;  ou seria a perplexidade do meu olhar diante daquelas imagens especulares? A sala, meio inibida, é o palco desse cenário de tamanha grandeza para o espetáculo. A janela de vidro fechada, nada fez para impedir tal invasão, onde as figuras multiplicadas com seus mosaicos de ilusões vestem-se de ambíguas  imagens que se  recriam de tons multifacetados. Meu inerte olhar apenas observa. E é o que tento aqui compor: fazê-los ver com palavras pensando que  aquilo que vi  atrela-se ao invisível nas palavras de  M. Merleau-Ponty  A visão é o encontro, como numa encruzilhada, de todos os aspectos do Ser. 

 E o espelho? Há um espectador atento que a tudo assiste como num filme com início,  meio e fim: a lâmina luminosa vai rolando a cena construída de inúmeras faces. Os objetos são imagens distorcidas que foram deslocadas de suas fronteiras entre o real e o imaginário, gerando esse fenômeno de percepção, aliado à especulação das imagens que dançam refletidas no espelho. Não se trata de fotografia, não há delírio que dê conta desse imaginário de transposição do real. O prédio, a praça, a janela e o espelho são elementos que formam a ilusão desse instante; a contemplação do espaço  e o  surgimento de um conceito de vazio, vazio de significado, ganha uma nova dimensão diante do contexto de uma visão ilusória.

Ao tentar descrever o processo, não o processo do espelho, mas a metáfora enganosa do real que aponta para uma imagem de realidade onde o reflexo apenas distorce aquilo que está sendo refletido e desloca o objeto para um outro lugar, gerando uma ilusão ou um paradoxo. Nada foge a especular observação. A cena importada pelo espelho transita refletida pela dupla visão e possui uma simetria semelhante ao objeto real.  Porém, aos poucos, esse objeto real vai sendo diluído pela luminosidade do sol e, aos poucos, lentamente, as cores vão se apagando em suas modulações, mudando o cenário das imagens pela radiação do sol.

Desse modo, cabe ao espectador refletir sobre aquilo que ele vê, pois nem sempre o objeto visto obedece aos critérios de sua visão. Por outro lado, a descrição de sua mente afirma ser legítima a realidade exposta daquele cenário. As imagens, quer sejam reais ou artísticas, são sempre possibilidades de uma construção, de uma experiência  vivida; ainda que, em suas histórias, haja máscaras para romper e compor fronteiras entre o simbólico e o imaginário.

E o espelho surge, assim, como objeto comum, representante não muito fiel do Outro ou de um lugar.  Mas o espelho que estou descrevendo é realmente fantástico: ele ocupa o lugar da ilusão na consciência humana, mostrando a incrível cena raptada de outros lugares de imagens multifacetadas; refletindo fragmentos quase reais, que ficaram entranhados no “olhar” que,  tal como o espelho, também repassa o que vê do objeto materializado na difusa lâmina da retina. Esta é uma percepção diante do afastamento que há entre o olhar no espelho e a forma que nele fora projetada.

 

               

 

domingo, 12 de abril de 2015

NO DNA DO TEMPO: A culpa é dos telômeros




Por: Vannda Santana


O que é velhice? Por que envelhecemos? Pois bem, tentando buscar uma explicação para tais perguntas vi-me invadindo áreas do conhecimento científico que antes não exerciam nenhum interesse sobre mim. Hoje, vencida pela indagação, busco explicações para entender como se processa o envelhecimento nas suas complexas fases da vida humana. Tarefa nada fácil para quem não possui conhecimento específico; pior ainda, quando se tenta ler a realidade com lentes leigas, pensando ser capaz de decifrar o mistério que envolve a biologia, a fisiologia e a genética de toda uma existência, acreditando na percepção de um mero empirismo. Porém, movida por essas inquietações, sigo rastreando dúvidas: onde começa a diferença daquilo que durante o ato de envelhecer parecia ser um processo normal?  A doença que se instala no corpo do idoso, sinalizando um desgaste do físico seria, então, resultado da idade ou é a degenerescência do físico débil, que não consegue reagir diante de certas patologias? Parece que estamos falando do óbvio.

Determinei meu objetivo seguindo a premissa de verificação das diferenças entre duas palavras: senescência e senilidade, procurando em suas divergências o que há de comum entre ambas. Ao debruçar-me sobre este assunto, deparei-me com um universo de informações; de estruturas e funções tão complexas que não tive outra opção a não ser a de interpretar, transliterar o que foi possível ser abstraído da literatura. A partir daí, procurei centrar meu interesse apenas no princípio de uma propedêutica biológica do processo de  envelhecimento; observando em que momento da vida uma simples mudança de comportamento celular pode significar declínio de uma estrutura física.

 Há uma vasta literatura sobre o tema velhice. Mas não é minha proposta fazer deste artigo um esboço para uma tese. Minha inquietação não chega a tanto. Quero sim, compreender o processo e dar forma às mais contundentes interpretações:  realçar o quanto há de sensível atrelado a teoria da imagem do corpo e tentar entender a imagem decodificada no corpo, perante o registro da memória que o tempo descreve como cópia desbotada da idade.

Por mais holística que seja a minha crença, por maior que seja a verdade sobre a teoria quântica, ainda assim, sigo meio confusa aceitando os ditames de um Descartes,  porém admitindo a crença em um Einstein que me leva para além do que é visto. Em meio à dúvida, opto por paradigmas que me fazem perscrutar novos sentidos. Desse modo, assisto à vida seguir seu curso driblando certezas e nos fazendo surpresas, nos oferecendo muito mais do que é por nós esperado ao longo da existência.

 Não nos parece simples encontrar respostas prontas para situações como estas que se referem à biologia e à fisiologia humana. Mas, é neste contexto que surge a palavrinha senescência apontando uma nova direção e, simultaneamente, mostrando sua diferença entre a senilidade. Pois bem, não faltaram mentes iluminadas para dar luz a esses novos caminhos de pesquisas da biologia humana. Muito já se fez, mas ainda há muito o que se fazer. Como leiga que sou, apresso-me em devorar as novas descobertas, uma vez que também me vejo cobaia no decurso desse script.

  Comportamento celular: este é o ponto x da questão. Com o passar dos anos, nosso corpo sofre uma série de transformações anatômicas e funcionais que atingem todos os órgãos e  o sistema orgânico. Enumeremos alguns exemplos: o adelgaçamento da pele, do cabelo, das unhas, além do enrijecimento dos vasos sanguíneos e a redução de algumas células de defesa do organismo. Estes são alguns dos exemplos que estarão presentes nestas mudanças que são denominadas senescência ou envelhecimento normal. Entretanto, é importante notar que uma coisa não está aliada à outra e nem são acompanhadas de sintomas e nem interferem negativamente no estilo de vida de cada um. Isto se deve ao simples processo de envelhecimento dos seres vivos compreendido cientificamente pelo nome de senescência celular.

Bem, foi o que entendi do que pude transliterar do texto científico. Compreendi que é assim que funcionam as células de um organismo vivo. Elas apresentam a capacidade de se dividirem para poderem dar lugar àquelas que por qualquer razão pararam o seu processo de metabolização. Diante deste  resultado, temos o processo de envelhecimento ou a senescência celular quando as células param o seu método de divisão. É assim que a “coisa” funciona: as células senescentes, ou seja, as células envelhecidas param de se dividir quando os telômeros que protegem as extremidades dos cromossomas se encurtam até alcançar o limite de Hayflick. Esse limite, foi descoberto por Leonard Hayflick como resultado de dados empíricos e pesquisas aplicadas às células humanas. Esse cientista verificou que as células de nosso corpo podem se dividir apenas um certo número de vezes. Toda vez que uma célula se replica, ela acaba tendo seus telômeros diminuídos. Cada nova célula tendo os telômeros menores ficam fadadas a começarem a envelhecer, apresentando, assim, mais problemas até que o limite crítico seja atingido e a célula não possa mais viver. Essa é a função dos telômeros; são eles uma espécie de tampões nas extremidades dos cromatídeos. O estudo de Leonard Hayflick foi tão importante que desbancou um ganhador do Prêmio Nobel, Alexis Carrel, que afirmava a existência de imortalidade em células normais.

A descoberta dessa diminuição, que gera envelhecimento nas células, está ligada diretamente ao envelhecimento humano natural. Além disso, os telômeros menores abrem espaço para diversos problemas, devido a uma diminuição da capacidade imunológica das células, o que pode abrir “janelas” para o avanço de doenças oportunistas, autoimunes que atacam nossas células.

Cabe aqui uma pergunta: se nossas células possuem essa programação para morrer, qual será o limite da vida?

Mitos ou verdades. Mas a verdade é que ninguém sabe exatamente tudo sobre a vida. De acordo com alguns pesquisadores atuais, os cientistas acreditaram que durante muitos anos uma pessoa jamais passaria dos 110 anos, porém esse pensamento foi mudado. Jeanne Calment, que nasceu em 1875 e viveu até 1997, mostrou que o corpo humano pode passar dos 120 anos, algo realmente incrível. Mesmo essa idade não sendo o limite definitivo, ela pode estar muito próxima dele, o que é um grande problema para os planos de vida eterna dos humanos. Várias pesquisas sobre como impedir os telômeros de diminuírem com o passar do tempo estão sendo feitas e até que a humanidade encontre a “cura” disso, não faça muitos planos para depois dos 120.

 Os pesquisadores Victoria Lundblad e Timothy Tucey fizeram descobertas importantes de como funciona a enzima telomerase no Salk Institute for Biological Studies. De acordo com o que foi dito, à medida que nossas células se dividem – para renovar tecidos da pele, pulmões, fígado e outros órgãos – as extremidades dos cromossomos presentes nas células vão se encurtando cada vez mais. Esta afirmação, baseada em pesquisas anteriores apontam para as novas descobertas: Quando essas extremidades, chamadas telômeros, tornam-se muito curtas, as células perdem a capacidade de se dividir, o que promove a degeneração dos tecidos. Isso é o que geralmente ocorre com o envelhecimento. Cientistas descobrem “interruptor” que atua em envelhecimento celular [1].

Concluiu-se que em algumas situações os limites entre senescência e senilidade não são tão claros. Desse modo, fica uma observação: assim que o  indivíduo perceber algum sintoma ou mudança no padrão de funcionamento do seu corpo, deve-se procurar ajuda especializada e não acreditar que "é normal da idade”. Outro recado: o envelhecer ainda é um processo cercado de muitos preconceitos, além de grandes dúvidas. Portanto, só nos cabe acreditar que muito já se descobriu, mas ainda há muito o que se fazer; sabemos que há diversas pesquisas em andamento no mundo inteiro com o objetivo de alavancar o entendimento sobre esta fase da vida. Desse modo, é melhor agirmos em defesa de nossos estímulos físico e emocional e, assim, estabelecer as condições necessárias para nos mantermos ativos, produtivos e com qualidade de vida, enquanto a eternidade não vem.


Referências:

Sites: